quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Parte 9 - As faces do medo

Tailan soltou o corpo do amigo no chão, empunhou sua lança e correu ao lado de Fujin, Igwar continuava a gargalhar e vagarosamente saia das sombras, os elfos tinham seus olhos fixos no assassino de seu companheiro.
- Não precisam derramar lágrimas seus tolos, logo se encontrarão com ele.
Fujin olhou para Tailan:
- Veja se o paladino precisa de ajuda, deixe esse elferr comigo!
O respeito que Tailan tinha pelo seu General era maior que seu orgulho, apenas concordou com um movimento de cabeça e caminhou em direção de Robs. O paladino por sua vez conseguiu firmar os pés, olhou em direção ao bárbaro e ainda não detectara nenhum movimento, mas não era hora de se preocupar com isso, sabia que um mal maior vinha da sala a frente, o mesmo local de onde fora atingido pela descarga elétrica, o elfo chegou até ele:
- Tudo bem paladino?
- Não, não está nada bem – disse apontando para a sala a frente onde um homem com capuz roxo levitava as três esferas que ele acreditava ser o que buscavam - precisamos parar seja lá o que for que esteja acontecendo ali.
Mal terminou de falar com o elfo se dirigiu rumo à sala, Tailan ainda estava parado observando a sua frente e percebeu algo se movimentando no teto, um vulto despencou sobre o paladino, e mais rápido ainda foi a lança do elfo, acertou a mancha escura que ao cair em frente à Robs se revelou o demônio ferido pelo machado de Aderlius, o paladino se recuperou do susto e correu para dar o golpe definitivo mas foi surpreendido por um golpe que só foi defendido pelo mais puro reflexo, não de técnica, mas de susto, a criatura ficou de pé, empunhava o machado com o braço que não estava ferido e a lança com a calda após arrancá-la do abdômen, Robs partiu para o ataque sem pensar, tentava exercer a vantagem sobre o inimigo, mas o demônio defendia os golpes com facilidade, sua espada brilhou e o inimigo cambaleou para trás, passou a espada na altura do peito da criatura que deu mais um passo para trás, Tailan que acompanhava o embate de perto aproveitou e correu para tomar sua lança quando o inimigo foi golpeado, tomou sua arma e a cravou nas costas do demônio que soltou um grito estridente. O paladino parecia muito preocupado com a situação à frente, deixou o demônio se debatendo com a lança do elfo transpassada, mas antes que pudesse chegar até a sala cinco criaturas se materializaram acima de sua cabeça, criaturas horrendas e aladas, com asas coriáceas e corpo descarnado.
- Essa não, tarde demais! Lamentou o paladino para si mesmo.
Do outro lado do salão, um pouco antes, Fujin e Igwar iniciaram uma dura batalha, o ódio entre os dois era tão forte quanto os golpes desferidos pelas suas espadas, faíscas saiam quando suas lâminas se encontravam no ar, Fujin usava suas duas espadas, enquanto Igwar uma grande espada curva, semelhante à de Kalil, porém um pouco maior, e apesar do elfo estar com duas espadas não tinha vantagem no combate, fosse pelo cansaço ou pelo ódio, se defendia como podia. O elferr estava acostumado a explorar o lado psicológico e caótico de seus adversários, sabia que um guerreiro sábio e honrado quando tomado pelos instintos primitivos tinha seus reflexos e técnicas prejudicados, por isso provocava seu adversário em meio a um sorriso vil:
- As elfas de sua terra eram saborosas, renderam um bom tesouro para meus camaradas, foi uma pena ter de matá-las daquele jeito, mas elas não obedeciam aos comandos mágicos, quer saber qual parte era cortada primeiro?
E a cada provocação Fujin perdia mais o controle, tomado pelo ódio e a beira da estafa mental tudo que fazia era bater, bater, bater e bater com mais força, em sua mente as vozes dos elfos que morreram ali ecoavam em sua cabeça:
- Você deveria ter nos protegido, nós confiamos em você!
Continuou batendo tão forte, que uma de suas espadas simplesmente espedaçou em uns cinco pedaços, Igwar sorriu novamente, tinha o elfo em suas mãos, agora era hora de começar a lutar de verdade, se antes mesmo batendo forte com duas espadas Fujin tinha dificuldades para se defender, agora com uma, se esquivava da melhor forma possível, primeiro foi um corte na perna, depois um corte na altura do peito:
- Todos esses elfos que morreram aqui grande “General” Fujin, morreram por que você fracassou, e agora você se juntará a eles meu caro, pois a verdade é que você sempre foi um fraco!
Fujin rosnou como um cão raivoso, levantou sua espada e correu em direção ao elferr, golpeou sem nenhuma técnica, seus olhos se encherem de lágrimas, mais de amargura do que de ódio, Igwar defendeu, contratacou com um chute na barriga e conseguiu desarmá-lo lançando sua espada para longe, no mesmo momento sentiu a fria lâmina de seu adversário encostar em seu pescoço:
- Então elfo nojento, vai morrer como todos seus amigos, vou cortar seu pescoço fora de uma vez, assim não precisarei escutar seus gritos como escutei de seu povo, aliás, todos morreram gritando como porcos! Gargalhou o Igwar.
Porém sua gargalhada foi interrompida por uma flecha que surgiu da entrada do salão e lhe atravessou a mão que segurava a espada, a lâmina bateu no chão, olhou assustado, um silêncio caiu sobre o lugar, ao longe ouviu-se a voz do paladino murmurando algo, e o silêncio foi quebrado pela visão de Phillipus surgindo com seu arco:
- Aí ô babaca, não é só você que fica no escuro esperando para atirar flecha! Agora General arrebenta com ele.
Fujin piscou, respirou, o amigo lhe salvando foi um sinal de que ele não tinha culpa de tudo aquilo, deu uma rasteira no elferr que tentou pular, mas a única coisa que consegui foi cair mais feio ainda, o elfo pegou a espada de Igwar que caíra próximo de seus pés:
- Tá doendo sua mão, espera aí!
Fujin passou a lâmina e a mão do elferr foi parar longe, continuou o movimento e arrancou-lhe o braço, nesse momento Igwar gritou, Phillipus observou, ficou espantado pela força do inimigo de Fujin, havia usado uma flecha com um metal “especial”, que causava mais dor do que o comum (ele sabia disso por já havia se cortado com a seta da flecha, e doía umas cinco vezes mais do que o normal), e somente agora ele gritara, Igwar se arrastava para trás praguejando, Fujin levantou a espada para dar o golpe definitivo, mas mal a lâmina começou a cortar o peito do elferr uma criatura horrenda voou de encontro ao elfo e os dois caíram lutando, outras duas vieram e socorreram Igwar o arrastando para um canto escuro, Phillipus arrancou de suas espadas e correu mas também foi interceptado por uma criatura, essa sem asas, olhou para o lado, Aderlius pareceu mexer a cabeça:
- É amigão, é uma boa hora pra você acordar!
Mas foi só impressão, o bárbaro continuava imóvel e um grande ser se aproximava de seu corpo, Phillipus começou a sentir um tremor, mas não era em seu corpo, era na alma, afinal pela primeira vez se deparava com criaturas provindas da escuridão, uma coisa é enfrentar homens, elfos, anões, orcs e outra bem diferente se deparar com aquelas criaturas, além de quererem devorar seus corpos, o ranger sabia em seu interior que o que aqueles demônios queriam era suas almas e tudo aquilo o fez parar, até que uma voz surgiu em meio ao caos:
- Criaturas das trevas se ajoelhem diante da luz! Bradava o paladino.
Robs e Tailan já haviam derrubado um numero significativo de monstros, e parecia que elas queriam o paladino a todo custo, Phillipus foi puxado pelo braço, olhou, era Fujin retribuindo a ajuda livrando-o de tomar uma mordida do monstro grandalhão, puxou-o até próximo do corpo do bárbaro que finalmente começara a se mexer de verdade, Tailan recuava se defendendo bravamente e se aproximava do ponto onde Fujin e Phillipus se encontravam. Criaturas surgiam sem parar, para cada uma que se derrubava surgiam três, Robs agora se via em situação difícil, a criatura grande que tentou morder Phillipus se aproximou do grupo e saltou ferozmente sobre o ranger novamente, mais uma vez foi frustrada, mas acabou caindo ao lado de Aderlius que mal abriu os olhos teve a visão mais horrenda da sua vida desde o dia em que aceitou namorar a filha de um estalajadeiro depois de um grande porre; os dentes afiados da criatura quase crivaram em seu rosto, conseguiu segurar a criatura pelo seu maxilar, e o fétido hálito do monstro invadiu suas narinas o atordoando mais ainda, seu corpo doía até para respirar, e algo que o bárbaro não costuma fazer teve de ser feito:
- Me ajudem! Sussurrou.
Mas a ajuda não veio, todos os seus amigos estavam muito ocupados lutando com umas dez criaturas cada um, o ranger já tentava sair daquele local, mas não tinha espaço, Fujin tinha chego ao limite de suas forças, apenas Tailan lutava como no inicio, tal era sua habilidade com a lança que a cada golpe quatro ou cinco criaturas tombavam, o paladino viu que era hora de arriscar tudo, tinha uma ultima alternativa, lembrou-se de seu professor Taskan lhe ensinando sobre o golpe da luz, e que se falhasse seria seu fim, bem, é a hora pensou, deu um grito e cravou a espada no chão:
- Pelo poder a mim concedido eu agora em nome do Poderoso decreto seu fim criaturas das trevas, curvem-se diante do PODER DA LUZ!
Mal terminou a frase, um grande clarão saiu da espada, e o grito de todos os seres malignos naquele ambiente foi ensurdecedor, a luz se extinguiu tão rápido quanto surgiu, as criaturas que não morreram com o “golpe” estavam no chão se contorcendo, e Tailan sem pensar iniciou a seqüência de golpes finais.
Logo que a luz se foi Robs correu para a sala onde se encontrava o mago responsável por todas aquelas conjurações, finalmente chegou, com um gancho fez o mago cair sentado junto com as esferas, ao cair seu capuz escorregou para trás revelando-lhe a face, era um velho de uns noventa anos ou mais, o paladino que havia sacado de sua adaga para finalizar o serviço, deixou-a cair:
- Um velho, você é apenas um velho...
O mago percebendo o vacilo na fisionomia do paladino, cuspiu sangue no chão e se encolheu como se estivesse com medo. Robs caiu no ardil do velho arcano e sem que percebesse as esferas começaram a flutuar novamente, enquanto o paladino não sabia se matava um velho ou não (a quantidade de maldade naquele lugar era tão grande que só por esse critério Robs poderia atacar até mesmo um de seus amigos) Phillipus e os outros estavam impacientes:
- Mata esse mago de uma vez!
- Não posso, é só um velho!
- Mas que mer...! O bárbaro não conseguiu completar a frase, criaturas voltaram a surgir.
Quando Robs percebeu que havia sido enganado (não sabia se pelo cansaço, ou por que não estava totalmente preparado como imaginava) era tarde, o mago se levantou e lhe soltou mais uma descarga elétrica que o arremessou para fora da sala, mas Tailan já se preparara para aquela situação e mesmo em meio a varias criaturas correu e lançou sua arma contra o peito do mago que ficou pregado na parede pela violência do golpe, as criaturas sumiram e as esferas mais uma vez rolaram, o paladino correu e as pegou, eram do tamanho de uma maça, observou e identificou as figuras do dragão em uma, de uma serpente em outra, e um sapo na terceira, sem dúvida eram as esferas de Eratam, colocou-as dentro de uma bolsa que tinha no cinto e sentou-se.
Tailan foi até a sala e arrancou a lança da parede, limpou-a no manto do velho mago e também sentou ao lado do paladino:
- Me desculpe, não consegui matar o mago, sei lá, o cara tinha uma fisionomia de coitado! Lamentou Robs.
- Tudo bem, às vezes acontece, é por isso que nunca lutamos sozinho, Fujin sempre diz para lutarmos no mínimo em dois, se um falhar o outro dá cobertura.
Phillipus, Aderlius e Fujin estavam encostados na parede, ofegantes, o elfo estava com os olhos fechados. Phillipus sabia que não era a hora, mas não podia deixar passar:
- Você pediu ajuda?
- Quem? Eu? Acho que você andou apanhando na cabeça!
- Confessa aí, até você tem que pedir arrego quando tá todo detonado!
- Morro, mas não peço ajuda, sou um barbaroaiaiaiaia!
O ranger sorriu e agradeceu por todo aquele pesadelo ter fim, estavam muito feridos é verdade, mas haviam saído vitoriosos, beberam um pouco de água, se levantaram, Fujin e Phillipus colocaram o bárbaro no meio e o ajudavam a andar, Robs mancava de uma perna e arrastava a outra, Tailan também tinha suas feridas, se dirigiram o mais rápido que podiam a saída, o paladino segurava firme a bolsa com as esferas e olhando para trás pensava consigo mesmo o quanto era necessário destruir aquilo, afinal, ele tinha certeza que ele e seus amigos não foram mandados ali por coincidência!
Conclui na próxima parte...

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Apenas um Interlúdio

Estou deixando uma música que acho legal para vcs curtirem. O nome é End of This Journey (O fim desta jornada), e o fim dessa jornada dos Quatro Aventureiros está próxima.

