quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Parte 9 - As faces do medo

Tailan soltou o corpo do amigo no chão, empunhou sua lança e correu ao lado de Fujin, Igwar continuava a gargalhar e vagarosamente saia das sombras, os elfos tinham seus olhos fixos no assassino de seu companheiro.
- Não precisam derramar lágrimas seus tolos, logo se encontrarão com ele.
Fujin olhou para Tailan:
- Veja se o paladino precisa de ajuda, deixe esse elferr comigo!
O respeito que Tailan tinha pelo seu General era maior que seu orgulho, apenas concordou com um movimento de cabeça e caminhou em direção de Robs. O paladino por sua vez conseguiu firmar os pés, olhou em direção ao bárbaro e ainda não detectara nenhum movimento, mas não era hora de se preocupar com isso, sabia que um mal maior vinha da sala a frente, o mesmo local de onde fora atingido pela descarga elétrica, o elfo chegou até ele:
- Tudo bem paladino?
- Não, não está nada bem – disse apontando para a sala a frente onde um homem com capuz roxo levitava as três esferas que ele acreditava ser o que buscavam - precisamos parar seja lá o que for que esteja acontecendo ali.
Mal terminou de falar com o elfo se dirigiu rumo à sala, Tailan ainda estava parado observando a sua frente e percebeu algo se movimentando no teto, um vulto despencou sobre o paladino, e mais rápido ainda foi a lança do elfo, acertou a mancha escura que ao cair em frente à Robs se revelou o demônio ferido pelo machado de Aderlius, o paladino se recuperou do susto e correu para dar o golpe definitivo mas foi surpreendido por um golpe que só foi defendido pelo mais puro reflexo, não de técnica, mas de susto, a criatura ficou de pé, empunhava o machado com o braço que não estava ferido e a lança com a calda após arrancá-la do abdômen, Robs partiu para o ataque sem pensar, tentava exercer a vantagem sobre o inimigo, mas o demônio defendia os golpes com facilidade, sua espada brilhou e o inimigo cambaleou para trás, passou a espada na altura do peito da criatura que deu mais um passo para trás, Tailan que acompanhava o embate de perto aproveitou e correu para tomar sua lança quando o inimigo foi golpeado, tomou sua arma e a cravou nas costas do demônio que soltou um grito estridente. O paladino parecia muito preocupado com a situação à frente, deixou o demônio se debatendo com a lança do elfo transpassada, mas antes que pudesse chegar até a sala cinco criaturas se materializaram acima de sua cabeça, criaturas horrendas e aladas, com asas coriáceas e corpo descarnado.
- Essa não, tarde demais! Lamentou o paladino para si mesmo.
Do outro lado do salão, um pouco antes, Fujin e Igwar iniciaram uma dura batalha, o ódio entre os dois era tão forte quanto os golpes desferidos pelas suas espadas, faíscas saiam quando suas lâminas se encontravam no ar, Fujin usava suas duas espadas, enquanto Igwar uma grande espada curva, semelhante à de Kalil, porém um pouco maior, e apesar do elfo estar com duas espadas não tinha vantagem no combate, fosse pelo cansaço ou pelo ódio, se defendia como podia. O elferr estava acostumado a explorar o lado psicológico e caótico de seus adversários, sabia que um guerreiro sábio e honrado quando tomado pelos instintos primitivos tinha seus reflexos e técnicas prejudicados, por isso provocava seu adversário em meio a um sorriso vil:
- As elfas de sua terra eram saborosas, renderam um bom tesouro para meus camaradas, foi uma pena ter de matá-las daquele jeito, mas elas não obedeciam aos comandos mágicos, quer saber qual parte era cortada primeiro?
E a cada provocação Fujin perdia mais o controle, tomado pelo ódio e a beira da estafa mental tudo que fazia era bater, bater, bater e bater com mais força, em sua mente as vozes dos elfos que morreram ali ecoavam em sua cabeça:
- Você deveria ter nos protegido, nós confiamos em você!
Continuou batendo tão forte, que uma de suas espadas simplesmente espedaçou em uns cinco pedaços, Igwar sorriu novamente, tinha o elfo em suas mãos, agora era hora de começar a lutar de verdade, se antes mesmo batendo forte com duas espadas Fujin tinha dificuldades para se defender, agora com uma, se esquivava da melhor forma possível, primeiro foi um corte na perna, depois um corte na altura do peito:
- Todos esses elfos que morreram aqui grande “General” Fujin, morreram por que você fracassou, e agora você se juntará a eles meu caro, pois a verdade é que você sempre foi um fraco!
