sábado, 29 de maio de 2010

Parte 6 - O plano "infalível" de Wellan

Wellan se defendia como podia, um dos homens o atacava implacavelmente, a cada golpe seus braços desfaleciam mais, o ombro direito que havia colocado no lugar latejava sem parar; Phillipus mesmo com dificuldade conseguiu armar o arco e disparar uma flecha, acertou no peito do homem que havia avisado os outros guardas batendo na porta, o ranger era muito bom com o arco, mas desta vez o inimigo não morreu de primeira, pelo fato de estar com o braço machucado não o acertou em cheio, de qualquer forma era um guarda inteiro a menos, assim que viu a flecha acertando o adversário começou a armar o arco novamente, o próximo disparo iria demorar. Aderlius desferiu um forte golpe contra um dos guardas que de defendeu com o escudo, o guarda caminhou para trás, tentou contratacar e não conseguiu, o bárbaro estava insano e deu mais um golpe que fez com que o guarda caísse sentado protegido pelo seu escudo, Robs duelava com o outro guarda e tentava dialogar ao mesmo tento:
- Por favor, houve um mal entendido, não precisamos nos matar, vamos conversar!
- Você vai conversar com os demônios quando eu te mandar para o abismo invasor!
- O que vocês guardam atrás dessa porta aponto de darem sua vida?
- Nunca vai saber cavaleiro santo, pois vai morrer aqui fora!
O homem atacou o paladino com a espada e em seguida avançou com o escudo que o acertou e o jogou para trás, Robs se defendeu com sua longa espada, encarou o guarda nos olhos:
- Você teve sua chance!
Wellan recuou até encostar-se na parede da caverna, um golpe com o escudo na mão do cavaleiro lançou sua espada para longe, o guarda armou o golpe com a espada, Wellan se esquivou, a espada do adversário tirou lasca da rocha, o cavaleiro segurou na mão do guarda que empunhava a espada, mas acabou por levar um pancada do escudo no rosto, Wellan cambaleou para o lado e se esquivou como pode, dessa vez o golpe passou muito perto da sua cabeça. Aderlius não teve pena do adversário, o massacrou com seu machado até que o escudo partisse e finalmente chegasse ao seu portador, com um golpe certeiro o bárbaro acabou com o guarda que se opôs a ele, Phillipus conseguira armar o arco novamente, mas seu disparo foi muito impreciso e não acertou nada nem ninguém, a flecha caiu poucos metros de onde se encontrava, o homem ferido retirou a flecha do peito e novamente corria para a porta:
- A não, de novo não! Disse o ranger correndo para cercar o guarda.
Aderlius levantou a cabeça e viu o sufoco que Wellan estava passando, ele estava um pouco longe, soltou um grito de intimidação e lançou seu machado contra o guarda que mesmo se assustando conseguiu rebatê-lo, o cavaleiro não pensou duas vezes, pulou contra o corpo do homem e o derrubou, deu-lhe um soco no rosto e segurou a mão que estava portando a espada, o guarda tentava se defender com o escudo, Wellan deu-lhe um soco no pescoço, o guarda se debateu e o braço com o escudo amoleceu, o cavaleiro socou-o até que ele ficasse desacordado, havia socado seu adversário com o braço que latejava, assim que o homem desfaleceu Wellan se levantou gritando e segurando o braço com grande dor.
Phillipus havia alcançado o homem que por estar ferido não corria como antes, sacou sua espada e cortou-lhe na altura da cintura, o guarda caiu gemendo. Robs estava apenas se defendendo dos ataques do guarda que o enfrentava, perdeu a paciência e soltou um golpe que treinara muito, a espada do homem quebrara, durante o golpe Robs virou a espada e seu lado largo atingiu o braço do guarda esmagando seus ossos, o homem caiu de joelhos e começara a gritar por socorro, um chute certeiro em sua boca lhe calou, era Aderlius que conhecia bem o amigo paladino que evitava o máximo matar sem antes tentar conversar.
- Não olha assim não Robs, só chutei para ele ficar quieto!
- É, você quebrou o pescoço dele! Disse o paladino verificando se o guarda estava vivo.
- Poxa, não foi minha intenção, às vezes não tenho noção da minha força!
Wellan tirou a armadura do guarda que socara e a vestiu, Phillipus chamou seus amigos, o guarda que ele interceptara estava vivo, caído com um furo peito e um corte na cintura, Robs se aproximou, o homem estava gemendo e praguejando, o paladino fez sinal para o bárbaro não se aproximar se abaixou e ajudou o guarda a se levantar:
- Posso fazer com que sua dor diminua, mas preciso que me conte o que há por trás dessa porta!
- Vá se ferrar seu verme, é melhor me matar, nunca vão conseguir entrar aí.
- Nesse caso vou te matar e depois entrar, quer apostar? Interveio o cavaleiro terminando de encaixar a luva e aproximando seu rosto do guarda.
- Saia daqui Wellan, ninguém vai matar esse homem, ele está ferido e é inofensivo.
- Vai nessa – disse o cavaleiro desviando o olhar para o guarda novamente – se você tentar qualquer coisa vou deixar você tão bonito quanto seu amigo ali! Apontou para o guarda que ele havia tirado a armadura após massacrar seu rosto.
- Afinal de contas, o que vocês querem seus imbecis?
O paladino sem perder a postura respondeu calmamente:
- Por acaso um elfo da escuridão acompanhado de um mago com capuz roxo entrou aqui?
- Por que não perguntou antes, sim, entraram sim, eles entram aqui a todo o momento.
- Pode nos dizer quem são?
- Sou apenas um guarda, não tenho contato direto com ninguém a não ser meu comandante.
- Então você vai nos levar até ele.
- Não posso.
- Por que não?
- Por que ele está ali! Apontou para o guarda cujo Aderlius quebrara o pescoço com seu chute.
Robs colocou a mão no rosto, o bárbaro se afastou, Phillipus deu uma risadinha irônica e Wellan se aproximou:
- Eu tenho uma idéia!
- Suas idéias são suicidas, eu não vou partilhar delas de novo! Respondeu Robs.
- Olha quem fala, e suas idéias que nem funcionam.
O ranger interveio:
- Deixe Wellan expor a idéia dele, creio que não temos muito tempo, aliás, nem sei como a porta ainda não abriu de novo.