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Parte 8 - Dois Caminhos

Fujin observou a parede mais uma vez, coçou a cabeça e continuou imerso em suas divagações, Phillipus parecia um pouco cansado e sentou-se em uma cadeira que sobrou inteira, Robs passava a mão na barba e balbuciava para si mesmo algumas palavras, o bárbaro procurava qualquer coisa que pudesse revelar o paradeiro do suposto mago que entrara na parede, ou melhor, por uma porta na parede, ao menos assim Wellan havia descrito. Olhou ao redor e viu que algo ainda se mexia em meio alguns encapuzados mortos, era o velho atendente do bar, Aderlius pegou o homem pelo braço e o arrastou apontando para a parede:
- Tem alguma porta aqui? Por que se não tiver eu vou fazer uma usando a sua cabeça!
O homem tremia de medo e começou a gaguejar, Aderlius estava ficando impaciente:
- Seu cagão, fale como homem, ou, antes de abrir uma porta nessa parede com sua cabeça, vou arrancar sua língua!
Fujin se aproximou:
- Como faço para entrar, apenas responda e nada vai lhe acontecer!
- E-e-e-eu n-n-nãão sei, é mágica, eu só trabalho aqui, nãão sei de nada, juro, juro pelo que há de mais sagrado nesse mundo!
- Bom, sendo assim, vamos ter que criar uma usando sua cabeça, hehehehe! Comentou o bárbaro.
O homem começou a gritar e chorar implorando por sua vida, Robs não agüentou e interveio:
- Largue o homem Aderlius, ele não sabe de nada, é um coitado, guarde suas forças para enfrentar esse tal de Igwar.
Aderlius podia ser feroz na batalha, mas costuma dar ouvido aos amigos mesmo quando o sangue estava quente, nem sempre fazia de bom grado, mas era um bom companheiro de caminhadas justamente por isso, não era tão cabeça dura quanto parecia. Jogou o homem em um canto e encarou o paladino para ver se seu amigo tinha alguma idéia, Robs sabendo do temperamento do amigo apenas disse:
- Se você está com tanta raiva assim, pegue algo que possa causar estrago e arrebente essa parede!
- Nossa, que grande idéia Robs, eu ainda não tinha pensado nisso! Desdenhou o bárbaro.
- Sua idéia não é de todo ruim paladino – comentou Felon que até aquele momento apenas havia estudado a parede – porém, ao batermos nela o som que se produz é de rocha maciça, golpeá-la com força pode não ser muito agradável.
- E se for mágica, e se existir uma porta aí e nós não consigamos enxergá-la? Perguntou Robs.
Pouco segundos depois uma cadeira voou passando rente a cabeça do paladino e dos dois elfos se espatifando na parede, olharam para trás, Phillipus estava sentado no chão e Aderlius pronto para dizer algo:
- Em vez de ficar de “nhenhenhe” por que não fazemos algo que preste, essa porcaria de porta não vai abrir, nem sabemos se existe uma porta aí de verdade, vamos procurar outra entrada.
- Igwar já deve ter fugido para longe, até encontrarmos outra entrada, se é que ela existe será tarde demais. Comentou desanimado Fujin.
- Não sei, ainda sinto uma forte presença maligna nesse local – disse o paladino parando como que se estivesse lembrando algo – espera aí, os homens de capuzes que foram massacrados pelos elfos correram por aquele corredor subterrâneo, me lembro de ter sentido uma presença maligna como a que sinto agora, na hora tinha tanto ódio no lugar que achei que era o sentimento do momento, mas essa “presença” continua a me incomodar, parece estar tentando se camuflar!
- Então vamos para o corredor! Felon faça o que saber fazer de melhor além de disparar flechas, Phillipus, chame Tailan, vocês dois me acompanhem! Ordenou Fujin.
Felon entrou no corredor e caminhou rapidamente, o bárbaro fez menção de segui-lo, mas Fujin o impediu:
- Calma aí, eu disse para vir atrás de mim, Felon é um ótimo batedor, com certeza se tiver algo ou alguém por aí ele vai descobrir, nós vamos indo também, mas mais devagar.
Do lado de fora da antiga taverna, os elfos restantes vasculhavam as habitações do seus antigos algozes, se espalharam, a maioria foi para a porta, Fujin ordenara que guardassem o lugar e não permitissem que outros elferrs entrassem se acaso surgissem; Wellan estava sentado ao lado das duas elfas e Tailan, estava com muitas dores, e sem condições de combate, olhou em seu braço e finalmente poderia esclarecer a duvida que o afligia:
- O que é esse bracelete que vocês colocaram em meu braço?
- Usamos braceletes e tiaras com proteção contra encantamentos e feitiços, os comandos de quem os lança ficam nulos, porém não funciona contra ataques mágicos, usamos isso para não nos tornarmos escravas involuntariamente.
- E por que eles não tiraram de vocês?
- Eles não conseguem enxergar, na verdade, qualquer ser de má índole não consegue enxergar!
- Interessante! Vocês mesmos que fazem?
Tailan respondeu:
- Não, isso são artefatos antigos, a arte é rara, e apenas dois elfos que caminham sobre esse mundo a conhecem, nosso povoado era o único no qual todos habitantes tinham pelo menos um, mas agora, depois de tudo que aconteceu... O elfo abaixou a cabeça e ficou em silêncio.
Wellan deu uma golada em um cantil que encontrou em meio aos corpos, era água pura, havia testado de todas as formas possível antes de toma - lá, mas não dava para saber se estava envenenada ou não, pediu proteção divina e virou, esperou alguns segundos, agradeceu e bebeu o resto, olhou para as elfas e para Tailan, iria falar algo quando Phillipus apontou na porta e chamou o elfo:
- Não consegue lutar mesmo Wellan?
- Eu tô com cara de quem consegue lutar?
- Sei lá, você tá sempre de cara feia! Respondeu o ranger e entrou rapidamente para não ouvir a resposta de Wellan.
- Engraçadinho, aiaiaia, acho que devo ter quebrado algumas costelas!
- Você foi muito corajoso nos protegendo lá dentro, é difícil esperar uma atitude dessas de um humano!
- Talvez vocês tenham referências errada de humanos, mas eu e meus amigos estamos sempre prontos a defender seres inocentes ou indefesos, talvez isso seja até blábláblá, mas é por isso que vivemos, esse mundo está louco, o caos e as trevas têm invadido cada vez mais os corações, e até para mim é difícil não se deixar levar pelo mal, então às vezes, só pensamos que vale a pena morrer fazendo o bem do que viver pelo mal.
- Pode ser, mas você é um humano diferente – comentou a elfa - eu realmente gostaria de irmos embora daqui, mas conheço o general e ele só vai depois que tiver certeza que os inimigos ou morreram ou fugiram.
- Por um acaso não haviam mais prisioneiras para serem libertas?
As duas elfas se olharam:
- Talvez, estávamos em uma cela próxima da porta, não ouvimos nada, mas é uma boa idéia conferirmos isso! Ficamos tão aliviadas com a nossa libertação que até esquecemos que poderiam haver outros elfos presos.
Wellan se levantou com dificuldades, mas conseguia caminhar sozinho, as duas indicaram a direção e os três caminharam para uma viela ao final da rua, durante a caminhada a tristeza cresceu cada vez mais no coração de Navia e Lânia ao ver seus irmãos elfos mortos ali daquela maneira brutal, mas continuaram, talvez ainda encontrassem elfos ou elfas com vida para libertar.
Do lado de dentro, Fujin caminhava junto os outros, Aderlius parecia impaciente, pois bufava e dava pisadas duras, e aquilo estava irritando Tailan e Phillipus:
- Qual o problema brutamontes?
- O problema elfo, é que vocês são muito maricas, esses passinhos, esse medo...
Fujin parou, franziu o cenho e olhou para trás diretamente para o bárbaro:
- Eu nem sei por que você está me acompanhando, se é pelas tais esferas, se elas realmente estiverem aqui e eu as recuperar as entrego para você, não precisa vir junto, mas se quiser me acompanhar, vai ter de seguir o meu comando, você pode ser acostumado a lutar do seu jeito, mas contra criaturas como Igwar músculos não bastam, a não ser que queira ser fatiado?
- O grande Aderlius não segue ordens de ninguém, e se meu jeito de lutar não ajuda muito, já se esqueceu que fui eu que cortei a perna daquele demônio lá fora?
- Você é bom no campo de batalha, mas contra seres inteligentes é preciso ser tão inteligente quanto, e para sua informação aquilo não era um demônio e sim um cavaleiro amaldiçoado programado para lutar, ele não é mais inteligente que uma mosca, e se você for vai calar essa sua boca!
Fujin e Aderlius estavam se encarando, Phillipus, Tailan observavam, Robs como todo bom paladino tentou colocar panos quentes na situação:
- O gente, acho melhor pararmos com isso, estamos do mesmo lado, juntos somos uma boa força, mas se nos matarmos aqui nenhum de nós alcançará o objetivo.
Na mesma hora Felon retornou:
- General, encontrei duas passagens mais a frente, mas resolvi voltar para relatar! Não encontrei ninguém no caminho, mas tem um forte odor de enxofre a partir da bifurcação!
Fujin mudou a fisionomia:
- Obrigado Felon – disse voltando-se novamente para o bárbaro – você é um bom guerreiro, mas tem de aprender a seguir ordens, conheço humanos que lhe matariam por muito menos, e acredite, eles conseguiriam.
Aderlius apenas resmungou afastando-se, Fujin continuou:
- O cheiro de enxofre é por causa dos guarda costas de Igwar, ele nunca anda sem a presença deles, são dois demônios desconhecidos, quando os relatos de que Igwar havia retornado chegaram até mim, não dei muita atenção, eu havia ouvido que ele tinha esse reforço junto a sua guarda, mas não acreditei até o dia em que fomos emboscados, seja lá como se deu seu retorno, ele tem alguém muito poderoso ao seu lado.
- Então você já o conhecia antes? Perguntou o paladino.
- Digamos que sim, mas não há tempo para esta história, quem sabe outro dia. Vamos para a bifurcação.
Caminharam por alguns minutos, Robs pensava com sigo mesmo, se as esferas realmente estavam ali, ele era o único que ainda podia impedir que seus amigos corressem risco em vão, Phillipus por estar diante de seu grande herói de infância, lutaria até seu ultimo fôlego, e Aderlius luta em qualquer ocasião, e quanto maior o desafio melhor, se morrer acredita que seu lugar estará reservado no céu de sua crença, afinal morreu em batalha, morte de herói. Chegaram até a bifurcação, o odor realmente era forte, se por todo o caminho as tochas eram fracas, aqui elas aumentavam o seu grau de alcance, os dois caminho aparentemente eram iguais.