Fujin rosnou como um cão raivoso, levantou sua espada e correu em direção ao elferr, golpeou sem nenhuma técnica, seus olhos se encherem de lágrimas, mais de amargura do que de ódio, Igwar defendeu, contratacou com um chute na barriga e conseguiu desarmá-lo lançando sua espada para longe, no mesmo momento sentiu a fria lâmina de seu adversário encostar em seu pescoço:
- Então elfo nojento, vai morrer como todos seus amigos, vou cortar seu pescoço fora de uma vez, assim não precisarei escutar seus gritos como escutei de seu povo, aliás, todos morreram gritando como porcos! Gargalhou o Igwar.
Porém sua gargalhada foi interrompida por uma flecha que surgiu da entrada do salão e lhe atravessou a mão que segurava a espada, a lâmina bateu no chão, olhou assustado, um silêncio caiu sobre o lugar, ao longe ouviu-se a voz do paladino murmurando algo, e o silêncio foi quebrado pela visão de Phillipus surgindo com seu arco:
- Aí ô babaca, não é só você que fica no escuro esperando para atirar flecha! Agora General arrebenta com ele.
Fujin piscou, respirou, o amigo lhe salvando foi um sinal de que ele não tinha culpa de tudo aquilo, deu uma rasteira no elferr que tentou pular, mas a única coisa que consegui foi cair mais feio ainda, o elfo pegou a espada de Igwar que caíra próximo de seus pés:
- Tá doendo sua mão, espera aí!
Fujin passou a lâmina e a mão do elferr foi parar longe, continuou o movimento e arrancou-lhe o braço, nesse momento Igwar gritou, Phillipus observou, ficou espantado pela força do inimigo de Fujin, havia usado uma flecha com um metal “especial”, que causava mais dor do que o comum (ele sabia disso por já havia se cortado com a seta da flecha, e doía umas cinco vezes mais do que o normal), e somente agora ele gritara, Igwar se arrastava para trás praguejando, Fujin levantou a espada para dar o golpe definitivo, mas mal a lâmina começou a cortar o peito do elferr uma criatura horrenda voou de encontro ao elfo e os dois caíram lutando, outras duas vieram e socorreram Igwar o arrastando para um canto escuro, Phillipus arrancou de suas espadas e correu mas também foi interceptado por uma criatura, essa sem asas, olhou para o lado, Aderlius pareceu mexer a cabeça:
- É amigão, é uma boa hora pra você acordar!
Mas foi só impressão, o bárbaro continuava imóvel e um grande ser se aproximava de seu corpo, Phillipus começou a sentir um tremor, mas não era em seu corpo, era na alma, afinal pela primeira vez se deparava com criaturas provindas da escuridão, uma coisa é enfrentar homens, elfos, anões, orcs e outra bem diferente se deparar com aquelas criaturas, além de quererem devorar seus corpos, o ranger sabia em seu interior que o que aqueles demônios queriam era suas almas e tudo aquilo o fez parar, até que uma voz surgiu em meio ao caos:
- Criaturas das trevas se ajoelhem diante da luz! Bradava o paladino.
Robs e Tailan já haviam derrubado um numero significativo de monstros, e parecia que elas queriam o paladino a todo custo, Phillipus foi puxado pelo braço, olhou, era Fujin retribuindo a ajuda livrando-o de tomar uma mordida do monstro grandalhão, puxou-o até próximo do corpo do bárbaro que finalmente começara a se mexer de verdade, Tailan recuava se defendendo bravamente e se aproximava do ponto onde Fujin e Phillipus se encontravam. Criaturas surgiam sem parar, para cada uma que se derrubava surgiam três, Robs agora se via em situação difícil, a criatura grande que tentou morder Phillipus se aproximou do grupo e saltou ferozmente sobre o ranger novamente, mais uma vez foi frustrada, mas acabou caindo ao lado de Aderlius que mal abriu os olhos teve a visão mais horrenda da sua vida desde o dia em que aceitou namorar a filha de um estalajadeiro depois de um grande porre; os dentes afiados da criatura quase crivaram em seu rosto, conseguiu segurar a criatura pelo seu maxilar, e o fétido hálito do monstro invadiu suas narinas o atordoando mais ainda, seu corpo doía até para respirar, e algo que o bárbaro não costuma fazer teve de ser feito:
- Me ajudem! Sussurrou.
