Levaram dois dias para que a tempestade cessa se completamente, dois intermináveis dias, em que todos os viajantes já não suportavam mais se ver nas tavernas, pousadas e dormitórios . Alguns partiram antes mesmo da tempestade dar trégua, é provável que nem todos chegaram ao seu destino. A tempestade parara de madrugada e assim que o sol novamente deu o ar de sua presença à vista dos olhos, os quatro amigos estavam de pé, tinham pressa e por isso correram arrumar seus apetrechos e armas, e claro, suprimentos.
A cidade estava uma loucura, Turque sempre foi meio agitada, mas naquela manhã estava demais, grupos de soldados, mercenários e toda espécie de clã espalhado pelas ruas e vielas, todos comprando alimento e roupas para a continuação da jornada. Muitos barcos mercantes e nobres começavam a adentrar o mar que havia acalmado da sua terrível agitação dos últimos dias, barcos pesqueiros também se destacavam em meio aquele emaranhado de velas que ao longe pareciam que iriam se chocar uns contra os outros. Em terra as mulheres e os filhos dos pescadores vendiam peixe seco conservado com sal grosso, ótimo para longas distâncias e que mantinham um sabor sem igual caso não se encontrasse pouso como ali durante a andança.
Al Rinaldi esperava os quatro junto a uma luxuosa carruagem puxada por quatro cavalos de raça nobre, uma carruagem que se destacava entre muitas que disputavam os espaços possíveis, junto dele estava um soldado vestido com muitos panos, inclusive sobre o rosto e com uma espécie de turbante como o que Al Rinaldi usava, portava uma espada um pouco diferente, meio curva e muito larga.
- Bom dia Sr. Robs! Bom dia senhores! Estão prontos para nossa caminhada? Dirigiu-se aos quatro que se aproximavam apressadamente do lugar onde estava.
- Bom dia Sr. Al Rinaldi! Respondeu o paladino ainda meio sonolento
Wellan ficou curioso com a estranha arma do soldado e puxou conversa com ele, enquanto o bárbaro e o ranger discutiam de qual raça seriam os cavalos.
- Os outros soldados não melhoraram? Perguntou Robs.
- Não, o braço do soldado infeccionou muito e o outro ainda está meio febril, os dois voltarão para nosso país assim que tiverem condições, mas acredito que vocês são homens experientes em escolta, até por que não há com o que se preocupar.
Al Rinaldi assobiou e mais quatro cavalos surgiram, grandes e fortes, eram as mais belas montarias que os quatro jamais haviam montado.
- São cavalos de meu país, o rei os mandou para que chegássemos o mais rápido possível ao destino desejado, infelizmente com a tempestade nem mesmo eles poderiam andar, mas agora verão que são os cavalos mais velozes que já montaram. Vocês sabem montar não é?
- Sim, hoje em dia todos nós sabemos montar. Respondeu Robs como que se lembrando de algo.
- Estarei deixando mais dois cavalos para os soldados que irão retornar para Nashaf. Comentou Al Rinaldi.
Cada um dos quatro arrumou sua montaria e suas mochilas e saíram pela cidade, algumas crianças que gostavam muito do bárbaro e do cavaleiro corriam atrás dos cavalos acenando e sorrindo, não que elas não gostassem do paladino e do ranger, mas é que o primeiro sempre as estava corrigindo e o segundo era muito sério e calado, e justamente os dois iam a frente da carruagem que era guiada pelo guerreiro da Al Rinaldi; Wellan e Aderlius iam atrás, e apesar de todo o aparato, todos iam muito rápido. A carruagem era digna de um fidalgo; os aventureiros não estranharam, pois eram acostumados a escoltar princesas e príncipes, condes e condessas, todos amigos seus ou filhos de amigos seus, era a primeira vez que escoltavam um desconhecido, mas isso não os incomodava.
Conforme a manhã adentrava o sol dava o ar de sua graça, muito ardido e pouco eficaz ao vento frio que soprava no rosto de todos, exceção claro de Al Rinaldi que estava dentro da luxuosa carruagem. O paladino mantinha o elmo fechado somente com os olhos de fora, o ranger a exemplo do soldado de Al Rinaldi amarrara panos no rosto e também somente os olhos estavam de fora, o bárbaro não ligava para o vento, pois vinha de uma terra gelada e suas peles de lobo no corpo eram suficientes, já o cavaleiro sofria, sem elmo e com o nariz escorrendo reclamava:
- Odeio frio, odeio vento, eu odeio isso, to congelando, meu nariz tá escorrendo e esse sol tá queimando minha pele igual brasa.
- Como você é fracote Wellan, um friozinho desses, fale menos e guie mais, ou ainda vai cair do cavalo. Disse Aderlius sorrindo acostumado as murmurações do cavaleiro.