Rapidamente o cavaleiro explanou seu plano, Phillipus não gostou muito, mas acenou com a cabeça positivamente e começou a vestir a armadura do homem que Aderlius derrubara com o chute, a princípio era para o bárbaro vestir a armadura do capitão, mas ela ficou apertada para ele e assim o ranger a vestiu. Aderlius e Robs não gostaram nem um pouco do plano, mas sem tempo para pensarem em algo melhor também concordaram, amarraram a boca do guarda ferido com uma corda e colocaram um saco em sua cabeça, tiraram sua armadura o vestiram com os restos da armadura de Wellan, os guardas cujo ranger e o cavaleiro tiraram as armaduras junto com o guarda derrubado por Aderlius com seu machado foram arrastados para o corredor até a região onde tudo era escuro, os dois guardas que faziam a guarda inicialmente foram fixados na parede com uma espécie de cola tirada de árvores que Phillipus carregava e nunca havia tido utilidade até aquele momento. Robs e Aderlius também foram amarrados e tiveram suas cabeças cobertas, logicamente as amarras dos dois foram deixadas frouxas, gastaram certo tempo para realizar todas essas tarefas, além é claro da batalha, e era estranho que ninguém mais aparecera para fora da porta, o paladino acreditava que tudo era uma providência divina por isso não se importava, Aderlius não gastava sua inteligência pensando nisso, Phillipus estava descrente no plano e Wellan achava que tudo aquilo já era uma prova de que seu plano era infalível. As armaduras dos guardas tinham um elmo que cobria todo o rosto do seu usuário, Wellan bateu na porta, momentos depois uma fresta se abriu:
- A senha, declare a senha!
- A senha, sim, claro a senha!
- Vamos soldado ou serei obrigado a prendê-lo, a senha!
- Sim, claro a senha, é ab COF COF BLUSS!
- O que é isso?
- Estou meio resfriado!
- A SENHA AGORA, OU VAI PARA A PRISÃO! Ordenou o guarda com uma lança apontada para o cavaleiro que começou a ver seu plano desmoronar.
- INSOLENTE – bradou Phillipus engrossando a voz e se lembrando que vestia a armadura do capitão – não está vendo que sou eu, tivemos uma luta muito dura aqui fora, deixe-nos entrar ou será você que vai para a prisão!
O guarda olhou assustado:
- Per-perdão senhor, entrei agora no turno e não sabia que estava do lado de fora!
- Veja, tenho três prisioneiros e outro ainda escapou, três guardas estão no encalço dele, os dois que estão na porta ficarão aí até que eles retornem, reforce a guarda aqui dentro e agora saia do meu caminho verme.
- Si-si-sim senhor!
Aderlius e Robs suavam por baixo do capuz mais por medo do que por calor, apesar de sentirem que ao adentrarem seja lá onde a temperatura ter aumentado, Wellan recuperara a confiança e Phillipus não sabia até onde iria sua farsa, passaram por mais de vinte guardas, era impossível que nenhum deles percebesse algo de errado, mas continuaram, duas guaritas bem espaçosas estavam dispostas, uma do lado direito e outra do lado esquerdo, caminharam rapidamente, Phillipus chamou um guarda:
- Ajudem - nos a levar esses homens para a prisão e cuidado eles são violentos!
O guarda que estava com a armadura de Wellan se debatia e tentava falar, o homem chamado por Phillipus deu-lhe um soco na cabeça e o mandou se calar, tomou a dianteira e o cavaleiro e o ranger o seguiram, chegaram ao pé de uma grande escadaria, uma pequena cidade magnífica estava a poucos metros abaixo de onde se encontravam, porém não desceram, o guarda virou para o lado esquerdo e entrou por uma porta arredondada, desceram por uma escada em forma de espiral por alguns minutos, o ar, novamente sufocante adentrou as narinas dos amigos, o ambiente era iluminado por tochas e haviam quatro celas repletas de prisioneiros que chamaram a atenção do ranger, eram elfos, nitidamente desnutridos e abatidos, em seus olhos não era mais possível ver o brilho da alegria e esperança comum aos olhos desses belos seres. Sem pensar Phillipus deu um golpe certeiro no guarda que os guiara até lá embaixo, tirou o capuz da cabeça do paladino e do bárbaro, Wellan que carregava as mochilas e as armas dos dois, o que havia lhe cansado além do costume lançou-as ao chão. Ouviram passos na escada, Wellan colocou os capuzes nas cabeças dos dois amigos e levantou o guarda derrubado por Phillipus segurando-o ao seu lado, dois guardas surgiram:
- Capitão, Lorde Igwar gostaria de vê-lo em sua residência!
- Já estou indo, preciso interrogar esses presos!
- Senhor, podemos fazer isso – disse o guarda com prazer na voz – sabe que Lorde Igwar não gosta de esperar.
- Eu disse que já estou indo, sumam da minha frente, eu mesmo irei interrogar estes homens.
Os homens se entreolharam e saíram rapidamente, Wellan soltou o guarda novamente e retirou os capuzes dos amigos, Phillipus não sabia como agir, logo outros guardas viriam e seu disfarce seria descoberto, chamou Wellan para saírem e fazerem um reconhecimento da cidade antes que isso ocorresse, enquanto isso o paladino e o bárbaro poderiam soltar os prisioneiros. Caminhavam em direção a escadaria quando Phillipus avistou um elfo com ar mais nobre que os outros, mesmo em meio aquela situação degradante seu rosto mantinha a dignidade e suas vestes mesmo sujas continuavam sendo mais brilhante e bela que qualquer armadura daquele lugar, a luz das tochas balançavam e o ranger se aproximou da cela para se certificar de que não estava enganado, o elfo estava encostado na parede de braços cruzados, tinha um cabelo prateado que se estendia até o final das costas, era mais constituído que os outros elfos e o azul esverdeado da sua roupa resplandecia mais que a pouca luminosidade do local, parecia estar dormindo ou algo assim:
- Fujin? General Fujin? Disse Phillipus com voz de espanto.
O elfo abriu os olhos e virou a cabeça para o lado do ranger:
- Você não é o capitão e com certeza logo estará me fazendo companhia nessa cela.
- Vamos soltar vocês General e vamos enfrentar seja lá quem for que habite esse local.
- Você é pretensioso meu jovem, de onde me conhece?
- Fui criado entre os elfos de Teramim – disse o ranger retirando o elmo - cresci ouvindo as histórias de como o senhor se tornou o grande e amado General Fujin, protetor dos elfos daquelas bandas.
O bárbaro e o paladino procuravam um jeito de abrir as celas e os elfos vendo a liberdade próxima pareciam se animar e se levantavam agitados e espreguiçando, na escadaria Wellan caminhou na frente do ranger e não percebeu que ele havia ficado para trás conversando com o elfo, chegou à porta e chamou por Phillipus, não houve resposta, olhou para trás e quando ia descer novamente para chamá-lo ouviu uma voz provinda de trás:
- Soldado, vamos comigo até a guilda dos Roxos levar essa carta!