- Paladino, qual o nome da sua espada? Indagou Fujin.
- Matadora de Demônios!
- Já matou algum?
- Ainda não, mas meu mestre Taskan sim.
- Eu percebi que você me lembrava alguém!
- Conhece meu mestre?
- Digamos que sim, quando o encontrar mande lembranças. Agora meu caro, chegou o dia de provar para si mesmo quão grande é sua fé e quem sabe fazer jus ao nome de sua lâmina! Eu, Tailan e Phillipus iremos pelo caminho da esquerda, Felon, Aderlius e você Robs irão pelo caminho da direita, você estará no comando cavaleiro santo, se um dos grupos chegar a lugar nenhum deverá retornar imediatamente para o outro caminho, agora vamos e que o Poderoso esteja conosco.
Os dois grupos se separaram, caminhavam com certa cautela e logo adentraram naqueles caminhos sem mais que a entrada pudesse ser vista. Fujin e os outros dois percorriam um caminho cada vez mais iluminado, o cheiro de enxofre começou a enfraquecer, o corredor era longo e sem que percebessem uma curva havia sido feita para a esquerda, o ângulo era tão suave que apenas depois de certo tempo Phillipus comentou o que havia percebido, Tailan concordou e Fujin confirmou, mesmo assim continuaram, o chão parecia bem seco e o corredor começara a ficar mais espaçoso, se deu inicio um tipo de pedra trabalhada nas paredes laterais. Depois de meia hora chegaram até uma porta toda trabalhada de ouro maciço, Fujin empurrou a maçaneta lentamente, a porta se moveu para dentro, uma grande sala com tapetes nas paredes surgiu, o chão também era do mais puro ouro, a abobada tinha um tom laranja e muitas pedras preciosas azuladas encravadas, três armários guardavam livros e alguns frascos, uma grande mesa ficava no centro da sala, em cima havia restos de comida como que se alguém tivesse abandonado as pressas o recinto, Tailan e Phillipus investigaram todo o recinto, milímetro por milímetro, Tailan encontrou algo abaixo de um tapete que ficava na parede no lado esquerdo da sala, o elfo puxou o tapete, havia um desenho, era o desenho de uma porta, Fujin observou atentamente por alguns segundos e um temor invadiu sua mente:
- Esse desenho, estamos do outro lado da taverna, vamos voltar, creio que os outros estão em perigo, rápido, rápido! E saíram correndo a todo fôlego pelo corredor novamente.
Assim que se separaram, Robs havia sacado sua grande espada e caminhava com ela firmemente empunhada, Aderlius parecia menos nervoso, e estava atento ao passos do amigo, Felon os acompanhava com seu arco armado e pronto para disparar ao menor movimento suspeito, diferente dos caminho dos outros três, aqui o cheiro de enxofre se mantinha e impreguinava cada vez mais as narinas. O chão começara a descer e a escuridão aumentar. Caminharam mais ou menos por quinze minutos e avistaram mais a frente uma luz avermelhada, Felon tomou a frente por ter os passos mais silenciosos, Robs e Aderlius apenas enxergavam a silueta um do outro, sem esperar o elfo foi violentamente puxado pelo arco e arremessado para longe dos dois companheiros, o bárbaro correu em socorro do elfo, Robs tentou falar para ele esperar, mas era tarde.
Aderlius entrou em um enorme salão com várias tochas queimando no alto, parou por um momento e observou, mais a frente avistou uma mini sala com uma espécie de altar e três homens ao redor. Correu rapidamente os olhos e viu Felon caído a sua direita e sem que pudesse reconhecer melhor o local levou um golpe na cabeça que o fez ajoelhar-se, o paladino que vinha mais atrás viu um vulto que passou pela sua frente quando acertou seu amigo. Felon correu para pegar seu arco e disparou varias flechas, mas a criatura era muito agil e parecia caminhar nas paredes como uma aranha, desceu de forma rápida e golpeou novamente o bárbaro que mal tinha se recuperado do primeiro golpe, o que a criatura não imaginava era que a espada do paladino fosse tão longa e pudesse ser manejada tão rapidamente. Robs acertou a criatura que soltou um urro para cair mais a frente próximo a Felon. O elfo sacou de sua espada e preparou-se para dar um golpe, foi surpreendido, a criatura tinha uma espécie de calda e a enrolou no braço do elfo, Felon gritou de dor, soltou a espada e começou a sentir seus ossos serem esmagados, o capuz da criatura caiu e seus olhos se revelaram vermelhos como sangue, sua boca era semelhante à boca de um crustáceo com dentes serrilhados, sua pele escamosa liberava o forte odor de enxofre. Robs correu em auxilio do elfo e cortou a calda do demônio que lamuriou e saltou para trás encarando-o.
Aderlius observou toda aquela cena, olhou para a sala mais a frente, algo estava acontecendo lá, Robs empunhando sua espada com as duas mãos encarava o demônio sem demonstrar medo. Felon amarrou panos em seu braço machucado e pegou novamente seu arco. O bárbaro estava em dúvida se ajudava os amigos ou corria em direção à sala mais a frente, naquele momento um dos homens apontou para fora em direção da batalha e ao que parecia o outro demônio capanga de Igwar começou a caminhar em direção dos três.
Robs brandiu sua espada em direção da criatura que parecia estar muito ferida, pois estava apenas se esquivando, como que se estivesse querendo ganhar tempo, suas rápidas esquivas estavam irritando o paladino, mas talvez o que a criatura não esperava era receber um flecha certeira em sua testa do arco do elfo, talvez tenha acreditado que o ferira o suficiente a ponto de que ele não poderia disparar mais, Robs não teve dúvidas, quando o demônio parou perplexo pela flechada teve seu tronco separado de suas pernas pela pesada espada sagrada do paladino, a famosa “Matadora de demônios”, a criatura caiu se debatendo e mesmo com o corpo separado tentava se arrastar, mas um bom paladino sempre faz o serviço completo, e a lâmina mais uma vez cortou o corpo da criatura dessa vez separando a cabeça do resto.
- Nunca subestime um elfo ferido na alma! Bradou Felon.
Robs ainda analisava a criatura quando viu o bárbaro correndo e gritando em direção a outro ser que vinha da sala à frente:
- Aderlius não...! O paladino tentou parar o amigo, mas sabia que se quisesse ajudá-lo teria de ir atrás, e correu em seguida.
O bárbaro havia decidido atacar o inimigo que vinha a frente, empunhou seu machado e correu em direção da criatura, não viu o paladino partir o outro inimigo, e tomado pela fúria da batalha começou a gritar, a criatura também corria e uma fumaça de poeira se levantou no lugar, Robs corria atrás, já um pouco ofegante, suas forças já estavam chegando ao limite.
Nem Aderlius nem a o demônio pararam e um forte som da batalha veio do encontro entre os dois, em meio a poeira Robs viu o corpo do amigo ser arremessado uns cinco metros para trás e cair imovel, a poeira abaixou e a criatura cambaleante tentava arrancar o machado de seu ombro direito, que diga-se de passagem havia feito um estrago razoável fazendo o sangue do demônio jorrar, o paladino não pensou duas vezes, era hora de terminar o serviço, afinal de contas, esse é o serviço de um paladino, banir o mal do mundo, mas foi pego de surpresa, uma descarga elétrica em forma de raios o acertou em cheio, ajoelhou-se em uma das pernas, tentou levantar, mas o golpe foi forte demais, soltou a espada e desabou no chão, ainda tentava se arrastar, mas todos os músculos de seu corpo estavam contraídos e isso incluía seu coração que ele sentia, estava com dificuldades para bater.
Felon havia conseguido com muita dificuldade armar o arco novamente, e quando viu o paladino ser atingido pela descarga elétrica mirou apesar da distância dentro da sala a frente, talvez não acertasse, porém o assustaria dando tempo para Robs se recuperar, não houve tempo, uma flecha atravessou-lhe a garganta, seu arco caiu, o elfo ajoelhou, o gosto de sangue inundou sua boca, seus olhos se encheram de lágrimas, Felon era um jovem elfo de futuro promissor, defendia o direito de viverem nesse mundo sem opressões contra seu povo e gostaria de voltar a ver as belezas da criação mais uma vez, ainda tinha sonhos, e naquele momento havia sido privado de vive-los assim como de ver a luz do sol uma ultima vez. Nem ele e muito menos o paladino haviam percebido que Igwar também havia saído da sala no fundo do salão e enquanto toda a atenção estava voltada para seus guarda costas ele havia se posicionado sorrateiramente nas sombras com arco tão potente quanto ao de Felon.
- Gosta de flechas elfo estúpido? Sinta o gosto delas! Gargalhou Igwar.
No momento em que o elferr pronunciou essas palavras Fujin e Tailan chegaram na entrada do grande salão e ainda puderam ver Felon em seus ultimo suspiros, seus cabelos loiros estavam ensopados em sangue, Tailan correu e levantou o tronco do amigo:
- Irmão! Não, não, não! Abraçou o corpo e lamentou.
Fujim observou rapidamente o campo de batalha, viu o demônio morto dividido em três, mais a frente o bárbaro imóvel no chão e o paladino se arrastando (as descargas elétricas haviam parado assim que os dois chegaram), observou a sala mais a frente e alguém lá dentro, escutou um zunido, sacou de sua espada e cortou uma flecha disparada em sua direção, apontou a espada justamente para a sombra onde Igwar se escondia:
- Saia das sombras seu maldito, nenhum elfo mais morrerá hoje aqui, saia das sombras e lute.
- Com todo o prazer mestre Fujin, irei fazê-lo provar o gosto da minha lâmina assim como seu amigo provou da minha flecha.
O paladino se levantou vagarosamente e apoiado em sua espada conseguiu se firmar, olhou para dentro da sala de onde havia vindo a descarga, um homem parecia estar levitando três esferas e ele sabia que aquilo parecia não ser nenhum pouco bom.
Continua...