Andaram durante toda a manhã e tarde, não pararam para comer nem tomar água, uma estrada os conduzia em meio à mata dos dois lados, que apesar do duro inverno ainda mantinham folhagens; quando o sol de despedia no horizonte o ranger levantou a mão e desacelerou sua montaria, as demais seguiram seu exemplo:
- Vamos parar, os cavalos estão cansados, e acredito, nós também, essa região tem boas clareiras e poderemos sair da estrada para nos acomodarmos no meio da floresta.
Acenderam uma fogueira e comeram um pouco de pão e peixe seco, beberam água, alimentaram os cavalos e se acomodaram todos próximos do calor, pois a temperatura havia caído drasticamente, Al Rinaldi entregou-lhes alguns cobertores que estavam em sua carruagem; o transporte do nobre havia sofrido pequenos danos ao entrar na clareira, porém era possível vê-los da estrada.
- Não é bom ficarmos expostos assim. Comentou o ranger.
- E você queria que guardássemos onde a carruagem, no bolso? Ironizou o cavaleiro.
- Sabíamos que não teríamos nenhuma pousada até o destino final, se continuarmos nesse ritmo, depois de amanhã à noite chegamos lá, adiantados meio dia. Disse Robs.
- Esses cavalos são realmente bons. Comentou Aderlius acomodado junto da sua montaria
- Ficarei de guarda no primeiro turno, depois é sua vez Aderlius! Disse Wellan se prontificando.
A noite foi calma e todos dormiram da melhor maneira possível naquela situação, as cobertas de Al Rinaldi se mostraram muito eficientes. Pela manhã Robs estava de guarda e todos levantaram e se arrumaram o mais rápido possível para continuarem o caminho. O dia estava nublado, porém o caminho continuou tranqüilo, a não ser por algo que incomodava o paladino:
- Phillipus, é melhor ficarmos alerta!
- Por que Robs, o que você tá sentindo?
- Sei lá, passamos por esse caminho diversas vezes e nunca senti um ar tão maligno!
- Mas não vimos ninguém, e somos peritos nessa região!
- Eu sei, pode ser apenas reflexo de nossa ultima aventura, de qualquer modo vamos ficar alerta!
O ranger sinalizou com a cabeça que sim e tocaram cada vez mais rápido os cavalos que pareciam não se cansarem.
A noite caiu novamente e a rotina se repetiu, mais uma vez tudo correu tranqüilo, se levantaram e continuaram o caminho:
- Esses cavalos nunca se cansam? Perguntou Aderlius a Kalil, o soldado de Al Rinaldi.
- São cavalos nobres, puro sangue treinados para esse tipo de situação.
- Quanto custa um desses?
- Mais do que todos nós iremos ganhar juntos.
Aderlius fez uma cara meio abobalhada e não perguntou mais nada, havia desenvolvido um laço de amizade com seu cavalo e já estava triste por ter de se despedir dele.
Não fazia muito tempo que eles haviam partido o ranger pediu para pararem.
- O que foi, por que parou? Questionou Al Rinaldi!
- Foi um dos contratados que parou.
- O que houve? Perguntou Al Rinaldi colocando a cabeça para fora da carruagem.
Wellan e Aderlius se olharam sem entender nada.
- Fique ai dentro senhor. Exclamou Phillipus.
- Você está sentindo alguma coisa Robs?
- A mesma sensação de ontem, não mudou, por quê?
- Orcs, posso farejá-los a quilômetros de distância, nojentos, sujos e pouco cuidadosos, estão por aí, dentro da floresta, e sabem que estamos aqui.
- Tem certeza? Essa região tem muitas criaturas pelas matas.
- O que aconteceu aí? Perguntou Aderlius.
Wellan já havia percebido o porquê da inquietação dos dois companheiros que estavam à frente da carruagem, escutara um barulho de galhos quebrando próximo da carruagem.
- Aderlius, estamos cercados, olhe dentro da mata.
- Por que não continuamos a estrada?
- Já ouviu falar em emboscada seu topeira?
- Do que você me chamou seu frangote?
Robs falou em um tom de autoridade para os dois companheiros que estavam atrás da carruagem:
- Estejam prontos!
Os companheiros giravam seus cavalos em trezentos e sessenta graus já com espada e machado em mãos, fosse quem estivesse para atacá-los havia exitado, seja por terem sido descobertos, seja por já conhecerem os aventureiros.
- Fique ai dentro Al Rinaldi, e Kalil, proteja seu patrão! Ordenou Phillipus.
Um grito de guerra rompeu da mata e um grande número das criaturas grotescas conhecidas como orcs se jogaram em batalha contra os quatro, Phillipus desceu do cavalo partindo a cabeça de um orc e cortando a garganta de outro, empunhava duas espadas curtas que faziam grande estrago apesar do seu tamanho, Robs desferiu um golpe poderoso em um orc que empunhava um machado lhe arrancando o braço fora, Aderlius investiu com a montaria e de uma vez derrubou quatro orcs, Wellan desceu do cavalo chutando a cabeça de um orc e esperando outros que saiam da mata. Mais de dez inimigos se encontravam no chão mortos ou agonizando e outros ainda surgiam do meio da densa mata.
