sexta-feira, 30 de abril de 2010

Parte 3 - Um bom jantar e uma má notícia!

Ainda não era meio dia e o sabor amargo da derrota percorria as mentes e os corpos dos quatro aventureiros, Robs passava a mão em sua barba andando em círculos com pequenos passos e pensando longe, Phillipus cuspia sangue, estava sentado e passava a mão na boca para ver se ainda tinha todos os dentes, seu rosto estava terrivelmente ferido e seu orgulho também, Al Rinaldi atendia Aderlius que parecia estar inconsciente, Kalil, agora com o rosto descoberto estava recostado em uma árvore tentando entender o que ocorrera e Wellan, bem, ele estava louco para esfolar Al Rinaldi, e ainda não o havia feito por que o homem parecia ter conhecimentos médicos, e seu amigo grandalhão carecia muito disso, venenos élficos são mortais, principalmente em se tratando de elfos da noite.
A carruagem havia virado um monte de carvão cujas brasas ainda fumegavam, um dos cavalos havia morrido e os outros três estavam feridos, mas ainda conseguiam viajar, os que serviam de montarias não haviam sofrido mais que pequenos arranhões, Al Rinaldi se levantou e veio em direção aos outros aventureiros deixando Aderlius deitado com um cobertor que ele havia levado consigo ao ser arrancado da sua bela condução:
- Seu amigo vai ficar bom, mas vai sofrer um pouco até o veneno sair completamente do seu sangue, eu sempre carrego alguns antídotos e algumas pomadas, o veneno que lhe foi aplicado é veneno feito com a mais pura maldade, o remédio que eu lhe dei vai fazê-lo suar muito, suar sangue – disse num tom firme – somente assim todo o veneno sairá, caso contrário ele iria morrer antes que a noite caísse!
Mal terminou de falar, Wellan pegou Al Rinaldi pelo colarinho de forma violenta a ponto de seu turbante se desenrolar e cair no chão:
- O que você estava transportando aqui a ponto de um elfo negro e um mago nos interceptar? O que? Gritou o cavaleiro com uma fisionomia nada amigável.
- Eu não sei ao certo?
- Não sabe ao certo? Você sabe o que é um soco? Por que eu vou te encher até sua memória ficar boa novamente!
- Opa, vamos parar por aqui, agora não é hora para isso! Interferiu o paladino tirando AL Rinaldi das mãos do cavaleiro.
- Qual é Robs! Precisamos de respostas, esse cara não é apenas um figurão!
- E por acaso batendo nele as coisas vão se acertar?
Wellan não respondeu, apenas chutou um punhado de terra do chão e se encostou em uma árvore olhando para o céu, que começava a juntar urubus prontos para banquetear os orcs.
- Meu amigo é meio esquentado Sr. Al Rinaldi, mas não tiro sua razão, afinal precisamos de respostas, quem é você realmente e o que tinha na carruagem?
O homem se abaixou para pegar seu turbante e o enrolou novamente em sua cabeça:
- Eu realmente sou ministro do Rei de Nashaf, e também sou médico da família, sou homem da sua mais alta confiança, ele ordena e eu cumpro sem questionar, apenas me disse que essa entrega tinha urgência e que como a carruagem era nobre e os guardas tinham o brasão real e eu uma carta de recomendação do Conde de Minalmar não teria problemas no caminho, afinal eu seria apenas um viajante com especiarias em forma de presentes entre dois amigos de terras distantes, esses homens que nos emboscaram sabiam o que eu levava, ele perguntou diretamente pela encomenda, e ela estava trancada dentro de um cofre, não entendo o que aconteceu.
- O seu rei foi traído, foi isso que aconteceu! Disse com dificuldades Phillipus.
- Não vamos tirar conclusões precipitadas! Falou Robs.
- Afinal o que era a encomenda e por que nos falou abertamente na taverna que o que você levava poderia ajudar muitos povos?
- No meio das especiarias estavam várias ervas medicinais que podem ajudar muitas pessoas com doenças ou como seu amigo, com venenos. Respondeu Al Rinaldi se agachando próximo de Phillipus e abrindo um envelope com uma pasta amarelada e de cheiro muito forte.
- O que é isso? Perguntou o ranger apreensivo.
- É uma pomada muito boa para ferimentos.
O ranger não esboçou reação e deixou Al Rinaldi passar a pomada sem maiores problemas, o que era raro, diga-se de passagem, isso indicava que a dor era lacerante. O que causou espanto nos amigos.
- Mas não era isso que eles queriam, era? Continuou o questionamento Robs.
Al Rinaldi balançou a cabeça em negativa:
- Sei que eram três esferas, com desenhos se não me falha a memória.
Quando Wellan ouviu aquilo voltou para perto de Al Rinaldi e Robs, estava pálido:
- Você disse esferas? Com desenhos? Quais desenhos, por favor, tente se lembrar?
- Se eu não estiver enganado, eram um dragão, uma serpente e um sapo, um em cada esfera.
O pavor tomou conta do rosto de Wellan que pronunciou mais para si do que para os outros:
- As esferas de Eratam!
