domingo, 18 de abril de 2010

Parte 1 - O Recanto do Tião

A aventura caro leitor começa em um ambiente típico de histórias como essa, uma grande taverna, pouco iluminada e com muitos indivíduos mal encarados, era uma noite atípica no Recanto do Tião, não que ela não fosse sempre cheia, afinal a cidade de Turque era uma cidade costeira, sendo assim muitos viajantes sempre estavam de passagem com os mais variados objetivos, desde o mais nobre até o mais vil, e ali era o local ideal para traçar planos e também descansar, claro. Era inverno, e há dois dias o sol ardido ainda queimava a pele e judiava dos pescadores e viajantes daquelas paragens, mas da noite para o dia, uma forte tempestade de neve teve inicio, o mar também se agitava muito, e por esse motivo os viajantes que estavam só de passagem tiveram de ficar por ali, existiam outras “pousadas” menores, mas já estavam todas ocupadas e a maioria não oferecia boa diversão como o Recanto do Tião. Em um canto iluminado por duas velas se encontram nossos quatro aventureiros, quatro amigos, discretos a toda a confusão, bebedeira e prostitutas em busca de homens de títulos. O primeiro, sentado de frente para a parede, tinha uma bela armadura com símbolos religiosos e parecia incomodado com algo devido a sua inquietação, o segundo era loiro de cabelos compridos, de aparência franzina, vestia uma armadura de couro batida esverdeada e parecia se divertir analisando folhas de arvores, o terceiro, também vestia uma armadura como o primeiro, menos nobre, mas não menos de destaque, havia um brasão nos dois braços, estava quieto, o que era raro, e sem o elmo, dirigia um olhar frio a um dos homens que pareciam se esconder em um canto escuro da taverna, o quarto era um homem grande e musculoso de cabelos negros e médios, não usava armadura, vestia uma calça de couro e um blusão de peles de lobo, bebia o sexto jarro da bebida da casa e sua fisionomia delatava que logo iria tombar se não parasse.
O primeiro era Robs Slayter, um paladino fiel em seus caminhos e pregador dos bons costumes, ótimo com sua gigantesca espada, a “Matadora de demônios”; o segundo era Phillipus Yankass, um ranger quieto e muito astuto, sua aparência franzina não condizia com suas habilidades no campo de batalha, se lhe faltava músculos, sua velocidade compensava, era perito em o arco; o terceiro era Wellan Sarctos, cavaleiro sem senhor, falador e com senso de justiça próprio, sua honra estava acima de tudo, carregava uma espada menor que a do paladino; o quarto era Aderlius Max, um bárbaro de força descomunal que manobrava seu machado de dois lados como poucos no mundo, seu coração era tão grande quanto seus músculos, era talvez o mais “sensível” do grupo, fiel aos amigos; cada um tinha sua história, seus objetivos e motivações, não concordavam em tudo, mas andavam juntos por que sabiam que podiam confiar um no outro, coisa difícil nos dias de hoje, pesava também o fato de terem um inimigo em comum: Mark, um poderoso Mago, respeitado nos círculos da magia e entre as altas castas sociais, seus objetivos inescrupulosos só evidenciavam seu caráter totalmente maligno.
- Eu não deveria estar aqui, isso não é lugar para um paladino! Resmungou Robs.
- Aproveita pra pregar pras esses coitados, seu deus não é misericordioso? Disparou Phillipus.
- Como vou pregar nesse lugar, o pessoal está todo bêbado –parou um pouco e olhou para o lado- e tem muita coisa acontecendo ao mesmo tempo, quem iria prestar atenção em mim?
- Onde está sua fé amigo? Perguntou Wellan.
- Quer saber, se não fosse pelo Poderoso todos nós já estaríamos mortos!
- Eu não duvido amigo, apenas perguntei de sua fé, afinal este é um bom lugar para se pregar esperança.
- Você pode até estar certo... e, por que está olhando tão fixamente para aquele canto, o que está pensando caro cavaleiro?
- Se não estou enganado tem um homem lá, e ele é acusado de estupro!
- Oh, como se não estivéssemos no meio de gente de todo tipo, dá um tempo Wellan! Falou ironicamente Phillipus.
- Se há outros estupradores aqui eu não sei, mas aquele eu sei que é, e ele deve ser punido pelo seu crime, vai sentir o peso da minha mão!
- Ei, espera aí, não vá nos meter em confusão! Reclamou o ranger.
- Você não pode sair por aí aplicando sua sentença sem provas, isso não é certo. Falou o paladino.
- Eu vi, tenho provas, meus olhos são testemunha, pronto, não precisa de mais nada.
- É por isso que você nunca conseguiu entrar para a Ordem. Disse o paladino olhando nos olhos do cavaleiro.
Wellan suspirou, e quando iria responder, Phillipus disparou:
- Além do mais, se você se meter em confusão novamente vamos te deixar sozinho, está muito frio lá fora e eu não estou nem um pouco a fim de morrer congelado nessa tempestade por sua causa.
O cavaleiro recostou-se na cadeira de braços cruzados emburrado e resmungando.
O bárbaro parecia alheio a tudo o que falavam, Aderlius não era muito forte para bebida, mas como a especialidade da casa “Baba de lagarto” era muito doce, toma-se sem se perceber seus efeitos, efeitos esses que eram evidentes pela fisionomia do bárbaro.