Mas a ajuda não veio, todos os seus amigos estavam muito ocupados lutando com umas dez criaturas cada um, o ranger já tentava sair daquele local, mas não tinha espaço, Fujin tinha chego ao limite de suas forças, apenas Tailan lutava como no inicio, tal era sua habilidade com a lança que a cada golpe quatro ou cinco criaturas tombavam, o paladino viu que era hora de arriscar tudo, tinha uma ultima alternativa, lembrou-se de seu professor Taskan lhe ensinando sobre o golpe da luz, e que se falhasse seria seu fim, bem, é a hora pensou, deu um grito e cravou a espada no chão:
- Pelo poder a mim concedido eu agora em nome do Poderoso decreto seu fim criaturas das trevas, curvem-se diante do PODER DA LUZ!
Mal terminou a frase, um grande clarão saiu da espada, e o grito de todos os seres malignos naquele ambiente foi ensurdecedor, a luz se extinguiu tão rápido quanto surgiu, as criaturas que não morreram com o “golpe” estavam no chão se contorcendo, e Tailan sem pensar iniciou a seqüência de golpes finais.
Logo que a luz se foi Robs correu para a sala onde se encontrava o mago responsável por todas aquelas conjurações, finalmente chegou, com um gancho fez o mago cair sentado junto com as esferas, ao cair seu capuz escorregou para trás revelando-lhe a face, era um velho de uns noventa anos ou mais, o paladino que havia sacado de sua adaga para finalizar o serviço, deixou-a cair:
- Um velho, você é apenas um velho...
O mago percebendo o vacilo na fisionomia do paladino, cuspiu sangue no chão e se encolheu como se estivesse com medo. Robs caiu no ardil do velho arcano e sem que percebesse as esferas começaram a flutuar novamente, enquanto o paladino não sabia se matava um velho ou não (a quantidade de maldade naquele lugar era tão grande que só por esse critério Robs poderia atacar até mesmo um de seus amigos) Phillipus e os outros estavam impacientes:
- Mata esse mago de uma vez!
- Não posso, é só um velho!
- Mas que mer...! O bárbaro não conseguiu completar a frase, criaturas voltaram a surgir.
Quando Robs percebeu que havia sido enganado (não sabia se pelo cansaço, ou por que não estava totalmente preparado como imaginava) era tarde, o mago se levantou e lhe soltou mais uma descarga elétrica que o arremessou para fora da sala, mas Tailan já se preparara para aquela situação e mesmo em meio a varias criaturas correu e lançou sua arma contra o peito do mago que ficou pregado na parede pela violência do golpe, as criaturas sumiram e as esferas mais uma vez rolaram, o paladino correu e as pegou, eram do tamanho de uma maça, observou e identificou as figuras do dragão em uma, de uma serpente em outra, e um sapo na terceira, sem dúvida eram as esferas de Eratam, colocou-as dentro de uma bolsa que tinha no cinto e sentou-se.
Tailan foi até a sala e arrancou a lança da parede, limpou-a no manto do velho mago e também sentou ao lado do paladino:
- Me desculpe, não consegui matar o mago, sei lá, o cara tinha uma fisionomia de coitado! Lamentou Robs.
- Tudo bem, às vezes acontece, é por isso que nunca lutamos sozinho, Fujin sempre diz para lutarmos no mínimo em dois, se um falhar o outro dá cobertura.
Phillipus, Aderlius e Fujin estavam encostados na parede, ofegantes, o elfo estava com os olhos fechados. Phillipus sabia que não era a hora, mas não podia deixar passar:
- Você pediu ajuda?
- Quem? Eu? Acho que você andou apanhando na cabeça!
- Confessa aí, até você tem que pedir arrego quando tá todo detonado!
- Morro, mas não peço ajuda, sou um barbaroaiaiaiaia!
O ranger sorriu e agradeceu por todo aquele pesadelo ter fim, estavam muito feridos é verdade, mas haviam saído vitoriosos, beberam um pouco de água, se levantaram, Fujin e Phillipus colocaram o bárbaro no meio e o ajudavam a andar, Robs mancava de uma perna e arrastava a outra, Tailan também tinha suas feridas, se dirigiram o mais rápido que podiam a saída, o paladino segurava firme a bolsa com as esferas e olhando para trás pensava consigo mesmo o quanto era necessário destruir aquilo, afinal, ele tinha certeza que ele e seus amigos não foram mandados ali por coincidência!
Conclui na próxima parte...