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Parte 7 - Fúria Elfica

O cavaleiro nem se mexia tamanho o medo diante daquela situação, seus olhos ardiam, seus músculos estavam completamente enrijecidos e o braço voltara a latejar, seus olhos viam o quanto ele podia, nem um daqueles homens se importava com a sua presença, nem mesmo o olhar de nojo que os elfos da escuridão dirigiram a ele e ao outro guarda nas ruas era percebido ali, estavam todos bebendo, comendo e conversando, o soldado que o havia chamado esperava do lado do balcão, um sujeito de baixa estatura sem capuz e de cabelos ralos atendia o que aparentemente era na verdade uma taverna de magos, o guarda chamou o cavaleiro, que se aproximou para o homem sussurrar próximo de seu ouvido:
- Não gosto de vir aqui por isso, nos tratam como nada nesse lugar, e ainda nos fazem esperar! Já tinha descido aqui soldado?
- N-n-não senhor! Por que não podemos descer aqui?
- Serpentes atinjam seu traseiro homem, estava dormindo quando o recrutaram?
- Acordei com dor de cabeça essa manhã e não me lembro de muita coisa.
O guarda fez um gesto para o homem de traz do balcão:
- Uma cerveja vermelha para mim e o soldado aqui. Não vá contar para o capitão a respeito disso, estamos em serviço, se bem que eles nem precisam da gente.
- Senhor, poderia refrescar minha memória?
- Soldado você está falando sério?
Wellan refletiu por um minuto:
- Às vezes me lembro de tudo, mas ainda não lembro por que aqui embaixo tem elfos da escuridão e esses caras de roxo e por que só ficamos lá em cima?
- Sorva sua cerveja e fique quieto, logo vai se lembrar.
O cavaleiro levou o caneco até a boca, mas não tomou nada, não era acostumado a tomar bebida forte, principalmente quando não conhecia, já o guarda que o acompanhava virou de uma vez o “delicado” caneco de cerveja. Uma porta se abriu e Wellan olhou no seu caneco de cerveja para ver se não tinha bebido mesmo, limpou os olhos e começou a achar que estava sonhando, pois a porta se abrira no meio da parede, porém nada indicava que ali existia uma porta, um dos encapuzados surgiu e caminhou na direção dos dois, o guarda fazendo uma reverência entregou a carta:
- Senhor, seu humilde servo apenas cumpre seu dever, chegou- nos essa carta hoje pela manhã!
Wellan vendo a cena não deixou de pensar “seu puxa saco”, “bundão”, mas se lembrou que em recintos como esse até pensar pode ser perigoso e continuou imóvel pelo efeito do medo. O homem que havia surgido da porta cumprimentou Wellan que por sua vez quase caiu ao devolver o cumprimento, pegou a carta, com uma voz fria e calma fez um convite aos soldados:
- Teremos uma atração especial aqui esta noite, e já está para começar, se quiserem estão convidados, fiquem a vontade!
O homem se afastara vagarosamente, e Wellan se aproximou do que parecia ser uma espécie de palco, mas na verdade fez esse movimento para ver se enxergava algo do outro lado da porta e pode ver de relance uma mesa com um elfo da escuridão e outros dois encapuzados de preto, o homem entrou, a porta se fechou assim com se abriu, sem deixar vestígios, alguns dos encapuzados que estavam no recinto observaram a movimentação, mas não esboçaram reação, alguma coisa iria começar no palco, o que quebrou o raciocínio do cavaleiro. Uma cortina lateral se abriu e duas belas elfas semi nuas foram empurradas de forma violenta por dois elfos da escuridão, elas choravam desesperadamente, estavam acorrentadas pelos pés e pelas mãos, suas peles claras estavam sujas e seus olhos inchados de tanto chorarem, seus corpos apresentavam hematomas e seus cabelos estavam despenteados, as duas tinham cabelos pretos e grandes olhos amendoados, tentavam esconder a quase nudez, o cavaleiro sentiu-se mal por tudo aquilo, eram duas lindas elfas, que mesmo em sua desgraça não tinha sua beleza apagada, o cavaleiro lançou um olhar de piedade para as duas.
Wellan nunca foi com a cara de magos, sempre detestou ladrões e aquele recinto parecia estar cheio das duas coisas, uma faísca se ascendeu dentro dele, tinha de se conter, seria estraçalhado antes mesmo que sacasse sua espada, fez menção de sair, o guarda o pegou pelo braço e lhe ordenou que ficasse, que tipo de atração teriam ali? Qual atrocidade estava por vir? E não demorou para que suas dúvidas começassem a ser respondidas, dois encapuzados subiram ao palco e começaram a rasgar o restante das roupas das duas, um outro começou a falar com uma voz maliciosa:
- Belas elfas, virgens, suculentas, prontas para quem tiver como pagar para fazer o que quiser com essas beldades que nossos sócios elferrs nos presentearam essa noite!
Um bando de encapuzados se acotovelava na beira do palco, passavam as mãos nas pernas das elfas que tentavam se defender sem muito sucesso, alguns já levantavam as mãos com seus sacos de dinheiro e gritavam valores descontroladamente, o anunciador parecia se deliciar com a aflição das duas, Wellan pode ver que em meio a seus cabelos as duas usavam uma tiara e também portavam braceletes de prata em seus braços, por algum motivo aquilo lhe chamou a atenção; o anunciador apontou um possível comprador, o chamou até o palco, ele jogou o saco de dinheiro para o homem, um dos encapuzados que quase rasgara toda a roupa das duas abriu o cadeado que as prendia e lhe empurrou para seu novo dono, que começou a realizar seus desejos mais sombrios no meio de todos, a faísca dentro de Wellan se tornara um fogueira, aquilo era degradante, não pensou em mais nada, foi arremetido a lembranças do passado, não importava se o acusavam de não ser um cavaleiro, ele tinha honra, e se morresse por causa dela, morreria feliz, morreria como um cavaleiro, sacou uma adaga que tinha na cintura da armadura e cortou o pescoço de dois encapuzados para abrir caminho, o que no meio da confusão foi fácil, sacou da espada e com toda sua raiva a fincou no meio do pescoço do encapuzado que passava sua língua na orelha da elfa, aproveitando a surpresa de todos decepou a perna do sujeito que segurava a outra elfa e puxou as duas para trás de si, o soldado que havia levado o cavaleiro até lá foi atacado por trás e uma grande adaga lhe atravessou o abdômen antes que pudesse tentar entender o que estava acontecendo, um silêncio profundo caiu sobre o recinto, agora Wellan empunhava sua espada contra uma multidão de encapuzados, uma das elfas tirou um de seus braceletes e o fixou no braço do cavaleiro, não havia mais para onde recuar, era o fim da linha, a vida tinha sido boa para ele desde de que conhecera o Rei Lionel e sua filha Linara, teve um vislumbre da princesa com seus esvoaçantes cabelos loiros e seu comprido vestido azul, lembrou-se da primeira vez que encarou seus alegres olhos verdes, seu doce sorriso, não conseguiria vê-la para se despedir, um dia ela ouviria como ele morrera ao defender duas donzelas élficas, voltou a realidade, os homens pronunciavam palavras que mais pareciam resmungos desconexos, já não havia espaço para golpear e seu fim havia chegado.
Após Fujin desferir o golpe no elferr que descera as escadas praguejando, renderam os dois guardas que os acompanhava, foram rápidos e eficazes, o elfo da escuridão tentava se levantar, mas Fujin pressionava o pé contra a garganta dele cada vez mais forte:
- Onde ficam as armas? Nossas armas.
- Você vai morrer elfo nojento, todos vocês vão morrer, gemendo como suas elfas! Disse o elferr com diculdade!
Fujin lançou-lhe um olhar de ódio:
- Você vai antes! O elferr se debateu até seu pescoço ser completamente esmagado.
- Querem sofrer o mesmo destino ou vão abrir o bico? Onde estão nossas armas? Disse Fujin olhando para os dois soldados que agora estavam apavorados.
- Não podemos, vamos morrer se falarmos!
- Vocês vão morrer de qualquer jeito! Comentou o bárbaro.
Os guardas tentaram resistir, mas foram surrados, e quando revelaram onde as armas estavam guardadas ouviu-se um som ensurdecedor de sinos, era o alarme, eles não sabiam, mas o homem que havia sido surrado por Wellan não estava morto e conseguiu se arrastar até a porta onde ficou, quando os guardas do lado de dentro resolveram abrir a porta para perguntar se os guardas de fora precisavam de algo, além de avistarem o homem sem a armadura e todo ensangüentado os outros dois guardas também estavam caídos, a cola de Phillipus perdera o efeito, mais que rápido o guarda correu e disparou o alarme, a surpresa havia acabado, mas não a fúria, Fujin tão rápido escutou o alarme chamou seus elfos e subiu as escadas velozmente, os guardas começaram a ver com terror elfos brotando da terra. Três elfos entraram correndo em uma das guaritas e massacraram os guardas, desceram por um alçapão e derrubaram mais três guardas que se encontravam ali cuidando das suas armas, porém como o alarme alertou os elferrs e os encapuzados, não haveria mais tempo para se armarem com suas armas, pegaram as duas espadas de seu general, uma lança, um arco e sua aljava além de duas espadas de seu regimento, enquanto realizavam essa tarefa, os outros elfos queimavam em busca de vingança, um sentimento nada nobre, porém, não era hora para nobreza, o insulto do elfo da escuridão em relação as elfas ao ser questionado por Fujin os deixara mais insanos ainda, os guardas não tiveram chance alguma, bastaram oito elfos para derrubá-los.
Os elfos incumbidos de pegar as armas chegaram até Fujin, lhe entregaram suas espadas, eram duas do mesmo tamanho, encurvadas na ponta, tinham um brilho cintilante e um corte afiado a ponto de atravessar uma rocha, “caçadora” e “protetora” eram seus nomes, o elfo as analisou, olhou ao redor, do seu lado esquerdo o elfo que recebera o arco, à direita o portador da lança, no meio da cidadela um grupo de elferrs se organizava para conter a fuga, mas ninguém estava fugindo, os elfos se armavam com as espadas e adagas dos soldados que haviam derrotado, não havia armas para todos, alguns ainda conseguiram descer ao alçapão, mas a grande maioria estava de mãos vazias, nem por isso menos empolgado pela batalha, Fujin apontando para baixo incentivava seus soldados:
- Elfos, lutem por suas vidas, lutem por seu lar, lutem por suas famílias, pela liberdade, morte a todos que escravizam os povos livres!!!
Noventa e três elfos pareciam quinhentos, desciam as escadas como um mar bravio, todos os gritos de seus companheiros ouvidos de suas celas sem que pudessem fazer nada lhes voltavam à lembrança, suposições do que poderia estar acontecendo com suas famílias fervilhavam em suas mentes, uma chama parecia queimar em seus olhos, e até mesmo os que estavam desarmados corriam sobre os elferrs que ainda não tinham visto tamanha fúria, Aderlius descia junto, gritando e cortando tantos elfos da escuridão quanto podia, ele não conseguia diferenciar um do outro, não conseguiria saber quem o envenenou, qualquer um poderia ser o elfo da escuridão que ele ansiava esmagar, por isso atacava sem misericórdia, no meio da cidadela uma massa de seres lutando havia se formado, Fujin e os dois elfos vinham atrás, também derrubavam quantos podiam, Phillipus mesmo machucado atacava bravamente com suas espadas e Robs meio sem entender o que estava ocorrendo se questionava se era certo estar em meio tamanha carnificina.