- Senhor, eu ...
- Vamos lá, depois te pago uma bebida, não gosto de descer sozinho por essas ruas!
O cavaleiro desceu junto com o guarda que o abordou que pela insígnia em sua armadura tinha alguma patente acima dos outros guardas, caminharam pela cidade, não avistaram nenhum outro guarda como eles por ali, ao invés disso, viram muitos elfos da escuridão, isso explicava por que o guarda da porta disse que eles entravam e saiam a toda hora; o teto abobadado brilhava com jóias encravadas que se espalhavam pelas paredes, o chão era úmido, mas não barrento, as construções não pareciam ser feitas por elfos nem por humanos, estavam adaptadas toscamente, até mais ou menos um metro e meio as casas eram belamente esculpidas e dessa altura para cima se via um remendo muito mal feito, avistaram dois grandes salões no meio da cidadela, o guarda começou a se dirigir para lá, um era escuro, iluminado por tochas, mas com muitas janelas, no outro não havia porta, apenas o buraco da porta e foi nesse que o guarda entrou, o cavaleiro exitou, pensou em voltar para trás mas foi chamado pelo soldado com um aceno de mão, aquilo não estava no plano, aliás as coisas haviam saído do controle, não que isso fosse novidade, seus planos mirabolantes costumavam colocar seus amigos em apuros, mas ao entrar viu que dessa vez poderia estar com sérios problemas mesmo, estava sozinho e teria de interpretar bem, se fosse descoberto sua morte era certa, pois logo que entrou para dentro do salão um frio que teve inicio na sua coluna se espalhou por todos os ossos do seu corpo, era uma guilda de magos, pelo menos era o que parecia, todos com o rosto meio escondido, todos aparentemente realizando negócios escusos, alguns com um sorriso maligno, todos de capuzes roxos, além de um daqueles homens poder ser o ladrão das esferas estava explicado o por que do nome Roxos.
Na prisão os elfos estavam sendo soltos, Aderlius, Robs e Phillipus usaram ferramentas que sempre carregavam com eles, o ranger continuava sua conversa com Fujin:
- Como o senhor veio parar aqui General?
- Me chame apenas de Fujin, por favor – disse sorrindo com uma nobreza que somente os elfos são capazes de expressar – bem, há alguns anos atrás esses tuneis foram invadidos pelos elferrs, você os chamam de elfos da escuridão, eles escravizaram os moradores nativos dessas habitações, anões de boa índole, com o tempo os anões foram fugindo, mas infelizmente a grande maioria morreu nas mãos dessas pragas, no início não quisemos intervir, acreditávamos que os habitantes locais resolveriam o problema, afinal com o passar do tempo paramos de ouvir histórias de guerras nessa região, o que se revelou um grande erro – Fez um gesto de amargura - Poucos meses atrás eles então cercaram as Florestas da Alegria, a mesma região que você disse ter sido criado, não tínhamos noção do seu poder, eles parecem ter feito alianças com alguns humanos detentores de grande magia, suspeitamos disso, pois o trânsito de humanos encapuzados crescera muito por estradas próximas da floresta; então no dia em que abordamos dois elferrs que tentavam molestar duas meninas elfas fomos surpreendidos, era uma armadilha e não estávamos preparados para tamanho confronto, os desgraçados estavam nos vigiando a tempos e todo o meu regimento foi preso, muitos não agüentaram a tamanha degradação e sucumbiram aqui, outros foram levados para os rituais de sacrifício desses malditos, éramos duzentos e agora somos apenas noventa e três, porém, os soldados que restaram estão sedentos por vingança, dessa vez nós os surpreenderemos, não há nada mais letal do que um elfo com o orgulho ferido.
O elfo continuou:
- Mas e vocês, o que fazem aqui? Acredito que não vieram para nos resgatar!
- Não senhor, estávamos atrás de um elfo da escuridão e um mago (assim acredito), que nos emboscaram na estrada levando um artefato que escoltávamos, o rastro deles nos trouxe até aqui.
- O que vocês escoltavam para atrair a atenção deles?
- O nome é, deixe-me lembrar, Esferas de Eratan.
- Esferas de Eratan? Improvável, ouvi histórias sobre elas da boca de elfos que já partiram há muito tempo, elas se perderam com as mudanças do mundo, pela graça do Criador. No entanto há uns três dias atrás houve grande movimentação lá em cima, ouvimos aqui embaixo, o que indica que alguma coisa importante aconteceu.
- Senhor, ajudaremos vocês a saírem daqui, mas precisaremos de sua ajuda.
- Nem precisa pedir, será um prazer esmagar esses mestres da escuridão.
Todos os elfos estavam soltos, todos rangendo os dentes, alguns agradeceram pessoalmente ao paladino e ao bárbaro, que já não sabiam o que fazer, seu plano inicial havia mudado drasticamente e a descrição havia ido para o espaço, os elfos iriam cortar tantas gargantas quanto pudessem e isso poderia fazer com que as esferas (se é que elas estavam ali) fossem carregadas para fora por seus ladrões, pior, poderiam morrer em uma luta que não era sua.
- Agora só faltam as armas! Disse Fujin olhando com seriedade para seus soldados.
Novamente ouviram-se passos na escada, pensaram que fosse Wellan, que havia subido há algum tempo, no entanto o barulho era de mais de um homem descendo e antes mesmo que apontasse disparou palavras de descontentamento:
- Maldito seja capitão, não sabe que Lorde Igwar não gosta de esperar, mas o que é...! Um soco desferido por Fujin calou o elferr que descia com mais dois soldados que por sua vez tentaram fugir, mas foram arrastados para dentro pelos elfos.
Fujin colocando o pé no pescoço do elferr que tentava se levantar disse mais para si mesmo:
- Igwar receberá minha visita, e será a ultima da vida dele.
Uma grande batalha teria inicio, mas o final não parecia poder ser favorável para eles, Aderlius, no entanto gostou da idéia, estralou os dedos e pegou o machado do chão, Phillipus terminando de tirar a armadura estava tomado pela dor do povo em que crescera, seu ombro ainda doía muito, mas teria de dar um jeito de lutar, Robs empunhando sua espada levantou os olhos para o cima:
- E lá vamos nós de novo, nos proteja por favor!
Continua...

sábado, 22 de maio de 2010

Parte 5 - Cada vez pior...