A noite adentrava e os quatro amigos se deliciavam com uma bela carne de javali, especiaria cara, não era qualquer um que conseguia pagar uma carne tão bem preparada como aquela, o que chamava à atenção de alguns homens que freqüentavam a taverna naquela mesma noite, até por que as roupas e armaduras dos nossos aventureiros não era comum, e isso também era bom, pois ninguém iria querer roubar-lhes ali, talvez mais tarde quando fossem dormir isso seria possível, de qualquer modo aventureiros experientes dormem de “olhos abertos”. Não era permitido entrar no Recanto do Tião portando armas, elas ficavam em uma espécie de guarda volumes protegida por dois brutamontes e um segredo dado a cada viajante, sem o qual era impossível tirar as armas sem uma pequena alfinetada de veneno.
Um homem com vestes nobres e usando um turbante adentrou o Recanto, deu uma olhada ao redor e logo foi se aproximando da mesa de nossos aventureiros, o homem possuía um ar aristocrático e sem cerimônias dirigiu a palavra num sotaque arrastado:
- São vocês os homens que fizeram a escolta da Princesa Linara?
O paladino muito educado cumprimentou o homem e acenando com a cabeça fez um gesto para o homem sentar-se.
- Não tem lugar pra cinco nessa mesa, vai ficar apertado! Resmungou o cavaleiro.
O ranger por sua vez desconfiado, apesar de não portar armas visíveis sempre carregava algumas setas de flecha no cinto e quando necessário os colocava entre os dedos para uma emergência, o bárbaro, bem, o bárbaro sorriu para o homem e fez um gesto de saúde erguendo sua jarra de Baba de Lagarto.
- Deixe de ser rabugento Wellan, perdoe os maus modos de meu amigo, sempre há lugar para mais um em nossa mesa! Disse o paladino cordialmente.
- Obrigado Sr..!?
- Robs, a sua disposição!
- Obrigado Sr. Robs, meu nome é Al Rinaldi, e prefiro ficar em pé, tenho uma missão, uma escolta e como vocês são homens acostumados a escoltar nobres, ao menos foi isso que me informaram, gostaria de vermos a possibilidade de estarem me escoltando.
- Bem, está caindo uma baita de uma tempestade lá fora, não estamos dispostos a viajar assim, seria suicídio. Respondeu o paladino.
- Ó não homem santo, viajaremos assim que esse mau tempo passar, para andar uns cinqüenta metros da pousada onde estou até aqui foi como andar na mais densa escuridão.
- E por que nos escolheu para essa missão? A cidade está cheia de boas escoltas, estão todos esperando o mal tempo passar! Questionou o ranger sem olhar para o homem.
- Estou viajando a três semanas, e faltam apenas quatro dias para meu destino final, há três dias fomos emboscados na Ponte do Desespero, eu tinha uma escolta de cinco cavaleiros, bons soldados, nessa emboscada dois deles tombaram em combate, dos três que restaram um está com um ferimento grave em um dos braços, outro caiu de cama com uma febre alta assim que chegamos a cidade ontem a tarde, desde então tenho procurado bons homens para esta empreitada, mas o preço que estão cobrando é muito alto, talvez com vocês eu possa negociar.
- E por que acha que cobraríamos menos, temos cara de quem tá precisando de esmola? Falou asperamente o cavaleiro!
O homem sem esboçar qualquer reação respondeu:
- Estou levando uma encomenda para o Conde de Minalmar e ele sempre é muito generoso para com os soldados que escoltam suas entregas, mas não sei como ele irá proceder, só posso prometer o que me foi autorizado, além do mais estou levando algo que será benéfico para todos os povos, ao menos foi isso que me disseram quando iniciei a empreita.
- Como assim, me disseram? Você não sabe o que leva? Questionou o paladino com ar de preocupado
- Sou apenas um Ministro da terra de Nashaf, meu Rei me incumbiu disso, eu não questiono meu Rei. Posso pagar a vocês o equivalente a quinze dias de trabalho por esses quatro dias.
Esfregando sua barba na altura do queixo com a mão direita, Robs raciocinava:
- Bem, Minalmar fica no sul, estamos indo para lá, acho que podemos aceitar, quer dizer, o que vocês acham? Disse gesticulando com a cabeça para os companheiros.
- Se está na nossa rota, por mim tudo bem! Aceitou Wellan.
Phillipus fez um aceno de sim com a cabeça.
Todos se voltaram para o bárbaro sem muita esperança de que houvesse entendido, e ele soltou um arroto gutural em direção aos companheiros.
- Nossa cara, o que você comeu? Carniça? Disse o cavaleiro levantando-se da cadeira!
- Que é isso Aderlius, na minha cara! Indignou-se o ranger, que também se levantou.
Os dois pegaram o bárbaro cada um de um lado.
- Vamos lá amigão, já tomou demais!
- É, não vai querer passar vergonha novamente não é?
E os três se retiraram do recinto para seus dormitórios em meio a muitos olhares.
- Perdoe os modos de meus amigos – disse o paladino meio sem jeito – garanto que são ótimas pessoas, e ótimos guerreiros.
- Tudo bem, estou acostumado, eu e os soldados estamos hospedados ali na Pousada Dragão Azul, estarei lá na frente pela manhã, caso a tempestade não passe até lá, assim que o tempo melhorar enviarei um dos soldados para os chamarem Sr. Robs.
Os dois se cumprimentaram, Al Rinaldi saiu pela porta tão rápido quanto entrou, o paladino também aproveitou para retirar-se daquele ambiente e ter um pouco de descanso, os dias anteriores haviam sido duros, e essa empreitada parecia ser fácil, mesmo que meio obscura. Naquela noite, cada um em seu dormitório teve um agradável tempo de sono, proporcionado pela tempestade, pois não estava em seus planos ficar por ali aquela noite.
O que nenhum deles percebeu é que um olhar malicioso se voltou para eles assim que Al Rinaldi se achegou a mesa e esse mesmo olhar os acompanhou até que saíssem do salão.

Continua...

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