Fujin manejava de forma muito hábil suas duas espadas, conseguia combinar força e agilidade primorosamente e parecia flutuar quando saltava de um lado para o outro, os inimigos nem mesmo conseguiam se aproximar dele o que dava um ar de que o elfo era invencível, seus dois companheiros eram tão bons senão melhores, o portador do arco disparava mais flechas por minuto do que Phillipus podia contar, já o elfo que utilizava a lança golpeava os adversários furiosamente usando sua arma e seus pés, os três já faziam estrago nas hordas inimigas, mas todos os noventa e três elfos lutavam com todas as suas forças. No entanto elferrs não são criaturas fáceis de derrotar e meio as pressas conseguiram formar uma linha de arqueiros no final da rua do vilarejo, eram aproximadamente uns trinta e dispararam conscientemente, logo em seguida puderam ver que seu intuito obteve sucesso, alguns elfos caíram, o que dificultou mais ainda a batalha para os fugitivos, mais dois disparos foram feitos e um número maior de elfos caiu, os elfos da escuridão já começavam a sorrir e clamar pelo sangue de seus “irmãos” de boa índole, mas com assombro viram diante de seus olhos seus inimigos levantarem, retiravam as flechas de seus braços, pernas e troncos e continuavam a lutar da maneira que pudessem, apenas os que haviam levado o golpe definitivo ficaram no chão, porém os arqueiros continuavam a disparar e pareciam além de querer derrubar seus inimigos ganhar tempo.
Wellan e as duas donzelas élficas estavam debaixo de uma amontoado de encapuzados, uma das elfas enforcava com a corrente de seus braços o homem que as vendia como produto, o cavaleiro levava muitas pancadas e dava golpes com sua adaga como podia, furava alguns encapuzados, mas nada que diminuísse a quantidade de golpes, a outra elfa chorava muito e tentava se esconder atrás de seus dois companheiros, uma espécie de corda brilhante se enrolou nas perna de Wellan e o cavaleiro foi arremessado contra a parede onde estavam as bebidas, a multidão de encapuzados se deliciou ao ver as duas elfas desprotegidas, Wellan se levantou e a corda se enrolou em seu pescoço, tentou corta-lá mas a adaga passou direto pelo meio da corda, sua tentativa de puxar a corda com as mãos também foi em vão, pois suas mãos também a transpassaram, a corda começou a apertar mais, um homem com seu capuz nas costas era o dono da corda, seu cabelo era preto e curto, seus olhos esverdeados e não demonstravam nenhuma compaixão, sua mão esquerda estendida dava o aperto da corda, com um sorriso o homem puxou o cavaleiro próximo de si, afastado por uns três braços, Wellan agonizava e estava a ponto de urinar devido a forte dor e desespero de ver seu algoz face a face e não ter uma oportunidade de se defender, as elfas se debatiam e gritavam sem esperanças de que alguém as ouvisse; subitamente um grande barulho de sinos foi seguido por gritos a distância, mesmo em meio aquele confusão o barulho ao longe foi ouvido e os deixou preocupados.
A corda afrouxou e o cavaleiro conseguiu dar um empurrão no homem que o enforcava, Wellan caiu no chão e se arrastou como pode, as elfas respiraram aliviadas por todos aqueles homens correrem para a porta para saber o que estava acontecendo, e seja lá o que viram os deixou muito perturbados, podiam ouvir um grande barulho de batalha do lado de fora que se aproximava cada vez mais dali, os homens começaram a fugir, corriam para trás da cortina pela qual as elfas foram jogadas, o homem que antes enforcava Wellan entrou novamente na porta que surgia na parede e o cavaleiro apenas observou ainda fazendo força para respirar.
Do lado de fora, o elfo do arco disparava suas flecha com grande precisão contra os arqueiros elferrs que iam tombando rapidamente, Aderlius com seu machado abriu caminho com certa facilidade entre os seus adversários chegando até os arqueiros que ainda restavam para terminar de derrubá-los, e quando todos haviam caído, o bárbaro mal teve tempo para se defender, um grande machado, maior que o seu golpeou – o, um ser com uma armadura cheia de pontas o encarou com uma gargalhada sinistra, Fujin vendo aquilo gritou os nomes dos elfos que com ele se destacavam entre os outros,
- Felon, Tailan, ajudem o bárbaro contra o Meshk!
Felon era o melhor da sua região com o arco, ninguém era mais preciso nem mais rápido do que ele, alguns até duvidavam que ele fosse um elfo puro, achavam que era alguma criatura celestial disfarçada em seu meio, tamanho era sua habilidade com que usava o arco; já Tailan era valente e destemido, nunca recuava de uma batalha, nunca gostou de espadas e com sua lança era capaz de derrubar mais inimigos do que poderia se julgar ao ver seu rosto carismático e alegre, os dois eram elfos de confiança de Fujin, os três haviam treinado juntos pelo mesmo mestre elfo, porém Fujin era um líder natural e os dois juntos com os outros elfos dariam a vida por seu general, e justamente isso é que foi presenciado ali, já restavam poucos elferrs em pé, poucos elfos vivos também, mas de qualquer forma os segundos estavam em número muito reduzido, e quando Fujin gritou para os dois ajudarem Aderlius por que um Meshk surgira, as forças dos valentes foi minada.
Meshk’s eram criaturas meio vivas meio mortas, contam as lendas que são guerreiros que não suportavam a idéia da morte e fizeram um pacto com o senhor das profundezas para não sentirem mais dor, cansaço ou qualquer tipo de compaixão, mas o preço foi alto, apenas a parte de suas mentes em que se concentravam as batalhas restou, nenhum resquício de humanidade, se tornaram criaturas vis com sede de sangue fosse de um bárbaro fosse de um velho aleijado, não fazia diferença, contando que suas armas continuassem matando.
Aderlius forçava o machado com toda sua força, porém a criatura parecia não esboçar dificuldade, Tailan chegou e cravou a lança no braço direito do Meshk, enquanto Felon disparava suas flechas contra ele, o bárbaro aproveitou a distração e puxou sua arma para fora do combate, os três haviam fechado o cerco contra o Meshk que apenas tirou de sua armadura suja e fétida as flechas lançadas por Felon; mais atrás os últimos elfos da escuridão caiam pelas mãos de Fujin, Robs, Phillipus e os poucos elfos que restavam.
Robs viu pela porta da taverna Wellan encostado na parede, entrou e observou alguns homens de capuz correndo para trás de uma cortina, viu também as duas elfas chorando muito ao lado do local pelo qual os homens corriam, Phillipus e mais cinco elfos entram no recinto, o paladino se abaixou até o amigo que sussurrou com dificuldades:
- Mate todos esses desgraçados de capuz!
Robs correu até o local pelo qual os homens haviam se escondido e observou um caminho que descia no chão, os elfos vendo a situação humilhante de duas donzelas de seu povo gritaram e correram pelo caminho, Robs os acompanhou e Phillipus ficou prestando assistência às elfas. O caminho descia, mas em seguida subia rapidamente, era todo iluminado por tochas e não demorou muito para alcançarem os homens de capuz que por algum motivo preferiram correr ao invés de lutar, os elfos não tiveram piedade e assim que os alcançaram começaram sua vingança, suas lâminas cortavam gargantas sem clemência, e mesmo que alguns tentassem pedir misericórdia aos elfos tinham sai boca traspassada por uma espada, os cinco elfos que ali entraram mataram todos que encontraram, não sobrando um sequer, é bem verdade que os homens tentaram lutar e até mataram um dos elfos, mas não foi suficiente para salvarem suas vidas, o paladino acompanhou tudo e estava meio desnorteado, sabia que ali havia uma presença maligna, e com certeza aqueles homens não tinham as melhores intenções, mas tudo parecia fugir ao controle, e talvez isso o deixasse perdido, seu medo de não ter controle das coisas.
Do lado de fora Aderlius, Felon e Tailan lutavam contra o Meshk, o bárbaro golpeava sem dó, mas seu adversário defendia suas machadadas com o braço, o que o enfurecia, Tailan procurava acertá-lo com sua lança, mas era bloqueado pelo machado, e as flechas de Felon pareciam não feri-lo, Fujin que havia conseguido chegar até o local onde os três tentavam derrubar a criatura desferiu um golpe na altura do pescoço, e isso chamou a sua atenção, pois ele se esqueceu dos três e tentou acertar o elfo com tamanha força que uma das espadas do elfo se partiu em vários pedaços ao se defender habilmente, porém seu machado ficou preso no solo, e enquanto ele tentava arrancá-lo do chão Aderlius deu-lhe um golpe tão forte na altura do joelho que lhe decepou a perna derrubando-o, no entanto o guerreiro morto-vivo se levantou mesmo faltando à perna, se apoiava no machado, um liquido azulado escorria do seu ferimento, Tailan enfiou a lança dentro do elmo derrubando-o novamente, para mais uma vez o Meshk se levantar, mas antes que conseguisse Fujin cravou-lhe a espada no coração, cortando o aço da armadura, seus ossos, atravessando a carne e cortando o aço do outro lado da armadura.
Restavam apenas uns vinte e cinco elfos fora os três, na maioria cansados e feridos, mas havia sido uma vitória épica, seus amigos, seus irmãos podiam ter tombado ali, mas não é sempre que noventa e três elfos e mais três humanos derrubam trezentos elfos da escuridão, não havia recompensa por aquilo, não havia glamour, mas havia satisfação de saber que aqueles seres não iriam repetir suas atrocidades contra nenhuma outra espécie.
As duas elfas surgiram correndo para abraçar Tailan, estavam vestindo as blusas dos homens de capuz que haviam morrido no recinto em que estavam sendo vendidas, uma gritou irmão e a outra meu amor dando um longo beijo, Wellan observou a cena e vislumbrava aquele cenário de batalha campal, corpos amontoados em meio a uma poça de sangue sem fim, alguns ainda gemiam, outros agonizavam:
- Mas que porcaria está acontecendo aqui? Será que estamos no lugar certo? Tudo o que queríamos eram as esferas e eu nem sei se elas estão aqui.
Um elfo parou do seu lado e com uma voz solene disse:
- É bem provável que elas estejam aqui, enfrentamos forças que não são encontradas normalmente, a não ser quando se quer proteger algo de muito poder.
O elfo era Fujin, Wellan preferiu ficar quieto, não estava entendendo nada, se apoiava na espada como uma bengala, Tailan se aproximou e lhe agradeceu fazendo um gesto que se faz apenas para nobres, as duas também agradeceram muito ao cavaleiro, que se lembrou e contou da porta na parede aos seus companheiros, Fujin olhou para os seus soldados:
- Felon, Tailan, podem lutar?
Um gesto de sim foi a resposta.
- Phillipus, bárbaro, paladino?
- Sim, apesar do ferimento em meu braço.
- Sim.
- Sim.
O cavaleiro se sentou novamente fazendo um gesto de negativo, os outros elfos sobreviventes não foram convocados por seu general que se virou para o bárbaro e para o paladino:
- Espero que vocês estejam bons para lutar ainda, vamos precisar de muita fé e força bruta.
Virou-se, começou a analisar a parede onde Wellan havia dito que existia uma porta:
- Igwar, você será o próximo a sentir o aço da minha espada!