Enfrentar três trolls da floresta de uma vez era algo desafiador e até tolo, no entanto não tinham muita opção, poderia ser a ultima batalha que enfrentariam, principalmente por que um dos trolls era muito grande e forte, e esse mesmo apontando para os quatro amigos correu para cima deles usando a pequena árvore que havia arrancado como uma grande clava, Aderlius não era de fugir de batalha alguma, parecia não sentir medo ou ser desprovido de cérebro, pois ficou esperando o ataque, Phillipus pulou contra seu corpo e o derrubou antes que o golpe da criatura o atingisse, e um grande deslocamento de ar foi sentido por eles, o que demonstrava a força do golpe, o bárbaro rolou para um lado e o ranger para o outro, a “clava” do troll atingiu o chão, espirrando lama e pedras para os lados. Wellan passou correndo para dentro da caverna com um dos trolls atrás, Robs viu aquilo e não entendeu nada, era típico do cavaleiro bancar o herói, isso poderia custar-lhe a vida algum dia.
O rosto de Phillipus demonstrava grande pavor, que aumentou mais ainda quando o troll que havia os atacado por primeiro passou a adaga do bárbaro próximo a sua cabeça, se arrastou no chão para afastar-se, mas a criatura mesmo manca e duramente ferida destilava ódio e queria vingança, assim o perseguia implacavelmente. O grande troll continuava sua caçada ao bárbaro que já não tentava o enfrentar no corpo a corpo, a cada golpe errado da criatura um pequeno buraco era feito na lama, Robs tentava golpeá-lo com sua longa espada, mas o monstro parecia querer Aderlius, o que ajudou o paladino a dar um golpe certeiro na altura do peito do troll que soltou um grito e lançou a árvore contra o paladino acertando o em cheio, Robs soltou um gemido abafado de dor, Aderlius aproveitou e infligiu mais um dano no lado esquerdo do monstro com seu machado, o troll revidou o ataque com um soco certeiro no peito de Aderlius que sentiu o impacto e vacilou permitindo que o troll lhe pegasse pelo pescoço, o levantou até a altura de seus olhos para encará-lo, era acostumado a ver o medo de suas presas antes de devorá-las, mas o bárbaro não estava com medo, e soltou-lhe uma cusparada no meio da sua face horrenda, o troll apertou mais o pescoço de Aderlius que começou a sentir o ar lhe faltar, soltou o machado que ainda estava em sua mão direita e com suas duas mãos tentava tirar as mãos do troll de seu pescoço, apesar de sua força o troll estava ganhando. Phillipus corria meio escorregando na lama para fugir do troll ferido que parecia ser movido a ódio, naquele momento passou correndo ao lado do troll que enforcava Aderlius e acertou uma espadada na parte de trás da perna do algoz do bárbaro que ao sentir o golpe, fraco, diga-se de passagem, afrouxou a mão o suficiente para Aderlius se livrar e cair tentando respirar, porém Phillipus foi pego pelo seu comprido cabelo e levantado pelo grande troll.
Momentos antes, Wellan ao ver que estava sem espada não conseguiu pensar em nada inteligente e correu para dentro da caverna na tentativa de uma medida desesperada, o troll que surgira próximo a ele correu com suas garras e lhe atingiu a armadura, o cavaleiro se arcou para frente quase caindo, mas se recuperou e finalmente conseguiu entrar na caverna, o troll corria freneticamente atrás dele, Wellan torcia por encontrar o mecanismo que havia sido ativado há poucos instantes antes pelo ranger, e torcia mais ainda para não ser uma armadilha de disparo único tendo de ser carregada novamente. O barulho da batalha do lado de fora ficou baixo e apenas sua respiração e a do troll era ouvidas em meio à escuridão, o grande problema é que trolls da floresta conseguem enxergar razoavelmente bem no escuro, o suor escorria pela sua face, a respiração do troll se aproximava e a cada passo da criatura o cavaleiro sentia um temor ainda maior, suas pernas vacilaram, caiu e agora engatinhava atrás do mecanismo, tateava desesperadamente o chão, o troll parecia estar muito próximo, até que com o joelho sentiu algo se deslocar para baixo, ouviu o “click”, virou-se para correr, deu dois passos e foi levantado pelo montro que o segurava pela gola da armadura, o cavaleiro se debatia vigorosamente para fugir das garras da criatura, o fogo se aproximava e a caverna já clareava a ponto do cavaleiro poder ver os olhos insanos do troll.
Phillipus agora estava nas mãos do grande troll que o segurava para o troll ferido, o monstro aproximou-se e se preparou para enfiar - lhe a adaga no olho, foi quando um grito estridente de agonia veio da caverna com um forte calor e cheiro de carne queimada, os dois trolls colocaram as mãos sobre o rosto, o ranger caiu olhando também para a caverna, e assim que passou o susto, quando Phillipus pensou em correr, a adaga lhe atravessou o flanco direito, seu grito despertou os amigos que ainda se recuperavam, Aderlius se arremeteu contra o troll que afundava a adaga em Phillipus e o derrubou, o ranger mesmo em meio a agonia tirou uma flecha da sua aljava e cravou-a no olho que restava ao troll caído que se contorceu no chão como uma minhoca descoberta ao sol; no mesmo instante que o bárbaro pulou no troll ferido Robs acertou a barriga do grande troll, um golpe certeiro e crítico a ponto de fazer com que as entranhas do monstro saíssem para fora, mas aquele era um troll poderoso e mesmo assim correu para cima do paladino sem lhe deixar espaço para deflagrar outro golpe, a criatura atacava freneticamente com movimentos de braços e o paladino se defendia como podia, sua espada foi jogada para longe quando o troll lhe acertou uma braçada, Robs recuou até encostar em uma árvore, a criatura iria dilacerá-lo, apenas fechou os olhos e começou a orar ao seu deus, ouviu-se um barulho surdo, tudo parou, abriu os olhos, o sangue verde do troll escorria pela sua cabeça, a criatura tombou, Robs viu Aderlius ofegante, o machado do bárbaro estava cravado no crânio do troll , o bárbaro tinha lhe desferido o golpe final.
Robs pegou sua espada novamente, Aderlius arrancou seu machado da cabeça do troll fazendo certa força, Phillipus estava deitado ao lado do troll que o havia ferido, após furar o outro olho da criatura cortou-lhe a garganta com sua espada curta e ali ficou, o paladino correu para dentro da caverna, ascendeu sua lamparina e caminhou com cuidado, caminhou até onde achava que podia estar o mecanismo da armadilha e chutou algo metálico, iluminou embaixo, era o peitoral da armadura do cavaleiro totalmente queimada, ao lado pode ver alguns ossos que com certeza eram do troll, mais atrás a espada do amigo, abaixou a cabeça e começou a lembrar dos momentos que haviam passado juntos, da amizade, então ouviu uma voz vindo de trás do lugar onde estava:
- Alguém pode me ajudar?
- Wellan? Você está vivo?