- Esferas de Era o que? Perguntou Phillipus.
- Eratam, um artefato antigo, uma relíquia do mundo antigo, aprendi isso na escola para cavaleiros, para nós homens de armas não passa de esferas decoradas e não serviriam mais do que para brincarmos, mas nas mãos de um mago poderoso é uma arma das mais letais, principalmente se o mago tiver conhecimentos profundos em feitiçaria e magia negra.
- Nesse caso, vamos o mais rápido possível para Minalmar! Exclamou Robs!
- É, antes que viremos banquete de abutres! Reclamou Phillipus!
Os três cavalos machucados estavam sendo guiados por Kalil, dos quatro de montaria um estava com Al Rinaldi, outro levava Phillipus e puxava Aderlius numa espécie de maca improvisada com galhos e coberta com pedaços de folhas e tecidos, os outros carregavam Robs e Wellan. Foi um dia duro e uma noite mais dura ainda, muito frio, fome e sede, pois pararam apenas três vezes até chegarem a Minalmar, estavam exaustos e Aderlius parecia estar se recuperando, mas ainda estava muito mal, os cavalos eram realmente bons, pois ainda conseguiram chegar antes do almoço.
Assim que chegaram Phillipus desmaiou de cansaço, Aderlius gemia na maca que estava encharcada de sangue, Robs estava desconfortável, talvez pelo mesmo motivo que Wellan:
- Odeio andar assim sem parar, estou todo assado!
- Não precisa falar Wellan, se liga!
- Cara, não to nem aí, estamos arrebentados, nossos amigos quase mortos, mas se alguém zombar de mim por que eu disse que estou “assado” meto a espada na garganta! Agora vamos procurar uma pousada!
- Creio que não será necessário, vamos até a residência do Conde, com certeza ele irá dar abrigo a vocês! Comentou Al Rinaldi.
Assim que chegaram as portas da luxuosa residência do Conde e Al Rinaldi se anunciou todos foram bem recebidos, outros médicos foram chamados e Al Rinaldi contou o que já havia feito em relação aos dois mais feridos, Aderlius e Phillipus, todos ganharam um bom banho e roupas quentes, uma refeição foi posta a mesa, na verdade um banquete, se fartaram de comer, Phillipus só conseguiu tomar sopa, e Aderlius estava num quarto melhor até do que havia ficado no Recanto do Tião, uma garota de vestes serviçais de rosto muito bonito trouxe alguns biscoitos e uma bebida quente ao bárbaro que não era acostumado aquela paparicação quanto estava ferido:
- Moça, pode chamar meus amigos?
- Eles estão na sala de jantar junto de meu senhor, e recebi ordens de não os interromper durante esse tempo.
- Sala de jantar? Onde eu estou afinal de contas, no céu?
- Está na residência do Conde de Minalmar, e deve ficar em repouso, são ordens do médico!
- Que repouso que nada, um bárbaro não tem essas frescuras! Disse o bárbaro levantando-se rapidamente para novamente cair feito saco de batata, o veneno ainda não havia saído totalmente de seu corpo. A moça o ajudou a se deitar novamente, meio contra a sua vontade, afinal Aderlius sempre fazia tudo sozinho, mas até que gostou de sentir aquelas mãos macias em seus braços.
- Qual é seu nome?
- Tilia!
- Poderia ficar e fazer companhia, vai que eu cai novamente? Aderlius abriu um largo sorriso.
Na sala de jantar Al Rinaldi contou todo o ocorrido, sua saída de Nashaf, a tentativa de roubo onde dois de seus soldados tombaram (é provável que aquele ocorrido realmente tenha sido uma tentativa de roubo, pela nobreza da carruagem), como encontrou os quatro em Turque, a emboscada, e a revelação do que transportava.
O Conde parecia ser um homem experiente, sua face trazia marcas de guerra e uma longa e bem cuidada barba branca, sua pele era clara, seus cabelos bem cortados e brancos como o algodão, alto e de porte médio vestia um traje de gala, assim como cada um dos que se encontravam na mesa, todos haviam ganho trajes especiais para aquela ocasião:
- Não é sempre que convido soldados que não conheço para se assentar a mesa comigo e meus amigos. Porém, já ouvi falar de vocês, meu grande amigo, o Rei Lionel, me contou sobre como vocês escoltaram sua filha, a Princesa Linara algumas vezes, quando Al Rinaldi começou descrevê-los logo os identifiquei. O Conde tinha uma voz calma e retumbante.
- Obrigado senhor, é muita bondade sua nos conceder a honra de estarmos à mesa com tão majestosa presença. Agradeceu o paladino com um gesto de reverência.
A mesa era retangular e longa, de um lado estavam os três companheiros, Robs, Wellan no meio e por fim Phillipus, do outro lado Al Rinaldi e Kalil, na extremidade direita, a direita de Robs se assentava o Conde, em uma cadeira prateada e diferente das outras, na extremidade esquerda o assento ainda estava vazio.