Continua...

sábado, 29 de maio de 2010

Parte 6 - O plano "infalível" de Wellan

Wellan se defendia como podia, um dos homens o atacava implacavelmente, a cada golpe seus braços desfaleciam mais, o ombro direito que havia colocado no lugar latejava sem parar; Phillipus mesmo com dificuldade conseguiu armar o arco e disparar uma flecha, acertou no peito do homem que havia avisado os outros guardas batendo na porta, o ranger era muito bom com o arco, mas desta vez o inimigo não morreu de primeira, pelo fato de estar com o braço machucado não o acertou em cheio, de qualquer forma era um guarda inteiro a menos, assim que viu a flecha acertando o adversário começou a armar o arco novamente, o próximo disparo iria demorar. Aderlius desferiu um forte golpe contra um dos guardas que de defendeu com o escudo, o guarda caminhou para trás, tentou contratacar e não conseguiu, o bárbaro estava insano e deu mais um golpe que fez com que o guarda caísse sentado protegido pelo seu escudo, Robs duelava com o outro guarda e tentava dialogar ao mesmo tento:
- Por favor, houve um mal entendido, não precisamos nos matar, vamos conversar!
- Você vai conversar com os demônios quando eu te mandar para o abismo invasor!
- O que vocês guardam atrás dessa porta aponto de darem sua vida?
- Nunca vai saber cavaleiro santo, pois vai morrer aqui fora!
O homem atacou o paladino com a espada e em seguida avançou com o escudo que o acertou e o jogou para trás, Robs se defendeu com sua longa espada, encarou o guarda nos olhos:
- Você teve sua chance!
Wellan recuou até encostar-se na parede da caverna, um golpe com o escudo na mão do cavaleiro lançou sua espada para longe, o guarda armou o golpe com a espada, Wellan se esquivou, a espada do adversário tirou lasca da rocha, o cavaleiro segurou na mão do guarda que empunhava a espada, mas acabou por levar um pancada do escudo no rosto, Wellan cambaleou para o lado e se esquivou como pode, dessa vez o golpe passou muito perto da sua cabeça. Aderlius não teve pena do adversário, o massacrou com seu machado até que o escudo partisse e finalmente chegasse ao seu portador, com um golpe certeiro o bárbaro acabou com o guarda que se opôs a ele, Phillipus conseguira armar o arco novamente, mas seu disparo foi muito impreciso e não acertou nada nem ninguém, a flecha caiu poucos metros de onde se encontrava, o homem ferido retirou a flecha do peito e novamente corria para a porta:
- A não, de novo não! Disse o ranger correndo para cercar o guarda.
Aderlius levantou a cabeça e viu o sufoco que Wellan estava passando, ele estava um pouco longe, soltou um grito de intimidação e lançou seu machado contra o guarda que mesmo se assustando conseguiu rebatê-lo, o cavaleiro não pensou duas vezes, pulou contra o corpo do homem e o derrubou, deu-lhe um soco no rosto e segurou a mão que estava portando a espada, o guarda tentava se defender com o escudo, Wellan deu-lhe um soco no pescoço, o guarda se debateu e o braço com o escudo amoleceu, o cavaleiro socou-o até que ele ficasse desacordado, havia socado seu adversário com o braço que latejava, assim que o homem desfaleceu Wellan se levantou gritando e segurando o braço com grande dor.
Phillipus havia alcançado o homem que por estar ferido não corria como antes, sacou sua espada e cortou-lhe na altura da cintura, o guarda caiu gemendo. Robs estava apenas se defendendo dos ataques do guarda que o enfrentava, perdeu a paciência e soltou um golpe que treinara muito, a espada do homem quebrara, durante o golpe Robs virou a espada e seu lado largo atingiu o braço do guarda esmagando seus ossos, o homem caiu de joelhos e começara a gritar por socorro, um chute certeiro em sua boca lhe calou, era Aderlius que conhecia bem o amigo paladino que evitava o máximo matar sem antes tentar conversar.
- Não olha assim não Robs, só chutei para ele ficar quieto!
- É, você quebrou o pescoço dele! Disse o paladino verificando se o guarda estava vivo.
- Poxa, não foi minha intenção, às vezes não tenho noção da minha força!
Wellan tirou a armadura do guarda que socara e a vestiu, Phillipus chamou seus amigos, o guarda que ele interceptara estava vivo, caído com um furo peito e um corte na cintura, Robs se aproximou, o homem estava gemendo e praguejando, o paladino fez sinal para o bárbaro não se aproximar se abaixou e ajudou o guarda a se levantar:
- Posso fazer com que sua dor diminua, mas preciso que me conte o que há por trás dessa porta!
- Vá se ferrar seu verme, é melhor me matar, nunca vão conseguir entrar aí.
- Nesse caso vou te matar e depois entrar, quer apostar? Interveio o cavaleiro terminando de encaixar a luva e aproximando seu rosto do guarda.
- Saia daqui Wellan, ninguém vai matar esse homem, ele está ferido e é inofensivo.
- Vai nessa – disse o cavaleiro desviando o olhar para o guarda novamente – se você tentar qualquer coisa vou deixar você tão bonito quanto seu amigo ali! Apontou para o guarda que ele havia tirado a armadura após massacrar seu rosto.
- Afinal de contas, o que vocês querem seus imbecis?
O paladino sem perder a postura respondeu calmamente:
- Por acaso um elfo da escuridão acompanhado de um mago com capuz roxo entrou aqui?
- Por que não perguntou antes, sim, entraram sim, eles entram aqui a todo o momento.
- Pode nos dizer quem são?
- Sou apenas um guarda, não tenho contato direto com ninguém a não ser meu comandante.
- Então você vai nos levar até ele.
- Não posso.
- Por que não?
- Por que ele está ali! Apontou para o guarda cujo Aderlius quebrara o pescoço com seu chute.
Robs colocou a mão no rosto, o bárbaro se afastou, Phillipus deu uma risadinha irônica e Wellan se aproximou:
- Eu tenho uma idéia!
- Suas idéias são suicidas, eu não vou partilhar delas de novo! Respondeu Robs.
- Olha quem fala, e suas idéias que nem funcionam.
O ranger interveio:
- Deixe Wellan expor a idéia dele, creio que não temos muito tempo, aliás, nem sei como a porta ainda não abriu de novo.
Rapidamente o cavaleiro explanou seu plano, Phillipus não gostou muito, mas acenou com a cabeça positivamente e começou a vestir a armadura do homem que Aderlius derrubara com o chute, a princípio era para o bárbaro vestir a armadura do capitão, mas ela ficou apertada para ele e assim o ranger a vestiu. Aderlius e Robs não gostaram nem um pouco do plano, mas sem tempo para pensarem em algo melhor também concordaram, amarraram a boca do guarda ferido com uma corda e colocaram um saco em sua cabeça, tiraram sua armadura o vestiram com os restos da armadura de Wellan, os guardas cujo ranger e o cavaleiro tiraram as armaduras junto com o guarda derrubado por Aderlius com seu machado foram arrastados para o corredor até a região onde tudo era escuro, os dois guardas que faziam a guarda inicialmente foram fixados na parede com uma espécie de cola tirada de árvores que Phillipus carregava e nunca havia tido utilidade até aquele momento. Robs e Aderlius também foram amarrados e tiveram suas cabeças cobertas, logicamente as amarras dos dois foram deixadas frouxas, gastaram certo tempo para realizar todas essas tarefas, além é claro da batalha, e era estranho que ninguém mais aparecera para fora da porta, o paladino acreditava que tudo era uma providência divina por isso não se importava, Aderlius não gastava sua inteligência pensando nisso, Phillipus estava descrente no plano e Wellan achava que tudo aquilo já era uma prova de que seu plano era infalível. As armaduras dos guardas tinham um elmo que cobria todo o rosto do seu usuário, Wellan bateu na porta, momentos depois uma fresta se abriu:
- A senha, declare a senha!
- A senha, sim, claro a senha!
- Vamos soldado ou serei obrigado a prendê-lo, a senha!
- Sim, claro a senha, é ab COF COF BLUSS!
- O que é isso?
- Estou meio resfriado!
- A SENHA AGORA, OU VAI PARA A PRISÃO! Ordenou o guarda com uma lança apontada para o cavaleiro que começou a ver seu plano desmoronar.
- INSOLENTE – bradou Phillipus engrossando a voz e se lembrando que vestia a armadura do capitão – não está vendo que sou eu, tivemos uma luta muito dura aqui fora, deixe-nos entrar ou será você que vai para a prisão!
O guarda olhou assustado:
- Per-perdão senhor, entrei agora no turno e não sabia que estava do lado de fora!
- Veja, tenho três prisioneiros e outro ainda escapou, três guardas estão no encalço dele, os dois que estão na porta ficarão aí até que eles retornem, reforce a guarda aqui dentro e agora saia do meu caminho verme.
- Si-si-sim senhor!
Aderlius e Robs suavam por baixo do capuz mais por medo do que por calor, apesar de sentirem que ao adentrarem seja lá onde a temperatura ter aumentado, Wellan recuperara a confiança e Phillipus não sabia até onde iria sua farsa, passaram por mais de vinte guardas, era impossível que nenhum deles percebesse algo de errado, mas continuaram, duas guaritas bem espaçosas estavam dispostas, uma do lado direito e outra do lado esquerdo, caminharam rapidamente, Phillipus chamou um guarda:
- Ajudem - nos a levar esses homens para a prisão e cuidado eles são violentos!
O guarda que estava com a armadura de Wellan se debatia e tentava falar, o homem chamado por Phillipus deu-lhe um soco na cabeça e o mandou se calar, tomou a dianteira e o cavaleiro e o ranger o seguiram, chegaram ao pé de uma grande escadaria, uma pequena cidade magnífica estava a poucos metros abaixo de onde se encontravam, porém não desceram, o guarda virou para o lado esquerdo e entrou por uma porta arredondada, desceram por uma escada em forma de espiral por alguns minutos, o ar, novamente sufocante adentrou as narinas dos amigos, o ambiente era iluminado por tochas e haviam quatro celas repletas de prisioneiros que chamaram a atenção do ranger, eram elfos, nitidamente desnutridos e abatidos, em seus olhos não era mais possível ver o brilho da alegria e esperança comum aos olhos desses belos seres. Sem pensar Phillipus deu um golpe certeiro no guarda que os guiara até lá embaixo, tirou o capuz da cabeça do paladino e do bárbaro, Wellan que carregava as mochilas e as armas dos dois, o que havia lhe cansado além do costume lançou-as ao chão. Ouviram passos na escada, Wellan colocou os capuzes nas cabeças dos dois amigos e levantou o guarda derrubado por Phillipus segurando-o ao seu lado, dois guardas surgiram:
- Capitão, Lorde Igwar gostaria de vê-lo em sua residência!
- Já estou indo, preciso interrogar esses presos!
- Senhor, podemos fazer isso – disse o guarda com prazer na voz – sabe que Lorde Igwar não gosta de esperar.
- Eu disse que já estou indo, sumam da minha frente, eu mesmo irei interrogar estes homens.
Os homens se entreolharam e saíram rapidamente, Wellan soltou o guarda novamente e retirou os capuzes dos amigos, Phillipus não sabia como agir, logo outros guardas viriam e seu disfarce seria descoberto, chamou Wellan para saírem e fazerem um reconhecimento da cidade antes que isso ocorresse, enquanto isso o paladino e o bárbaro poderiam soltar os prisioneiros. Caminhavam em direção a escadaria quando Phillipus avistou um elfo com ar mais nobre que os outros, mesmo em meio aquela situação degradante seu rosto mantinha a dignidade e suas vestes mesmo sujas continuavam sendo mais brilhante e bela que qualquer armadura daquele lugar, a luz das tochas balançavam e o ranger se aproximou da cela para se certificar de que não estava enganado, o elfo estava encostado na parede de braços cruzados, tinha um cabelo prateado que se estendia até o final das costas, era mais constituído que os outros elfos e o azul esverdeado da sua roupa resplandecia mais que a pouca luminosidade do local, parecia estar dormindo ou algo assim:
- Fujin? General Fujin? Disse Phillipus com voz de espanto.
O elfo abriu os olhos e virou a cabeça para o lado do ranger:
- Você não é o capitão e com certeza logo estará me fazendo companhia nessa cela.
- Vamos soltar vocês General e vamos enfrentar seja lá quem for que habite esse local.
- Você é pretensioso meu jovem, de onde me conhece?
- Fui criado entre os elfos de Teramim – disse o ranger retirando o elmo - cresci ouvindo as histórias de como o senhor se tornou o grande e amado General Fujin, protetor dos elfos daquelas bandas.
O bárbaro e o paladino procuravam um jeito de abrir as celas e os elfos vendo a liberdade próxima pareciam se animar e se levantavam agitados e espreguiçando, na escadaria Wellan caminhou na frente do ranger e não percebeu que ele havia ficado para trás conversando com o elfo, chegou à porta e chamou por Phillipus, não houve resposta, olhou para trás e quando ia descer novamente para chamá-lo ouviu uma voz provinda de trás:
- Soldado, vamos comigo até a guilda dos Roxos levar essa carta!
- Senhor, eu ...
- Vamos lá, depois te pago uma bebida, não gosto de descer sozinho por essas ruas!
O cavaleiro desceu junto com o guarda que o abordou que pela insígnia em sua armadura tinha alguma patente acima dos outros guardas, caminharam pela cidade, não avistaram nenhum outro guarda como eles por ali, ao invés disso, viram muitos elfos da escuridão, isso explicava por que o guarda da porta disse que eles entravam e saiam a toda hora; o teto abobadado brilhava com jóias encravadas que se espalhavam pelas paredes, o chão era úmido, mas não barrento, as construções não pareciam ser feitas por elfos nem por humanos, estavam adaptadas toscamente, até mais ou menos um metro e meio as casas eram belamente esculpidas e dessa altura para cima se via um remendo muito mal feito, avistaram dois grandes salões no meio da cidadela, o guarda começou a se dirigir para lá, um era escuro, iluminado por tochas, mas com muitas janelas, no outro não havia porta, apenas o buraco da porta e foi nesse que o guarda entrou, o cavaleiro exitou, pensou em voltar para trás mas foi chamado pelo soldado com um aceno de mão, aquilo não estava no plano, aliás as coisas haviam saído do controle, não que isso fosse novidade, seus planos mirabolantes costumavam colocar seus amigos em apuros, mas ao entrar viu que dessa vez poderia estar com sérios problemas mesmo, estava sozinho e teria de interpretar bem, se fosse descoberto sua morte era certa, pois logo que entrou para dentro do salão um frio que teve inicio na sua coluna se espalhou por todos os ossos do seu corpo, era uma guilda de magos, pelo menos era o que parecia, todos com o rosto meio escondido, todos aparentemente realizando negócios escusos, alguns com um sorriso maligno, todos de capuzes roxos, além de um daqueles homens poder ser o ladrão das esferas estava explicado o por que do nome Roxos.
Na prisão os elfos estavam sendo soltos, Aderlius, Robs e Phillipus usaram ferramentas que sempre carregavam com eles, o ranger continuava sua conversa com Fujin:
- Como o senhor veio parar aqui General?
- Me chame apenas de Fujin, por favor – disse sorrindo com uma nobreza que somente os elfos são capazes de expressar – bem, há alguns anos atrás esses tuneis foram invadidos pelos elferrs, você os chamam de elfos da escuridão, eles escravizaram os moradores nativos dessas habitações, anões de boa índole, com o tempo os anões foram fugindo, mas infelizmente a grande maioria morreu nas mãos dessas pragas, no início não quisemos intervir, acreditávamos que os habitantes locais resolveriam o problema, afinal com o passar do tempo paramos de ouvir histórias de guerras nessa região, o que se revelou um grande erro – Fez um gesto de amargura - Poucos meses atrás eles então cercaram as Florestas da Alegria, a mesma região que você disse ter sido criado, não tínhamos noção do seu poder, eles parecem ter feito alianças com alguns humanos detentores de grande magia, suspeitamos disso, pois o trânsito de humanos encapuzados crescera muito por estradas próximas da floresta; então no dia em que abordamos dois elferrs que tentavam molestar duas meninas elfas fomos surpreendidos, era uma armadilha e não estávamos preparados para tamanho confronto, os desgraçados estavam nos vigiando a tempos e todo o meu regimento foi preso, muitos não agüentaram a tamanha degradação e sucumbiram aqui, outros foram levados para os rituais de sacrifício desses malditos, éramos duzentos e agora somos apenas noventa e três, porém, os soldados que restaram estão sedentos por vingança, dessa vez nós os surpreenderemos, não há nada mais letal do que um elfo com o orgulho ferido.
O elfo continuou:
- Mas e vocês, o que fazem aqui? Acredito que não vieram para nos resgatar!
- Não senhor, estávamos atrás de um elfo da escuridão e um mago (assim acredito), que nos emboscaram na estrada levando um artefato que escoltávamos, o rastro deles nos trouxe até aqui.
- O que vocês escoltavam para atrair a atenção deles?
- O nome é, deixe-me lembrar, Esferas de Eratan.
- Esferas de Eratan? Improvável, ouvi histórias sobre elas da boca de elfos que já partiram há muito tempo, elas se perderam com as mudanças do mundo, pela graça do Criador. No entanto há uns três dias atrás houve grande movimentação lá em cima, ouvimos aqui embaixo, o que indica que alguma coisa importante aconteceu.
- Senhor, ajudaremos vocês a saírem daqui, mas precisaremos de sua ajuda.
- Nem precisa pedir, será um prazer esmagar esses mestres da escuridão.
Todos os elfos estavam soltos, todos rangendo os dentes, alguns agradeceram pessoalmente ao paladino e ao bárbaro, que já não sabiam o que fazer, seu plano inicial havia mudado drasticamente e a descrição havia ido para o espaço, os elfos iriam cortar tantas gargantas quanto pudessem e isso poderia fazer com que as esferas (se é que elas estavam ali) fossem carregadas para fora por seus ladrões, pior, poderiam morrer em uma luta que não era sua.
- Agora só faltam as armas! Disse Fujin olhando com seriedade para seus soldados.
Novamente ouviram-se passos na escada, pensaram que fosse Wellan, que havia subido há algum tempo, no entanto o barulho era de mais de um homem descendo e antes mesmo que apontasse disparou palavras de descontentamento:
- Maldito seja capitão, não sabe que Lorde Igwar não gosta de esperar, mas o que é...! Um soco desferido por Fujin calou o elferr que descia com mais dois soldados que por sua vez tentaram fugir, mas foram arrastados para dentro pelos elfos.
Fujin colocando o pé no pescoço do elferr que tentava se levantar disse mais para si mesmo:
- Igwar receberá minha visita, e será a ultima da vida dele.
Uma grande batalha teria inicio, mas o final não parecia poder ser favorável para eles, Aderlius, no entanto gostou da idéia, estralou os dedos e pegou o machado do chão, Phillipus terminando de tirar a armadura estava tomado pela dor do povo em que crescera, seu ombro ainda doía muito, mas teria de dar um jeito de lutar, Robs empunhando sua espada levantou os olhos para o cima:
- E lá vamos nós de novo, nos proteja por favor!
Continua...