- Não, eu morri e voltei para te assombrar! É claro que estou vivo, bom, pelo menos eu acho. Respondeu gemendo o cavaleiro.
Robs voltou, Wellan estava na passagem do lado esquerdo que eles haviam encontrado e preferiram não entrar, o paladino iluminou e pode ver o cavaleiro sentado com o braço direito imóvel e com alguns arranhões no rosto. Do lado de fora Aderlius ajudava Phillipus que estava gravemente ferido, levantou-o e o ajudou a encostar-se à parede externa da caverna, sangue escorria pelo ferimento, o bárbaro era acostumado a se recuperar de feridas assim, mas seu amigo era menos constituído, era provável que ele iria sobreviver, só precisaria de mais tempo, o que eles não tinham.
No lado de dentro, o cavaleiro explicou ao paladino que ao ser segurado pelo troll conseguiu abrir a armadura e “escorregar” por ela, mas não sem deslocar o braço direito, arrastou-se como pode até a fresta e se escondeu ali na esperança de não ser tostado, quando o fogo passou pela fresta Wellan comentou que parecia ter enxergado uma porta no final da passagem, Robs caminhou até um pedaço do corredor ergueu a lamparina e pode vislumbrar os contornos da porta, se aproximou, era uma porta vermelha chumbada na rocha, não tinha trinco, o paladino a empurrou devagar, a porta se abriu, deu uma iluminada no ambiente, uma mesa e um armário velho podiam ser facilmente reconhecidos, três cadeiras estavam postas ao lado da mesa, resolveu recuar, esperar pelos companheiros, passou pelo cavaleiro que continuava sentado no chão, e lhe avisou que iria chamar os dois que ficaram do lado fora. Ao sair encontrou Phillipus com uma grande ferida no ombro esquerdo, o troll chegara a levantar o ranger com a adaga, Aderlius tentava consolar o amigo sem muito sucesso, Robs sabia que dali para frente ele e o bárbaro teriam de lutar pelos quatro, pelo menos até que os dois companheiros se recuperassem:
- Wellan está vivo, foi mais uma daquelas idéias estúpidas dele, funcionou, por pouco, mas funcionou!
-Acho melhor queimarmos as carcaças dos trolls, não podemos chamar a atenção de outros trolls ou de animais carniceiros, isso também poderia alarmar outras criaturas e outras pessoas! Disse o ranger em meio às dores.
Aderlius demonstrou estar de acordo com um gesto de cabeça, empilhou os dois corpos, despejou óleo e ateou fogo, os primeiros raios de sol surgiram no céu; Robs comentou a respeito da sala misteriosa que havia descoberto dentro da caverna, o bárbaro ajudou Phillipus a levantar e o carregou até onde se encontrava o cavaleiro, Wellan com a ajuda do paladino se levantou em meio a dificuldades e dores e os acompanhou até a porta, entraram com cuidado, Robs iluminava o ambiente que não era muito grande, mas era um bom lugar para se acomodarem, os armários estavam limpos, porém, vazios, Aderlius ajudou Phillipus a sentar-se em uma das cadeiras, Wellan desabou em um dos cantos e ficou ali, pensativo como sempre, Robs e Aderlius procuraram outra possíveis portas, mas não encontraram nada, nem nas paredes, nem no teto, nem no chão, mas encontraram algo que poderia ajudá-los, tochas prontas para serem acessas, uma em cada canto da sala, assim que as ascenderam puderam observar que aquele recinto estava muito limpo e que aquelas tochas eram recentes, além de iluminar o local o mantinha aquecido, as paredes eram bem talhadas, e o teto muito alto:
- Pelo visto esse lugar tem sido usado regularmente, só espero que quem o tem usado não apareça, ou eu estou perdido! Reclamou o cavaleiro.
- Infelizmente você tem razão Wellan - concordou o paladino – mas não temos muita opção, você e Phillipus estão feridos e eu e Aderlius cansados, somos presas fáceis, precisamos descansar e nos reorganizar, se não tivéssemos encontrado essa sala teríamos de achar outro lugar para ficarmos escondidos.
- Minha espada, você a viu?
- Vi sim, no corredor e a sua armadura do tórax!
- Poderia buscar para mim?
Robs nem questionou o amigo, rapidamente foi até o corredor e pegou a espada e a parte da armadura o cavaleiro, que não ficou contente quando viu o estado em que se encontrava sua vestimenta de batalha:
- Nossa, que porcaria de armadura, não tem como usar mais, torrou, nem parece que é de aço.
- Pelo menos sua espada esta intacta! Disse o paladino entregando-a ao cavaleiro.
- Que ótimo, se não bastasse meu elmo ter sido roubado por um gnomo agora o peitoral da armadura foi tostado junto com um troll.
Aderlius tirou um pedaço de pão e começou a devorá-lo, Robs jogou a mochila de Wellan que havia ficado do lado de fora para ele, retirou seu cantil e tomou toda a água de uma vez, o paladino pegou seu estoque e deu uma golada, se aproximou de Phillipus e despejou um pouco sobre o ferimento do amigo que fez um gesto terrível de dor:
- Calma lá amigão, vou orar pelo seu ferimento, mas é preciso purificá-lo um pouco, ou ao menos tentar! Disse o paladino dando um sorriso.
-Vai orar por ele, ore por mim também! Reclamou Wellan secando a boca após ter tomado a água.
- Consegue vir até aqui? Perguntou Robs.
O cavaleiro disse que sim, se arrastou até onde se encontrava os dois amigos, Robs colocou uma mão sobre o ombro de Wellan e outra bem próxima do ferimento de Phillipus, recitou palavras de benção sobre os amigos em nome do seu deus e clamou por cura, afastou as mãos, o cavaleiro olhou desconfiado, as dores ainda eram as mesma, tinha a impressão que haviam até piorado, correu os olhos para a ferida do ranger, que milagrosamente havia estancado o sangramento e não tinha mais o aspecto de uma ferida recente:
- Curou ele e não eu, é esse tipo de coisa que não entendo, o que eu tenho de pior que ele, eu até creio, mas ele não, curou um ateu, e eu continuo aqui com essas dores...
- Não posso fazer nada a respeito Wellan, fiz a mesma oração para os dois ao mesmo tempo, se você não foi curado, agradeça da mesma forma.
- Eu conheço um bom remédio para esse tipo de ferimento, Wellan! Gracejou o bárbaro.
- É mesmo? O que é?
- Mijo!!! Respondeu Aderlius caindo na gargalhada.
O cavaleiro voltou para seu canto emburrado e encontrou um punhado de bandagens.
- O que é isso? Parece que alguém ferido passou por aqui antes. Disse mostrando para os amigos as bandagens no chão.
