domingo, 9 de maio de 2010

Parte 4 - Uma noite agitada!

- Tem certeza que ainda consegue rastreá-los? Perguntou o cavaleiro ao ranger.
- É claro que tenho, vai ser meio difícil, mas com um pouco de paciência será possível!
- Vamos mandar os cavalos de volta, é o mais seguro, não dá para deixá-los aqui no meio dessas carcaças de orcs. Comentou o paladino.
Cinco dias haviam se passado desde que foram emboscados, restavam apenas algumas peças de roupas (se é que se podem chamar assim as vestimentas orcs) e alguns ossos com pedaços de carne a espera de algum outro animal para terminar o serviço; o mal cheiro já estava bem fraco, e a estrada dava sinais de que mais viajantes haviam passado por ali. O frio não estava tão intenso como nos últimos dias e o sol brilhava sobre suas cabeças, porém logo iria escurecer e, como sugerido por Robs dispensaram os cavalos para Minalmar novamente e se embrenharam na mata que a principio era rala, mas conforme caminhavam ficava mais densa. Depois de caminharem algum tempo pararam por um instante:
- Desse ponto em diante acredito que eles continuaram sozinhos, como é inverno, os animais não andam com muita freqüência por aí e qualquer alteração no solo pode ser detectado facilmente, é claro, se você tiver experiência! Comentou o ranger.
- O sol está se pondo, dizem que não é bom andarmos nessa floresta à noite! Falou Aderlius.
- Você e suas superstições, vai dizer que está com medo do “cachorro que cospe fogo”! Debochou Wellan.
- Você é um tolo, ele existe, eu já o enfrentei, e ele não gospe fogo, sua cabeça inteira é flamejante... aqui na floresta existem outros perigos, e com exceção do nosso amigo Phillipus, nenhum de nós três temos muitos conhecimento nesse ambiente.
- Vamos, temos de nós apressarmos, procurar por um lugar bom para nos abrigarmos, parece que tem algo mais por aí além dos rastros do mago e do elfo da escuridão e os nossos.
A noite caiu, em florestas ela chega antes e mesmo que haja lua cheia a visibilidade é difícil, Robs tirou uma lamparina de sua mochila e a ascendeu (não usavam mais tochas em florestas desde que incendiaram uma em uma luta contra globins), colocou-a a frente e pode ver uma clareira a apenas alguns passos, apontou para os amigos que caminharam até lá, poderia ser uma oportunidade para descansar:
- Será que é seguro pararmos? Perguntou o cavaleiro.
- Pelo menos para descansarmos os pés! Respondeu Robs.
-O elfo da escuridão estar ferido foi bom para nós, caso contrário eu jamais conseguiria rastreá-los, dá para ver que ele tentou encobrir o caminho.
Os quatro soltaram as mochilas de suas costas, por entre as copas das árvores era possível ver um céu limpo e estrelado, não estavam tão cansados, mas nunca é bom esperar para se cansar demais para parar, Robs segurava a lamparina observando ao redor, Phillipus e Aderlius dividiam um pão sovado, Wellan se recostava em uma árvore imerso em pensamentos, fazia um silêncio profundo, o cheiro da mata adentrava em sua narinas e a sensação de descanso era formidável, mas um estralo vindo da mata atrás da árvore que se encontrava o cavaleiro acabou com o curto período de paz de nossos aventureiros. Wellan se virou para ver que animal passava por ali (pelo menos foi isso que passou pela sua mente naquele breve momento de reflexão), e levou uma pancada no peito que o jogou para fora da clareira, Robs levantou a lamparina e teve uma visão aterradora, uma criatura de mais dois metros curvada e esquelética de pele ressecada da cor dos troncos das arvores estava a sua frente, seus cabelos eram desgrenhados e grossos, tinha olhos esbugalhados e raivosos, por entre seus dentes pontiagudos que esboçavam meio que um sorriso maligno escorria uma saliva viscosa, pela sua fisionomia poderia se confundir facilmente a criatura com um demônio da floresta, mas aquele era um troll da floresta, e estava sedento por sangue e carne humana, com a mão esquerda arremessou um pedaço de tronco contra o paladino que diante do susto não conseguiu se desviar e levou à pancada, deixando a lamparina cair, por sorte não estourou, mas continuou queimando em cima de algumas pedrinhas. O ranger pegou seu arco e correu para dentro da floresta, Aderlius empunhou seu machado:
- Phillipus, seu covarde!
A criatura arremessou-se conta o bárbaro que se desviou e passou o machado na altura da cintura do troll, mas a escuridão não permitia golpes precisos por parte de Aderlius, que atacava mais por intuição do que por certeza, Aderlius novamente atacou com o machado de cima para baixo emendando um chute que só serviu para aproximá-lo de seu adversário, o troll conseguia enxergar perfeitamente naquela escuridão e sua vantagem era total naquela situação, segurou o machado do bárbaro pelo cabo, o que irritou muito seu dono:
- Tire as mãos do meu machado seu bosta!