- Talvez vocês não saibam, mas o artefato perdido é de grande relevância para o andamento das coisas nesse mundo.
- O pior é que eu sei sim! Respondeu o cavaleiro.
- Conhece as esferas de Eratan?
- Só na teoria, mas se o que ouvi for verdade, precisamos recuperar elas ou estaremos em sérios apuros.
- Creio que o que você ouviu na teoria não é nem metade do que realmente essas esferas podem desencadear no mundo.
- Estou começando a ficar preocupado. Exclamou Phillipus.
- Bem, se soubesse o poder contido naquelas esferas estaria procurando um lugar para se esconder.
- É, a ignorância é uma benção! Comentou Wellan.
- Mas agora vocês já não são mais ignorantes quanto às esferas, e ainda por cima elas se perderam por causa da sua imperícia em combate.
- Ei, não é bem assim, por que o homem do "turbante" não nos avisou o que transportava? Reclamou Wellan.
- Bem meu jovem, eu tenho muitos anos de experiência e aprendi que quando se dispomos a fazer algo devemos fazer bem feito, afinal vocês estavam sendo pagos para isso, Al Rinaldi não precisava dar satisfação nenhuma, vocês foram contratados e ponto final.
Wellan se calou vermelho de raiva, Phillipus também não gostou do que ouviu, mas ambos preferiram o silêncio.
- Vossa majestade poderia nos contar um pouco sobre essas esferas e por que estavam vindo para cá? Perguntou Robs educadamente.
- Bem, por muitos anos as tenho procurado, não para usá-las, mas para destruí-las, são relíquias antigas, herança maldita de um tempo que já não é mais lembrado, no entanto, assim como eu, outros a procuram, mas para ativá-las. Elas estavam perdidas até onde sabíamos, amigos meus de todos os continentes procuravam e finalmente o grande Rei de Nashaf com sua guarda Invencível as localizou no Mar de Areia e logo em seguida me enviou, mas era necessário muita descrição, por isso tentamos fazer que tudo parecesse apenas uma viagem de um nobre carregando presentes de um Rei para um Conde, infelizmente alguém nos traiu.
- Como o senhor sabe de tudo isso? Perguntou Phillipus.
- Bem, isso é uma longa história, e quem sabe se vocês retornarem com vida e com elas eu poderei estar lhes contando.
- Nós iremos recuperá-las! Bradou o paladino.
Wellan e Phillipus apenas o olharam com rosto cético quanto a isso, artefatos poderosos assim costumam ser procurados por gente poderosa, e isso realmente era um grande problema.
Der repente à porta do salão se abriu, uma linda mulher de uns 30 anos surgiu, trajava um longo vestido dourado, seus cabelos eram vermelhos e sua pele clara, os olhos estavam pintados e seu perfume adocicado tomou conta do ar do salão, o vestido tinha uma longa abertura nas costas e um decote generoso que acentuava os seios da mulher. Os três pararam de comer e apenas observaram a dama se achegar a mesa, Robs disfarçou a surpresa, Wellan errou a boca e borrou o rosto com molho, Phillipus deixou a sopa cair pelo canto da boca.
- Bela filha o senhor tem, conde! Comentou meio abobalhado o cavaleiro.
- Oh não, essa é minha esposa, a Condessa de Minalmar! Respondeu o Conde.
Phillipus se afogou e abaixou a cabeça para disfarçar, Wellan ficou com cara de paspalho e a boca aberta sem saber como consertar a gafe, já Robs balançou a cabeça e deu graças por Aderlius não estar ali, ou a situação poderia ser pior:
- Encantado senhora Condessa! Falou o paladino.
Depois disso o jantar continuou, Wellan não abriu mais a boca, coube a Robs e até a Phillipus contar um pouco sobre eles e se mostrarem interessados em ir atrás das esferas, eram aventureiros e honrados, e sabiam que se elas caíssem nas mãos de Mark, todo o mundo iria perecer sobre as trevas do mago que tinha um alto grau de conhecimento em magia negra.
- Bem, vocês vão precisar de mais soldados para irem atrás disso, estarei disponibilizando os melhores homens.
- Obrigado Conde, mas tenho certeza que ainda posso rastreá-los pela floresta, além do que, estamos atrás de um mago e um elfo da escuridão, quanto mais gente pior, eles logo saberão que estão sendo seguidos, iremos nós e veremos se eles são tão bons em combate cara a cara quanto são para emboscar. Comentou o ranger.
- Se Aderlius estiver recuperado partimos logo cedo, se ele não estiver, se recupera no caminho, partimos logo cedo de qualquer jeito. Afirmou Robs.
Assim que amanheceu, os quatro estavam prontos, Al Rinaldi lhes forneceu os cavalos, e o conde os suprimentos, Aderlius ainda não estava em sua melhor forma, Kalil pediu para ir junto, mas eles acharam melhor ele ficar (o que eles veriam que foi um erro), seria um dia e meio com uma pequena parada para um cochilo e uma refeição até o ponto onde foram emboscados, e dali para frente eles sabiam que nada estava garantido, nem mesmo suas vidas.
Continua...

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