- Provavelmente devem ser do elfo, já faz seis dias que nós deparamos com eles. Divagou Phillipus, que apresentava uma boa melhora após a oração de Robs.
-Será que ainda consegue rastreá-los?
- Creio que não, mas sabemos que entraram nessa caverna, vamos ter de continuar para ver onde vai dar.
- Mas agora é melhor comermos e dormimos, vamos descansar, precisamos nos apressar, demos nossa palavra ao Conde de que não retornaríamos sem as esferas.
- E por falar em conde, use o remédio que ele deu para usarmos caso precisássemos, ele disse que até para dor era bom.
O bárbaro puxou o armário e o arrastou para trás da porta, todos comeram um pouco e repousaram, dormiram sem que ninguém ficasse de guarda, só haviam encontrado uma entrada, que também servia de saída, não existia outro acesso aquela sala, por isso decidiram dormir para reporem suas energias, a caminhada seria dura.
Acordaram com o grito do cavaleiro, que tentava colocar o ombro no lugar dando uma pancada contra a parede da sala, Aderlius levantou-se rápido empunhando o machado, Phillipus e Robs se colocaram de pé em um pulo, olharam a cena dolorosa do cavaleiro, porém seu ombro entrou no lugar, caiu de joelhos no chão gemendo, nenhum dos três disse uma palavra, aproveitaram para se espreguiçar, arrumaram suas bagagens e se prepararam para continuar o caminho. O cavaleiro pegou sua espada, olhou para a armadura, balançou a cabeça, e após Aderlius tirar o armário da entrada caminhou sem o peitoral, portava armadura apenas nos braços e pernas, e mesmo essas partes estavam muito danificadas, Robs perguntou para Phillipus como estava o ferimento e ele se mostrou muito bem, Aderlius comeu mais do que todos juntos pela manhã e estava de bom humor, para um bárbaro quanto maior o grau de dificuldade de uma batalha mais contente ele fica, mesmo que isso implique em sua morte, afinal morrer em batalha é uma glória, ao menos assim ele pensava.
Caminharam com cuidado, passaram pela armadilha sem a ativarem, provavelmente durante todo o resto do dia e parte da noite caminharam por um corredor estreito, o túnel não mudou de espessura e o medo os acompanhou por todo aquele caminho, o silêncio era perturbador, nenhuma outra armadilha foi detectada no caminho, talvez não existisse, talvez tenham tido sorte; Robs caminhava à frente portando a tocha, seguido por Wellan e Phillipus, Aderlius cuidava da retaguarda também portando uma tocha e caminhando de costas, o paladino sentiu uma corrente de ar e diminuiu o passo, pode enxergar mais a frente uma luminosidade, cainhou mais um pouco e iluminou acima da cabeça, pode ver uma espécie de bola de fogo sustentada por um mecanismo, era dali que vinha a chama, a velocidade deveria ser enorme, afinal caminharam muito para chegar até ali, passaram com mais cuidado ainda, agora o piso começava a descer lentamente e o ar sufocante diminuir, uma luz parecia dançar na parede, observaram que o túnel fazia uma curva para a direita, esse pedaço era iluminado por tochas, colocadas uma ao lado da outra por um longo corredor, eram essas luzes que pareciam dançar, a corrente de ar aumentava conforme andavam, apagaram suas tochas, ao longe o corredor parecia se alargar, mais a frente avistaram um grande porta dupla e o que temiam, três homens armados, que por sua vez aos avistarem, desembainharam suas espadas e caminharam em direção a eles, dois vieram mais a frente e um ficou atrás:
- Problemas! Sussurrou o paladino.
Continuaram andando até saírem do corredor, estavam em uma grande abóboda, os guardas se aproximavam rápido, Aderlius tomou a dianteira ao lado de Robs, sacou o seu machado, os homens pararam:
- Quem são vocês e o que querem aqui?
- Somos viajantes errantes, estávamos fugindo de trolls, encontramos essa entrada e resolvemos caminhar por ela! Respondeu Robs.
- Pois então tratem de voltar pelo mesmo caminho por onde vieram, essa região tem dono!
- Não podemos!
- Não é problema nosso, aqui vocês não vão passar, se quiserem viver, voltem por onde vieram!
- Você está me dando uma ordem seu inseto? Levantou a voz o bárbaro.
- Sim, e se vocês forem inteligentes é melhor obedecerem.
Phillipus e Wellan se olharam e balançaram a cabeça, o homem havia cometido dois erros graves, primeiro deu uma ordem a um bárbaro, segundo, falou de sua inteligência, Aderlius não se importava com o sentido, sempre achava que estavam o chamando de burro e isso o irritava muito. O bárbaro resmungou algo e antes que Robs pudesse falar Aderlius saiu em disparada acertando um forte golpe no guarda que os mandou voltar arremessando-o para trás, o outro vendo o companheiro sendo golpeado tentou revidar, mas seu golpe foi bloqueado pela gigantesca espada do paladino, um duelo de espadas teve inicio, o terceiro guarda correu e começou a bater na porta, Phillipus tentava armar o arco, mas o braço ainda doía muito, Wellan correu em meio às dores, mas era tarde, a porta se abriu e mais três guardas apareceram, mais fortes, mais equipados, portando escudos, a porta se fechou atrás deles, o cavaleiro sacou a espada, recuou, o bárbaro espumava de raiva, Robs desferiu o golpe final no guarda que o enfrentava, levantou a cabeça e viu a cena:
- Por que tem de ser sempre assim?
Continua...

domingo, 9 de maio de 2010

Parte 4 - Uma noite agitada!

- Tem certeza que ainda consegue rastreá-los? Perguntou o cavaleiro ao ranger.
- É claro que tenho, vai ser meio difícil, mas com um pouco de paciência será possível!
- Vamos mandar os cavalos de volta, é o mais seguro, não dá para deixá-los aqui no meio dessas carcaças de orcs. Comentou o paladino.
Cinco dias haviam se passado desde que foram emboscados, restavam apenas algumas peças de roupas (se é que se podem chamar assim as vestimentas orcs) e alguns ossos com pedaços de carne a espera de algum outro animal para terminar o serviço; o mal cheiro já estava bem fraco, e a estrada dava sinais de que mais viajantes haviam passado por ali. O frio não estava tão intenso como nos últimos dias e o sol brilhava sobre suas cabeças, porém logo iria escurecer e, como sugerido por Robs dispensaram os cavalos para Minalmar novamente e se embrenharam na mata que a principio era rala, mas conforme caminhavam ficava mais densa. Depois de caminharem algum tempo pararam por um instante:
- Desse ponto em diante acredito que eles continuaram sozinhos, como é inverno, os animais não andam com muita freqüência por aí e qualquer alteração no solo pode ser detectado facilmente, é claro, se você tiver experiência! Comentou o ranger.