sábado, 22 de maio de 2010

Parte 5 - Cada vez pior...

Enfrentar três trolls da floresta de uma vez era algo desafiador e até tolo, no entanto não tinham muita opção, poderia ser a ultima batalha que enfrentariam, principalmente por que um dos trolls era muito grande e forte, e esse mesmo apontando para os quatro amigos correu para cima deles usando a pequena árvore que havia arrancado como uma grande clava, Aderlius não era de fugir de batalha alguma, parecia não sentir medo ou ser desprovido de cérebro, pois ficou esperando o ataque, Phillipus pulou contra seu corpo e o derrubou antes que o golpe da criatura o atingisse, e um grande deslocamento de ar foi sentido por eles, o que demonstrava a força do golpe, o bárbaro rolou para um lado e o ranger para o outro, a “clava” do troll atingiu o chão, espirrando lama e pedras para os lados. Wellan passou correndo para dentro da caverna com um dos trolls atrás, Robs viu aquilo e não entendeu nada, era típico do cavaleiro bancar o herói, isso poderia custar-lhe a vida algum dia.
O rosto de Phillipus demonstrava grande pavor, que aumentou mais ainda quando o troll que havia os atacado por primeiro passou a adaga do bárbaro próximo a sua cabeça, se arrastou no chão para afastar-se, mas a criatura mesmo manca e duramente ferida destilava ódio e queria vingança, assim o perseguia implacavelmente. O grande troll continuava sua caçada ao bárbaro que já não tentava o enfrentar no corpo a corpo, a cada golpe errado da criatura um pequeno buraco era feito na lama, Robs tentava golpeá-lo com sua longa espada, mas o monstro parecia querer Aderlius, o que ajudou o paladino a dar um golpe certeiro na altura do peito do troll que soltou um grito e lançou a árvore contra o paladino acertando o em cheio, Robs soltou um gemido abafado de dor, Aderlius aproveitou e infligiu mais um dano no lado esquerdo do monstro com seu machado, o troll revidou o ataque com um soco certeiro no peito de Aderlius que sentiu o impacto e vacilou permitindo que o troll lhe pegasse pelo pescoço, o levantou até a altura de seus olhos para encará-lo, era acostumado a ver o medo de suas presas antes de devorá-las, mas o bárbaro não estava com medo, e soltou-lhe uma cusparada no meio da sua face horrenda, o troll apertou mais o pescoço de Aderlius que começou a sentir o ar lhe faltar, soltou o machado que ainda estava em sua mão direita e com suas duas mãos tentava tirar as mãos do troll de seu pescoço, apesar de sua força o troll estava ganhando. Phillipus corria meio escorregando na lama para fugir do troll ferido que parecia ser movido a ódio, naquele momento passou correndo ao lado do troll que enforcava Aderlius e acertou uma espadada na parte de trás da perna do algoz do bárbaro que ao sentir o golpe, fraco, diga-se de passagem, afrouxou a mão o suficiente para Aderlius se livrar e cair tentando respirar, porém Phillipus foi pego pelo seu comprido cabelo e levantado pelo grande troll.
Momentos antes, Wellan ao ver que estava sem espada não conseguiu pensar em nada inteligente e correu para dentro da caverna na tentativa de uma medida desesperada, o troll que surgira próximo a ele correu com suas garras e lhe atingiu a armadura, o cavaleiro se arcou para frente quase caindo, mas se recuperou e finalmente conseguiu entrar na caverna, o troll corria freneticamente atrás dele, Wellan torcia por encontrar o mecanismo que havia sido ativado há poucos instantes antes pelo ranger, e torcia mais ainda para não ser uma armadilha de disparo único tendo de ser carregada novamente. O barulho da batalha do lado de fora ficou baixo e apenas sua respiração e a do troll era ouvidas em meio à escuridão, o grande problema é que trolls da floresta conseguem enxergar razoavelmente bem no escuro, o suor escorria pela sua face, a respiração do troll se aproximava e a cada passo da criatura o cavaleiro sentia um temor ainda maior, suas pernas vacilaram, caiu e agora engatinhava atrás do mecanismo, tateava desesperadamente o chão, o troll parecia estar muito próximo, até que com o joelho sentiu algo se deslocar para baixo, ouviu o “click”, virou-se para correr, deu dois passos e foi levantado pelo montro que o segurava pela gola da armadura, o cavaleiro se debatia vigorosamente para fugir das garras da criatura, o fogo se aproximava e a caverna já clareava a ponto do cavaleiro poder ver os olhos insanos do troll.
Phillipus agora estava nas mãos do grande troll que o segurava para o troll ferido, o monstro aproximou-se e se preparou para enfiar - lhe a adaga no olho, foi quando um grito estridente de agonia veio da caverna com um forte calor e cheiro de carne queimada, os dois trolls colocaram as mãos sobre o rosto, o ranger caiu olhando também para a caverna, e assim que passou o susto, quando Phillipus pensou em correr, a adaga lhe atravessou o flanco direito, seu grito despertou os amigos que ainda se recuperavam, Aderlius se arremeteu contra o troll que afundava a adaga em Phillipus e o derrubou, o ranger mesmo em meio a agonia tirou uma flecha da sua aljava e cravou-a no olho que restava ao troll caído que se contorceu no chão como uma minhoca descoberta ao sol; no mesmo instante que o bárbaro pulou no troll ferido Robs acertou a barriga do grande troll, um golpe certeiro e crítico a ponto de fazer com que as entranhas do monstro saíssem para fora, mas aquele era um troll poderoso e mesmo assim correu para cima do paladino sem lhe deixar espaço para deflagrar outro golpe, a criatura atacava freneticamente com movimentos de braços e o paladino se defendia como podia, sua espada foi jogada para longe quando o troll lhe acertou uma braçada, Robs recuou até encostar em uma árvore, a criatura iria dilacerá-lo, apenas fechou os olhos e começou a orar ao seu deus, ouviu-se um barulho surdo, tudo parou, abriu os olhos, o sangue verde do troll escorria pela sua cabeça, a criatura tombou, Robs viu Aderlius ofegante, o machado do bárbaro estava cravado no crânio do troll , o bárbaro tinha lhe desferido o golpe final.
Robs pegou sua espada novamente, Aderlius arrancou seu machado da cabeça do troll fazendo certa força, Phillipus estava deitado ao lado do troll que o havia ferido, após furar o outro olho da criatura cortou-lhe a garganta com sua espada curta e ali ficou, o paladino correu para dentro da caverna, ascendeu sua lamparina e caminhou com cuidado, caminhou até onde achava que podia estar o mecanismo da armadilha e chutou algo metálico, iluminou embaixo, era o peitoral da armadura do cavaleiro totalmente queimada, ao lado pode ver alguns ossos que com certeza eram do troll, mais atrás a espada do amigo, abaixou a cabeça e começou a lembrar dos momentos que haviam passado juntos, da amizade, então ouviu uma voz vindo de trás do lugar onde estava:
- Alguém pode me ajudar?
- Wellan? Você está vivo?
- Não, eu morri e voltei para te assombrar! É claro que estou vivo, bom, pelo menos eu acho. Respondeu gemendo o cavaleiro.
Robs voltou, Wellan estava na passagem do lado esquerdo que eles haviam encontrado e preferiram não entrar, o paladino iluminou e pode ver o cavaleiro sentado com o braço direito imóvel e com alguns arranhões no rosto. Do lado de fora Aderlius ajudava Phillipus que estava gravemente ferido, levantou-o e o ajudou a encostar-se à parede externa da caverna, sangue escorria pelo ferimento, o bárbaro era acostumado a se recuperar de feridas assim, mas seu amigo era menos constituído, era provável que ele iria sobreviver, só precisaria de mais tempo, o que eles não tinham.
No lado de dentro, o cavaleiro explicou ao paladino que ao ser segurado pelo troll conseguiu abrir a armadura e “escorregar” por ela, mas não sem deslocar o braço direito, arrastou-se como pode até a fresta e se escondeu ali na esperança de não ser tostado, quando o fogo passou pela fresta Wellan comentou que parecia ter enxergado uma porta no final da passagem, Robs caminhou até um pedaço do corredor ergueu a lamparina e pode vislumbrar os contornos da porta, se aproximou, era uma porta vermelha chumbada na rocha, não tinha trinco, o paladino a empurrou devagar, a porta se abriu, deu uma iluminada no ambiente, uma mesa e um armário velho podiam ser facilmente reconhecidos, três cadeiras estavam postas ao lado da mesa, resolveu recuar, esperar pelos companheiros, passou pelo cavaleiro que continuava sentado no chão, e lhe avisou que iria chamar os dois que ficaram do lado fora. Ao sair encontrou Phillipus com uma grande ferida no ombro esquerdo, o troll chegara a levantar o ranger com a adaga, Aderlius tentava consolar o amigo sem muito sucesso, Robs sabia que dali para frente ele e o bárbaro teriam de lutar pelos quatro, pelo menos até que os dois companheiros se recuperassem:
- Wellan está vivo, foi mais uma daquelas idéias estúpidas dele, funcionou, por pouco, mas funcionou!
-Acho melhor queimarmos as carcaças dos trolls, não podemos chamar a atenção de outros trolls ou de animais carniceiros, isso também poderia alarmar outras criaturas e outras pessoas! Disse o ranger em meio às dores.
Aderlius demonstrou estar de acordo com um gesto de cabeça, empilhou os dois corpos, despejou óleo e ateou fogo, os primeiros raios de sol surgiram no céu; Robs comentou a respeito da sala misteriosa que havia descoberto dentro da caverna, o bárbaro ajudou Phillipus a levantar e o carregou até onde se encontrava o cavaleiro, Wellan com a ajuda do paladino se levantou em meio a dificuldades e dores e os acompanhou até a porta, entraram com cuidado, Robs iluminava o ambiente que não era muito grande, mas era um bom lugar para se acomodarem, os armários estavam limpos, porém, vazios, Aderlius ajudou Phillipus a sentar-se em uma das cadeiras, Wellan desabou em um dos cantos e ficou ali, pensativo como sempre, Robs e Aderlius procuraram outra possíveis portas, mas não encontraram nada, nem nas paredes, nem no teto, nem no chão, mas encontraram algo que poderia ajudá-los, tochas prontas para serem acessas, uma em cada canto da sala, assim que as ascenderam puderam observar que aquele recinto estava muito limpo e que aquelas tochas eram recentes, além de iluminar o local o mantinha aquecido, as paredes eram bem talhadas, e o teto muito alto:
- Pelo visto esse lugar tem sido usado regularmente, só espero que quem o tem usado não apareça, ou eu estou perdido! Reclamou o cavaleiro.
- Infelizmente você tem razão Wellan - concordou o paladino – mas não temos muita opção, você e Phillipus estão feridos e eu e Aderlius cansados, somos presas fáceis, precisamos descansar e nos reorganizar, se não tivéssemos encontrado essa sala teríamos de achar outro lugar para ficarmos escondidos.
- Minha espada, você a viu?
- Vi sim, no corredor e a sua armadura do tórax!
- Poderia buscar para mim?
Robs nem questionou o amigo, rapidamente foi até o corredor e pegou a espada e a parte da armadura o cavaleiro, que não ficou contente quando viu o estado em que se encontrava sua vestimenta de batalha:
- Nossa, que porcaria de armadura, não tem como usar mais, torrou, nem parece que é de aço.
- Pelo menos sua espada esta intacta! Disse o paladino entregando-a ao cavaleiro.
- Que ótimo, se não bastasse meu elmo ter sido roubado por um gnomo agora o peitoral da armadura foi tostado junto com um troll.
Aderlius tirou um pedaço de pão e começou a devorá-lo, Robs jogou a mochila de Wellan que havia ficado do lado de fora para ele, retirou seu cantil e tomou toda a água de uma vez, o paladino pegou seu estoque e deu uma golada, se aproximou de Phillipus e despejou um pouco sobre o ferimento do amigo que fez um gesto terrível de dor:
- Calma lá amigão, vou orar pelo seu ferimento, mas é preciso purificá-lo um pouco, ou ao menos tentar! Disse o paladino dando um sorriso.
-Vai orar por ele, ore por mim também! Reclamou Wellan secando a boca após ter tomado a água.
- Consegue vir até aqui? Perguntou Robs.
O cavaleiro disse que sim, se arrastou até onde se encontrava os dois amigos, Robs colocou uma mão sobre o ombro de Wellan e outra bem próxima do ferimento de Phillipus, recitou palavras de benção sobre os amigos em nome do seu deus e clamou por cura, afastou as mãos, o cavaleiro olhou desconfiado, as dores ainda eram as mesma, tinha a impressão que haviam até piorado, correu os olhos para a ferida do ranger, que milagrosamente havia estancado o sangramento e não tinha mais o aspecto de uma ferida recente:
- Curou ele e não eu, é esse tipo de coisa que não entendo, o que eu tenho de pior que ele, eu até creio, mas ele não, curou um ateu, e eu continuo aqui com essas dores...
- Não posso fazer nada a respeito Wellan, fiz a mesma oração para os dois ao mesmo tempo, se você não foi curado, agradeça da mesma forma.
- Eu conheço um bom remédio para esse tipo de ferimento, Wellan! Gracejou o bárbaro.
- É mesmo? O que é?
- Mijo!!! Respondeu Aderlius caindo na gargalhada.
O cavaleiro voltou para seu canto emburrado e encontrou um punhado de bandagens.
- O que é isso? Parece que alguém ferido passou por aqui antes. Disse mostrando para os amigos as bandagens no chão.
- Provavelmente devem ser do elfo, já faz seis dias que nós deparamos com eles. Divagou Phillipus, que apresentava uma boa melhora após a oração de Robs.
-Será que ainda consegue rastreá-los?
- Creio que não, mas sabemos que entraram nessa caverna, vamos ter de continuar para ver onde vai dar.
- Mas agora é melhor comermos e dormimos, vamos descansar, precisamos nos apressar, demos nossa palavra ao Conde de que não retornaríamos sem as esferas.
- E por falar em conde, use o remédio que ele deu para usarmos caso precisássemos, ele disse que até para dor era bom.
O bárbaro puxou o armário e o arrastou para trás da porta, todos comeram um pouco e repousaram, dormiram sem que ninguém ficasse de guarda, só haviam encontrado uma entrada, que também servia de saída, não existia outro acesso aquela sala, por isso decidiram dormir para reporem suas energias, a caminhada seria dura.
Acordaram com o grito do cavaleiro, que tentava colocar o ombro no lugar dando uma pancada contra a parede da sala, Aderlius levantou-se rápido empunhando o machado, Phillipus e Robs se colocaram de pé em um pulo, olharam a cena dolorosa do cavaleiro, porém seu ombro entrou no lugar, caiu de joelhos no chão gemendo, nenhum dos três disse uma palavra, aproveitaram para se espreguiçar, arrumaram suas bagagens e se prepararam para continuar o caminho. O cavaleiro pegou sua espada, olhou para a armadura, balançou a cabeça, e após Aderlius tirar o armário da entrada caminhou sem o peitoral, portava armadura apenas nos braços e pernas, e mesmo essas partes estavam muito danificadas, Robs perguntou para Phillipus como estava o ferimento e ele se mostrou muito bem, Aderlius comeu mais do que todos juntos pela manhã e estava de bom humor, para um bárbaro quanto maior o grau de dificuldade de uma batalha mais contente ele fica, mesmo que isso implique em sua morte, afinal morrer em batalha é uma glória, ao menos assim ele pensava.
Caminharam com cuidado, passaram pela armadilha sem a ativarem, provavelmente durante todo o resto do dia e parte da noite caminharam por um corredor estreito, o túnel não mudou de espessura e o medo os acompanhou por todo aquele caminho, o silêncio era perturbador, nenhuma outra armadilha foi detectada no caminho, talvez não existisse, talvez tenham tido sorte; Robs caminhava à frente portando a tocha, seguido por Wellan e Phillipus, Aderlius cuidava da retaguarda também portando uma tocha e caminhando de costas, o paladino sentiu uma corrente de ar e diminuiu o passo, pode enxergar mais a frente uma luminosidade, cainhou mais um pouco e iluminou acima da cabeça, pode ver uma espécie de bola de fogo sustentada por um mecanismo, era dali que vinha a chama, a velocidade deveria ser enorme, afinal caminharam muito para chegar até ali, passaram com mais cuidado ainda, agora o piso começava a descer lentamente e o ar sufocante diminuir, uma luz parecia dançar na parede, observaram que o túnel fazia uma curva para a direita, esse pedaço era iluminado por tochas, colocadas uma ao lado da outra por um longo corredor, eram essas luzes que pareciam dançar, a corrente de ar aumentava conforme andavam, apagaram suas tochas, ao longe o corredor parecia se alargar, mais a frente avistaram um grande porta dupla e o que temiam, três homens armados, que por sua vez aos avistarem, desembainharam suas espadas e caminharam em direção a eles, dois vieram mais a frente e um ficou atrás:
- Problemas! Sussurrou o paladino.
Continuaram andando até saírem do corredor, estavam em uma grande abóboda, os guardas se aproximavam rápido, Aderlius tomou a dianteira ao lado de Robs, sacou o seu machado, os homens pararam:
- Quem são vocês e o que querem aqui?
- Somos viajantes errantes, estávamos fugindo de trolls, encontramos essa entrada e resolvemos caminhar por ela! Respondeu Robs.
- Pois então tratem de voltar pelo mesmo caminho por onde vieram, essa região tem dono!
- Não podemos!
- Não é problema nosso, aqui vocês não vão passar, se quiserem viver, voltem por onde vieram!
- Você está me dando uma ordem seu inseto? Levantou a voz o bárbaro.
- Sim, e se vocês forem inteligentes é melhor obedecerem.
Phillipus e Wellan se olharam e balançaram a cabeça, o homem havia cometido dois erros graves, primeiro deu uma ordem a um bárbaro, segundo, falou de sua inteligência, Aderlius não se importava com o sentido, sempre achava que estavam o chamando de burro e isso o irritava muito. O bárbaro resmungou algo e antes que Robs pudesse falar Aderlius saiu em disparada acertando um forte golpe no guarda que os mandou voltar arremessando-o para trás, o outro vendo o companheiro sendo golpeado tentou revidar, mas seu golpe foi bloqueado pela gigantesca espada do paladino, um duelo de espadas teve inicio, o terceiro guarda correu e começou a bater na porta, Phillipus tentava armar o arco, mas o braço ainda doía muito, Wellan correu em meio às dores, mas era tarde, a porta se abriu e mais três guardas apareceram, mais fortes, mais equipados, portando escudos, a porta se fechou atrás deles, o cavaleiro sacou a espada, recuou, o bárbaro espumava de raiva, Robs desferiu o golpe final no guarda que o enfrentava, levantou a cabeça e viu a cena:
- Por que tem de ser sempre assim?
Continua...

domingo, 9 de maio de 2010

Parte 4 - Uma noite agitada!