- Morra caras de esterco! Gritou Wellan desferindo um golpe de baixo para cima em um orc e cravando a espada em outro.
Kalil estava se saindo muito bem, defendia a carruagem como se fosse sua família, um soldado dedicado, sua lâmina era muito afiada aponto de partir ao meio um orc, porém estava lutando com três ao mesmo tempo que pareciam ser mais espertos que os outros, um deles lhe infligiu um corte no braço direito, ele só trocou de mão e continuou a se defender, der repente os orcs viram uma grande sombra cair sobre eles, era Aderlius brandindo seu machado, saltou do cavalo e decapitou um dos ocs, os outros surpresos com o ataque abriram a guarda para Kalil desferir o golpe fatal.
- Robs, que tipo de orcs lutam assim, por que eles não fogem? Estão perdendo.
- Eu não sei Phillipus!
E quando finalmente o numero dos inimigos começara a diminuir, uma figura humanóide diferente dos orcs surgiu rapidamente dando uma voadora no peito de Phillipus que havia derrotado o ultimo orc que o cercava. Phillipus foi arremessado para trás e caiu no chão de forma violenta, o ser misterioso correu e deu-lhe um chute no rosto, tirou uma adaga da cintura e com o joelho na garganta do ranger iria desferir o golpe fatal, o que ele não contava era com a precisão do arremesso de Aderlius, que conseguiu lançar um orc moribundo contra o algoz de seu amigo, mas esse adversário se mostrou muito ágil, desviando-se de maneira acrobática, mas não tão rápido a ponto de desviar-se da investida do bárbaro que ocorreu em seguida, Aderlius arremessara o orc e já saira em disparada contra o misterioso inimigo, pegou-lhe pelo braço e jogou-lhe contra uma árvore, escutou-se um estralo de ossos quebrando e um gemido abafado, o ser ficara estatelado no chão e se arrastava para dentro da floresta.
Robs e Wellan haviam acabado de derrotar seus adversários definitivamente e corriam para interceptar o misterioso inimigo, quando se depararam com um homem de capuz roxo que estendeu a mão para Wellan e recitou as palavras:
- Cegueira.
Wellan que andava rápido tropeçou em uma raiz de árvore e caiu no chão tateando, pois a mais densa escuridão havia caído sobre seus olhos, então ele só pode gritar:
-Magia, cuidado!
Mas era tarde, apontando para Robs, o homem recitou:
- Ilusão!
O homem caminhou até Kalil e sussurrou:
- Medo!
Robs parecia estar lutando com algo terrível, mas para quem via a cena ele golpeava o ar e alguns galhos de árvore, enquanto Kalil sentia alguém puxando suas pernas para baixo e sua alma saindo corpo, caiu chorando feito uma criança e gritando por socorro. Enquanto isso Aderlius havia conseguido pegar o outro inimigo, levantou-lhe pelo braço e olhou em seus olhos, sua pele era negra como piche, e seus olhos amarelados e cheio de ódio:
- Um elfo negro? Sorriu o bárbaro.
Naquele dia o sol estava entre nuvens, porém o bárbaro bem sabia a fraqueza daquela criatura e o arrastou para o lugar mais claro da estrada, ele se debatia, procurando algo em sua cintura e resmungando num linguajar ininteligível.
O homem de capuz roxo chutou a porta da carruagem, Al Rinaldi estava lá, acuado:
-Me entregue à encomenda!
-Não posso, não sei o segredo do cofre!
-Isso não é problema! O homem de capuz jogou Al Rinaldi para fora da carruagem, e suas mão começaram a brilhar.
Ouviu-se um estrondo e o homem de capuz saiu caminhando com três esferas na mão que logo tratou de colocar em uma bolsa e amarra - lá na cintura, com o barulho Aderlius olhou para a carruagem que agora pegava fogo, Al Rinaldi tentava falar algo para Kalil, que gritava agonizantemente, Robs lançava frases de desafio às árvores e Wellan tateava o chão como um cego. Viu um homem de capuz se aproximar e largou o elfo para atacá-lo, então o elfo finalmente conseguiu tirar o que desejava da cintura e cravou-lhe no abdômen de Aderlius, que novamente se virou para ele e agora o pegou pelos cabelos e deu-lhe um chute no estomago, subitamente Aderlius se abaixou sentindo seu corpo queimar, parecia estar queimando por dentro, com sua visão embasada pode ver um homem de capuz roxo se aproximar, estender a mão ao elfo negro que se levantou e lhe deu um duro golpe no rosto, Aderlius caiu, agora estava paralisado, impassível, sua raiva só não era maior do que a dor, tentou se arrastar, mas tudo era inútil, seus dois adversários entraram na floresta e sumiram em meio a devaneios e finalmente não podendo mais lutar, Aderlius se entregou aos efeitos do veneno.
Continua...
sexta-feira, 23 de abril de 2010
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Nenhum comentário:
Postar um comentário