- O sol está se pondo, dizem que não é bom andarmos nessa floresta à noite! Falou Aderlius.
- Você e suas superstições, vai dizer que está com medo do “cachorro que cospe fogo”! Debochou Wellan.
- Você é um tolo, ele existe, eu já o enfrentei, e ele não gospe fogo, sua cabeça inteira é flamejante... aqui na floresta existem outros perigos, e com exceção do nosso amigo Phillipus, nenhum de nós três temos muitos conhecimento nesse ambiente.
- Vamos, temos de nós apressarmos, procurar por um lugar bom para nos abrigarmos, parece que tem algo mais por aí além dos rastros do mago e do elfo da escuridão e os nossos.
A noite caiu, em florestas ela chega antes e mesmo que haja lua cheia a visibilidade é difícil, Robs tirou uma lamparina de sua mochila e a ascendeu (não usavam mais tochas em florestas desde que incendiaram uma em uma luta contra globins), colocou-a a frente e pode ver uma clareira a apenas alguns passos, apontou para os amigos que caminharam até lá, poderia ser uma oportunidade para descansar:
- Será que é seguro pararmos? Perguntou o cavaleiro.
- Pelo menos para descansarmos os pés! Respondeu Robs.
-O elfo da escuridão estar ferido foi bom para nós, caso contrário eu jamais conseguiria rastreá-los, dá para ver que ele tentou encobrir o caminho.
Os quatro soltaram as mochilas de suas costas, por entre as copas das árvores era possível ver um céu limpo e estrelado, não estavam tão cansados, mas nunca é bom esperar para se cansar demais para parar, Robs segurava a lamparina observando ao redor, Phillipus e Aderlius dividiam um pão sovado, Wellan se recostava em uma árvore imerso em pensamentos, fazia um silêncio profundo, o cheiro da mata adentrava em sua narinas e a sensação de descanso era formidável, mas um estralo vindo da mata atrás da árvore que se encontrava o cavaleiro acabou com o curto período de paz de nossos aventureiros. Wellan se virou para ver que animal passava por ali (pelo menos foi isso que passou pela sua mente naquele breve momento de reflexão), e levou uma pancada no peito que o jogou para fora da clareira, Robs levantou a lamparina e teve uma visão aterradora, uma criatura de mais dois metros curvada e esquelética de pele ressecada da cor dos troncos das arvores estava a sua frente, seus cabelos eram desgrenhados e grossos, tinha olhos esbugalhados e raivosos, por entre seus dentes pontiagudos que esboçavam meio que um sorriso maligno escorria uma saliva viscosa, pela sua fisionomia poderia se confundir facilmente a criatura com um demônio da floresta, mas aquele era um troll da floresta, e estava sedento por sangue e carne humana, com a mão esquerda arremessou um pedaço de tronco contra o paladino que diante do susto não conseguiu se desviar e levou à pancada, deixando a lamparina cair, por sorte não estourou, mas continuou queimando em cima de algumas pedrinhas. O ranger pegou seu arco e correu para dentro da floresta, Aderlius empunhou seu machado:
- Phillipus, seu covarde!
A criatura arremessou-se conta o bárbaro que se desviou e passou o machado na altura da cintura do troll, mas a escuridão não permitia golpes precisos por parte de Aderlius, que atacava mais por intuição do que por certeza, Aderlius novamente atacou com o machado de cima para baixo emendando um chute que só serviu para aproximá-lo de seu adversário, o troll conseguia enxergar perfeitamente naquela escuridão e sua vantagem era total naquela situação, segurou o machado do bárbaro pelo cabo, o que irritou muito seu dono:
- Tire as mãos do meu machado seu bosta!
Mas o troll apesar de esguio tinha uma força absurda e estava quase arrancando o machado das mãos de Aderlius que vendo que ia perder o embate retirou da cintura uma “pequena” adaga que carregava para momentos como aquele e ao soltar o machado cravou-a na coxa direita do seu adversário, o troll soltou um grito de dor e também soltou o machado, mas atacou Aderlius com suas garras, que atravessaram as peles de lobo que o bárbaro usava chegando a sua própria pele, Aderlius recuou, mas não o suficiente para evitar o longo braço do troll, que lhe deu um forte golpe no lado esquerdo da cabeça. Agora o bárbaro estava sentado e meio desorientado, o troll se aproximou com suas mãos descarnadas e seus dentes pontiagudos, seus olhos brilhavam na escuridão, o mau hálito da criatura podia ser sentido por Aderlius, ouviu-se um ruído de algo passando por cima de sua cabeça seguido por um som de carne rasgando, a criatura gritou freneticamente, a lamparina se aproximou dos dois, Robs havia se recuperado e a levantou para averiguar a situação, uma flecha estava cravada no olho esquerdo do troll que se assustou ainda mais com a claridade e esticou os braços para o lado do paladino, apenas para ter uma de suas mãos decepada pela espada de Wellan que também se recuperara do ataque surpresa. A criatura gritou novamente e correu em disparada para dentro da floresta grunhindo e lamuriando.
O ranger saiu do meio da floresta e juntou-se novamente aos companheiros:
- Quem é covarde meu amigo? Salvei sua vida grandão! Disse Phillipus ao bárbaro que se levantou com a ajuda de Robs.
Wellan tentou correr atrás do troll, mas exitou em entrar na mata em meio à escuridão, retornando transtornado:
- Ótimo, não descansamos, cansamos mais ainda e não vamos poder parar mais, eu perguntei se era seguro, mas nunca ninguém me escuta – e voltando-se para o paladino disparou com ironia – descansou os pezinhos Robsinho?
- Já estou ficando cheio de suas provocações Wellan, sou muito paciente, mas ultimamente você tem passado dos limites!
- É mesmo? E vai fazer o que, me dar lição de moral? Por que nem xingar você consegue.
- Você se acha melhor que os outros, mas sem seus amigos não sobrevive muito tempo!
Aderlius interrompeu os dois:
- As mocinhas poderiam fazer o favor de CALAR A BOCA, ou eu vou arrancar suas línguas fora.