- Tem certeza que ainda consegue rastreá-los? Perguntou o cavaleiro ao ranger.
- É claro que tenho, vai ser meio difícil, mas com um pouco de paciência será possível!
- Vamos mandar os cavalos de volta, é o mais seguro, não dá para deixá-los aqui no meio dessas carcaças de orcs. Comentou o paladino.
Cinco dias haviam se passado desde que foram emboscados, restavam apenas algumas peças de roupas (se é que se podem chamar assim as vestimentas orcs) e alguns ossos com pedaços de carne a espera de algum outro animal para terminar o serviço; o mal cheiro já estava bem fraco, e a estrada dava sinais de que mais viajantes haviam passado por ali. O frio não estava tão intenso como nos últimos dias e o sol brilhava sobre suas cabeças, porém logo iria escurecer e, como sugerido por Robs dispensaram os cavalos para Minalmar novamente e se embrenharam na mata que a principio era rala, mas conforme caminhavam ficava mais densa. Depois de caminharem algum tempo pararam por um instante:
- Desse ponto em diante acredito que eles continuaram sozinhos, como é inverno, os animais não andam com muita freqüência por aí e qualquer alteração no solo pode ser detectado facilmente, é claro, se você tiver experiência! Comentou o ranger.
- O sol está se pondo, dizem que não é bom andarmos nessa floresta à noite! Falou Aderlius.
- Você e suas superstições, vai dizer que está com medo do “cachorro que cospe fogo”! Debochou Wellan.
- Você é um tolo, ele existe, eu já o enfrentei, e ele não gospe fogo, sua cabeça inteira é flamejante... aqui na floresta existem outros perigos, e com exceção do nosso amigo Phillipus, nenhum de nós três temos muitos conhecimento nesse ambiente.
- Vamos, temos de nós apressarmos, procurar por um lugar bom para nos abrigarmos, parece que tem algo mais por aí além dos rastros do mago e do elfo da escuridão e os nossos.
A noite caiu, em florestas ela chega antes e mesmo que haja lua cheia a visibilidade é difícil, Robs tirou uma lamparina de sua mochila e a ascendeu (não usavam mais tochas em florestas desde que incendiaram uma em uma luta contra globins), colocou-a a frente e pode ver uma clareira a apenas alguns passos, apontou para os amigos que caminharam até lá, poderia ser uma oportunidade para descansar:
- Será que é seguro pararmos? Perguntou o cavaleiro.
- Pelo menos para descansarmos os pés! Respondeu Robs.
-O elfo da escuridão estar ferido foi bom para nós, caso contrário eu jamais conseguiria rastreá-los, dá para ver que ele tentou encobrir o caminho.
Os quatro soltaram as mochilas de suas costas, por entre as copas das árvores era possível ver um céu limpo e estrelado, não estavam tão cansados, mas nunca é bom esperar para se cansar demais para parar, Robs segurava a lamparina observando ao redor, Phillipus e Aderlius dividiam um pão sovado, Wellan se recostava em uma árvore imerso em pensamentos, fazia um silêncio profundo, o cheiro da mata adentrava em sua narinas e a sensação de descanso era formidável, mas um estralo vindo da mata atrás da árvore que se encontrava o cavaleiro acabou com o curto período de paz de nossos aventureiros. Wellan se virou para ver que animal passava por ali (pelo menos foi isso que passou pela sua mente naquele breve momento de reflexão), e levou uma pancada no peito que o jogou para fora da clareira, Robs levantou a lamparina e teve uma visão aterradora, uma criatura de mais dois metros curvada e esquelética de pele ressecada da cor dos troncos das arvores estava a sua frente, seus cabelos eram desgrenhados e grossos, tinha olhos esbugalhados e raivosos, por entre seus dentes pontiagudos que esboçavam meio que um sorriso maligno escorria uma saliva viscosa, pela sua fisionomia poderia se confundir facilmente a criatura com um demônio da floresta, mas aquele era um troll da floresta, e estava sedento por sangue e carne humana, com a mão esquerda arremessou um pedaço de tronco contra o paladino que diante do susto não conseguiu se desviar e levou à pancada, deixando a lamparina cair, por sorte não estourou, mas continuou queimando em cima de algumas pedrinhas. O ranger pegou seu arco e correu para dentro da floresta, Aderlius empunhou seu machado:
- Phillipus, seu covarde!
A criatura arremessou-se conta o bárbaro que se desviou e passou o machado na altura da cintura do troll, mas a escuridão não permitia golpes precisos por parte de Aderlius, que atacava mais por intuição do que por certeza, Aderlius novamente atacou com o machado de cima para baixo emendando um chute que só serviu para aproximá-lo de seu adversário, o troll conseguia enxergar perfeitamente naquela escuridão e sua vantagem era total naquela situação, segurou o machado do bárbaro pelo cabo, o que irritou muito seu dono:
- Tire as mãos do meu machado seu bosta!
Mas o troll apesar de esguio tinha uma força absurda e estava quase arrancando o machado das mãos de Aderlius que vendo que ia perder o embate retirou da cintura uma “pequena” adaga que carregava para momentos como aquele e ao soltar o machado cravou-a na coxa direita do seu adversário, o troll soltou um grito de dor e também soltou o machado, mas atacou Aderlius com suas garras, que atravessaram as peles de lobo que o bárbaro usava chegando a sua própria pele, Aderlius recuou, mas não o suficiente para evitar o longo braço do troll, que lhe deu um forte golpe no lado esquerdo da cabeça. Agora o bárbaro estava sentado e meio desorientado, o troll se aproximou com suas mãos descarnadas e seus dentes pontiagudos, seus olhos brilhavam na escuridão, o mau hálito da criatura podia ser sentido por Aderlius, ouviu-se um ruído de algo passando por cima de sua cabeça seguido por um som de carne rasgando, a criatura gritou freneticamente, a lamparina se aproximou dos dois, Robs havia se recuperado e a levantou para averiguar a situação, uma flecha estava cravada no olho esquerdo do troll que se assustou ainda mais com a claridade e esticou os braços para o lado do paladino, apenas para ter uma de suas mãos decepada pela espada de Wellan que também se recuperara do ataque surpresa. A criatura gritou novamente e correu em disparada para dentro da floresta grunhindo e lamuriando.
O ranger saiu do meio da floresta e juntou-se novamente aos companheiros:
- Quem é covarde meu amigo? Salvei sua vida grandão! Disse Phillipus ao bárbaro que se levantou com a ajuda de Robs.
Wellan tentou correr atrás do troll, mas exitou em entrar na mata em meio à escuridão, retornando transtornado:
- Ótimo, não descansamos, cansamos mais ainda e não vamos poder parar mais, eu perguntei se era seguro, mas nunca ninguém me escuta – e voltando-se para o paladino disparou com ironia – descansou os pezinhos Robsinho?
- Já estou ficando cheio de suas provocações Wellan, sou muito paciente, mas ultimamente você tem passado dos limites!
- É mesmo? E vai fazer o que, me dar lição de moral? Por que nem xingar você consegue.
- Você se acha melhor que os outros, mas sem seus amigos não sobrevive muito tempo!
Aderlius interrompeu os dois:
- As mocinhas poderiam fazer o favor de CALAR A BOCA, ou eu vou arrancar suas línguas fora.
Phillipus apenas abanou a cabeça, e começou a pegar seus pertences que ficaram espalhados pelo chão, Wellan e Robs ficaram quietos, colocaram suas mochilas nas costas e esperaram o ranger indicar o caminho, Aderlius não estava muito contente, o troll havia levado sua adaga presa ao corpo, além de ele mesmo ter sido parcialmente derrotado. Phillipus chamou Robs que aproximou a lamparina do chão, o ranger analisou durante um tempo e com um sinal de positivo deu reinicio a caminhada, todos estavam muito atentos, e qualquer ruído ou impressão de ruído provindo da mata os colocava em posição de combate, suas armas agora estavam empunhadas e o passo era acelerado, a noite ainda não passava da sua metade e sabiam que não seria sábio parar novamente até que tivessem andado uma boa distância. E assim caminharam durante horas, se comunicando apenas por sinais, até encontrarem uma formação rochosa que interrompia as árvores, sua costa estava lisa e cheia de ervas misturada com musgo, acompanharam a parede até chegarem a uma pequena abertura, na sua frente havia uma clareira maior do que a que estavam quando foram surpreendidos pelo troll, o chão era um misto de lama e pequenos fragmentos de rocha.
- Odeio cavernas! Murmurou o cavaleiro.
- Me diz algo que você não odeia Wellan! Rebateu Phillipus.
- Você, não odeio você! Disse o cavaleiro se afastando.
- Me diz que eles não entraram aí! Suspirou o paladino.
- Infelizmente sim, e como aqui o terreno é lamacento dá pra ver nitidamente que duas pessoas entraram aqui há alguns dias. Respondeu Phillipus.
- Não me vai dizer que estão com medo! Bradou o bárbaro dando risada
- Lembra o que aconteceu da ultima vez que entramos em uma caverna? Perguntou Wellan.
- Aquilo foi um fato isolado, agora estamos preparados e eu estou muito mais forte. Gabou-se Aderlius.
- Bem, então lá vamos nós, só que dessa vez eu vou ficar por ultimo.
- Por mim tudo bem Robs, só que aí dentro vou ascender uma tocha, pode apagar a lamparina e guardar para florestas. Prontificou-se Phillipus.
O ranger caminhava na frente, seguido do cavaleiro e do bárbaro, Robs era o ultimo e suava frio, não tinha boas recordações de cavernas apertadas como aquela; a passagem não tinha mais de um metro e vinte de largura, no entanto era alta, e todos podiam andar eretos, a parede era úmida e o cheiro de bolor muito forte. Não era possível desferir um golpe certeiro caso alguma criatura típica de caverna aparecesse, e isso incomodava todos os quatro, com a tocha à frente caminhavam lentamente observando se não haviam passagens nas laterais e não demorou muito encontraram uma no lado esquerdo, Phillipus parou, deu uma explorada até onde a luz da tocha alcançava e não conseguiu ver nada, o bárbaro vendo a expressão de dúvida no rosto do companheiro deu sua opinião:
- Em frente, sempre em frente!
Continuaram vagarosamente, não haviam andado mais que trezentos metros apesar do tempo gasto, Robs parecia estar falando consigo mesmo, e isto estava irritando Aderlius, pois naquela escuridão e silêncio era uma tortura:
- Não dá para parar de resmungar aí atrás?
- Não estou resmungando, estou orando para o Poderoso nos proteger!
- Então faça isso de boca fechada!
O bárbaro mal terminou de falar ouviu-se um “click” mais a frente:
- Oh-oh!
- O que você quer dizer com oh-oh Phillipus? Perguntou Wellan.
- Pisei em algo.
- Pisou no que?
- E eu vou saber.
- Ilumina com a tocha gênio.
Quando o ranger foi abaixar a tocha para ver o chão onde pisava um vento forte soprou aponto de apaga – lá, o que preocupou Robs:
- Por que a tocha apagou?
Uma luz surgiu ao longe e parecia estar se aproximando rapidamente:
- Corram!
- Correr para onde?
- Para trás seu burro, volta rápido!
- Por que, o que...
- Cala a boca e corre...corre...corre!
Conforme a luz se aproximava o calor também aumentava, e o desespero tomava conta de cada um deles, Robs como estava por ultimo antes não havia enxergado de inicio a luz apesar de ter sentido o vento e visto a tocha apagar abruptamente, mas agora era o primeiro e corria meio se batendo na parede, Aderlius corria se esfolando, porém muito rápido, se o paladino não corresse o bárbaro o atropelava, Wellan e Phillipus se enroscaram um no outro e corriam se batendo, um forte barulho de metal tilintava contra a parede, ouviu-se um som de algo metálico caindo no chão, mas não havia tempo para se preocupar com isso, o que estava atrás deles era uma labareda enorme e o seu calor já podia ser sentido como uma sombra, Robs saiu da caverna e se escondeu do lado esquerdo, Aderlius fez o mesmo movimento e jogou para o lado direito, Wellan e Phillipus se jogaram para frente, o ranger tinha uma boa habilidade e conseguiu rolar e completar o movimento com um salto mortal, já o cavaleiro caiu de peito na lama, no entanto tanto Phillipus quanto Wellan tiveram seus cabelos chamuscados, pois após saírem da caverna a labareda ainda correu uns três metros para fora e se extinguiu tão rápido como surgiu.
O cavaleiro se levantou limpando o rosto que estava coberto de lama, Aderlius vendo a cena não agüentou e caiu na risada, Wellan resmungou:
- Há – há – há, muitooooo engraçado!
- Como você consegue rir depois de quase termos virado churrasco? Perguntou o paladino.
- Você disse bem, quase, estamos vivos meu amigo! Respondeu o bárbaro.
Phillipus se aproximou dos amigos devagar e olhando para a floresta:
- Pessoal, acho que temos mais problemas.
Era o troll, sem o orbital esquerdo, sem uma mão, mancando e com a “pequena” adaga do bárbaro na mão que lhe restava.
- Troll estúp...! Quando o paladino iria terminar a frase outro troll surgiu próximo ao cavaleiro, que ao colocar a mão na bainha para puxar a espada não a encontrou:
- Ótimo, minha espada caiu lá dentro, que bom!
O bárbaro não se intimidou:
- Trouxe o namoradinho é seu troll... ops! O bárbaro se calou e engoliu seco.
Outro troll surgiu próximo ao primeiro, só que esse era maior, devia ter mais de dois metros e meio de altura, sua aparência era muito mais aterradora, e sua força parecia ser maior também, arrancou uma pequena árvore com facilidade e a empunhou com os dois braços, levar uma “troncada” daquela poderia ser muito dolorosa, isso se sobrevivesse para sentir a dor. O paladino arrancou sua gigantesca espada, levantou as mãos aos céus e fez uma pequena prece em voz baixa, o ranger sacou suas espadas curtas e caminhou para perto de Aderlius que segurava firme o machado e não deixou de pronunciar uma de sua celebres frases antes de grandes batalhas:
- É, parece que cutucamos o troll com a espada curta!

Continua...