Phillipus apenas abanou a cabeça, e começou a pegar seus pertences que ficaram espalhados pelo chão, Wellan e Robs ficaram quietos, colocaram suas mochilas nas costas e esperaram o ranger indicar o caminho, Aderlius não estava muito contente, o troll havia levado sua adaga presa ao corpo, além de ele mesmo ter sido parcialmente derrotado. Phillipus chamou Robs que aproximou a lamparina do chão, o ranger analisou durante um tempo e com um sinal de positivo deu reinicio a caminhada, todos estavam muito atentos, e qualquer ruído ou impressão de ruído provindo da mata os colocava em posição de combate, suas armas agora estavam empunhadas e o passo era acelerado, a noite ainda não passava da sua metade e sabiam que não seria sábio parar novamente até que tivessem andado uma boa distância. E assim caminharam durante horas, se comunicando apenas por sinais, até encontrarem uma formação rochosa que interrompia as árvores, sua costa estava lisa e cheia de ervas misturada com musgo, acompanharam a parede até chegarem a uma pequena abertura, na sua frente havia uma clareira maior do que a que estavam quando foram surpreendidos pelo troll, o chão era um misto de lama e pequenos fragmentos de rocha.
- Odeio cavernas! Murmurou o cavaleiro.
- Me diz algo que você não odeia Wellan! Rebateu Phillipus.
- Você, não odeio você! Disse o cavaleiro se afastando.
- Me diz que eles não entraram aí! Suspirou o paladino.
- Infelizmente sim, e como aqui o terreno é lamacento dá pra ver nitidamente que duas pessoas entraram aqui há alguns dias. Respondeu Phillipus.
- Não me vai dizer que estão com medo! Bradou o bárbaro dando risada
- Lembra o que aconteceu da ultima vez que entramos em uma caverna? Perguntou Wellan.
- Aquilo foi um fato isolado, agora estamos preparados e eu estou muito mais forte. Gabou-se Aderlius.
- Bem, então lá vamos nós, só que dessa vez eu vou ficar por ultimo.
- Por mim tudo bem Robs, só que aí dentro vou ascender uma tocha, pode apagar a lamparina e guardar para florestas. Prontificou-se Phillipus.
O ranger caminhava na frente, seguido do cavaleiro e do bárbaro, Robs era o ultimo e suava frio, não tinha boas recordações de cavernas apertadas como aquela; a passagem não tinha mais de um metro e vinte de largura, no entanto era alta, e todos podiam andar eretos, a parede era úmida e o cheiro de bolor muito forte. Não era possível desferir um golpe certeiro caso alguma criatura típica de caverna aparecesse, e isso incomodava todos os quatro, com a tocha à frente caminhavam lentamente observando se não haviam passagens nas laterais e não demorou muito encontraram uma no lado esquerdo, Phillipus parou, deu uma explorada até onde a luz da tocha alcançava e não conseguiu ver nada, o bárbaro vendo a expressão de dúvida no rosto do companheiro deu sua opinião:
- Em frente, sempre em frente!
Continuaram vagarosamente, não haviam andado mais que trezentos metros apesar do tempo gasto, Robs parecia estar falando consigo mesmo, e isto estava irritando Aderlius, pois naquela escuridão e silêncio era uma tortura:
- Não dá para parar de resmungar aí atrás?
- Não estou resmungando, estou orando para o Poderoso nos proteger!
- Então faça isso de boca fechada!
O bárbaro mal terminou de falar ouviu-se um “click” mais a frente:
- Oh-oh!
- O que você quer dizer com oh-oh Phillipus? Perguntou Wellan.
- Pisei em algo.
- Pisou no que?
- E eu vou saber.
- Ilumina com a tocha gênio.
Quando o ranger foi abaixar a tocha para ver o chão onde pisava um vento forte soprou aponto de apaga – lá, o que preocupou Robs:
- Por que a tocha apagou?
Uma luz surgiu ao longe e parecia estar se aproximando rapidamente:
- Corram!
- Correr para onde?
- Para trás seu burro, volta rápido!
- Por que, o que...
- Cala a boca e corre...corre...corre!
Conforme a luz se aproximava o calor também aumentava, e o desespero tomava conta de cada um deles, Robs como estava por ultimo antes não havia enxergado de inicio a luz apesar de ter sentido o vento e visto a tocha apagar abruptamente, mas agora era o primeiro e corria meio se batendo na parede, Aderlius corria se esfolando, porém muito rápido, se o paladino não corresse o bárbaro o atropelava, Wellan e Phillipus se enroscaram um no outro e corriam se batendo, um forte barulho de metal tilintava contra a parede, ouviu-se um som de algo metálico caindo no chão, mas não havia tempo para se preocupar com isso, o que estava atrás deles era uma labareda enorme e o seu calor já podia ser sentido como uma sombra, Robs saiu da caverna e se escondeu do lado esquerdo, Aderlius fez o mesmo movimento e jogou para o lado direito, Wellan e Phillipus se jogaram para frente, o ranger tinha uma boa habilidade e conseguiu rolar e completar o movimento com um salto mortal, já o cavaleiro caiu de peito na lama, no entanto tanto Phillipus quanto Wellan tiveram seus cabelos chamuscados, pois após saírem da caverna a labareda ainda correu uns três metros para fora e se extinguiu tão rápido como surgiu.
O cavaleiro se levantou limpando o rosto que estava coberto de lama, Aderlius vendo a cena não agüentou e caiu na risada, Wellan resmungou:
- Há – há – há, muitooooo engraçado!
- Como você consegue rir depois de quase termos virado churrasco? Perguntou o paladino.
- Você disse bem, quase, estamos vivos meu amigo! Respondeu o bárbaro.
Phillipus se aproximou dos amigos devagar e olhando para a floresta:
- Pessoal, acho que temos mais problemas.
Era o troll, sem o orbital esquerdo, sem uma mão, mancando e com a “pequena” adaga do bárbaro na mão que lhe restava.
- Troll estúp...! Quando o paladino iria terminar a frase outro troll surgiu próximo ao cavaleiro, que ao colocar a mão na bainha para puxar a espada não a encontrou:
- Ótimo, minha espada caiu lá dentro, que bom!
O bárbaro não se intimidou:
- Trouxe o namoradinho é seu troll... ops! O bárbaro se calou e engoliu seco.
Outro troll surgiu próximo ao primeiro, só que esse era maior, devia ter mais de dois metros e meio de altura, sua aparência era muito mais aterradora, e sua força parecia ser maior também, arrancou uma pequena árvore com facilidade e a empunhou com os dois braços, levar uma “troncada” daquela poderia ser muito dolorosa, isso se sobrevivesse para sentir a dor. O paladino arrancou sua gigantesca espada, levantou as mãos aos céus e fez uma pequena prece em voz baixa, o ranger sacou suas espadas curtas e caminhou para perto de Aderlius que segurava firme o machado e não deixou de pronunciar uma de sua celebres frases antes de grandes batalhas:
- É, parece que cutucamos o troll com a espada curta!

Continua...