Mas o troll apesar de esguio tinha uma força absurda e estava quase arrancando o machado das mãos de Aderlius que vendo que ia perder o embate retirou da cintura uma “pequena” adaga que carregava para momentos como aquele e ao soltar o machado cravou-a na coxa direita do seu adversário, o troll soltou um grito de dor e também soltou o machado, mas atacou Aderlius com suas garras, que atravessaram as peles de lobo que o bárbaro usava chegando a sua própria pele, Aderlius recuou, mas não o suficiente para evitar o longo braço do troll, que lhe deu um forte golpe no lado esquerdo da cabeça. Agora o bárbaro estava sentado e meio desorientado, o troll se aproximou com suas mãos descarnadas e seus dentes pontiagudos, seus olhos brilhavam na escuridão, o mau hálito da criatura podia ser sentido por Aderlius, ouviu-se um ruído de algo passando por cima de sua cabeça seguido por um som de carne rasgando, a criatura gritou freneticamente, a lamparina se aproximou dos dois, Robs havia se recuperado e a levantou para averiguar a situação, uma flecha estava cravada no olho esquerdo do troll que se assustou ainda mais com a claridade e esticou os braços para o lado do paladino, apenas para ter uma de suas mãos decepada pela espada de Wellan que também se recuperara do ataque surpresa. A criatura gritou novamente e correu em disparada para dentro da floresta grunhindo e lamuriando.
O ranger saiu do meio da floresta e juntou-se novamente aos companheiros:
- Quem é covarde meu amigo? Salvei sua vida grandão! Disse Phillipus ao bárbaro que se levantou com a ajuda de Robs.
Wellan tentou correr atrás do troll, mas exitou em entrar na mata em meio à escuridão, retornando transtornado:
- Ótimo, não descansamos, cansamos mais ainda e não vamos poder parar mais, eu perguntei se era seguro, mas nunca ninguém me escuta – e voltando-se para o paladino disparou com ironia – descansou os pezinhos Robsinho?
- Já estou ficando cheio de suas provocações Wellan, sou muito paciente, mas ultimamente você tem passado dos limites!
- É mesmo? E vai fazer o que, me dar lição de moral? Por que nem xingar você consegue.
- Você se acha melhor que os outros, mas sem seus amigos não sobrevive muito tempo!
Aderlius interrompeu os dois:
- As mocinhas poderiam fazer o favor de CALAR A BOCA, ou eu vou arrancar suas línguas fora.
Phillipus apenas abanou a cabeça, e começou a pegar seus pertences que ficaram espalhados pelo chão, Wellan e Robs ficaram quietos, colocaram suas mochilas nas costas e esperaram o ranger indicar o caminho, Aderlius não estava muito contente, o troll havia levado sua adaga presa ao corpo, além de ele mesmo ter sido parcialmente derrotado. Phillipus chamou Robs que aproximou a lamparina do chão, o ranger analisou durante um tempo e com um sinal de positivo deu reinicio a caminhada, todos estavam muito atentos, e qualquer ruído ou impressão de ruído provindo da mata os colocava em posição de combate, suas armas agora estavam empunhadas e o passo era acelerado, a noite ainda não passava da sua metade e sabiam que não seria sábio parar novamente até que tivessem andado uma boa distância. E assim caminharam durante horas, se comunicando apenas por sinais, até encontrarem uma formação rochosa que interrompia as árvores, sua costa estava lisa e cheia de ervas misturada com musgo, acompanharam a parede até chegarem a uma pequena abertura, na sua frente havia uma clareira maior do que a que estavam quando foram surpreendidos pelo troll, o chão era um misto de lama e pequenos fragmentos de rocha.
- Odeio cavernas! Murmurou o cavaleiro.
- Me diz algo que você não odeia Wellan! Rebateu Phillipus.
- Você, não odeio você! Disse o cavaleiro se afastando.
- Me diz que eles não entraram aí! Suspirou o paladino.
- Infelizmente sim, e como aqui o terreno é lamacento dá pra ver nitidamente que duas pessoas entraram aqui há alguns dias. Respondeu Phillipus.
- Não me vai dizer que estão com medo! Bradou o bárbaro dando risada
- Lembra o que aconteceu da ultima vez que entramos em uma caverna? Perguntou Wellan.
- Aquilo foi um fato isolado, agora estamos preparados e eu estou muito mais forte. Gabou-se Aderlius.
- Bem, então lá vamos nós, só que dessa vez eu vou ficar por ultimo.
- Por mim tudo bem Robs, só que aí dentro vou ascender uma tocha, pode apagar a lamparina e guardar para florestas. Prontificou-se Phillipus.
O ranger caminhava na frente, seguido do cavaleiro e do bárbaro, Robs era o ultimo e suava frio, não tinha boas recordações de cavernas apertadas como aquela; a passagem não tinha mais de um metro e vinte de largura, no entanto era alta, e todos podiam andar eretos, a parede era úmida e o cheiro de bolor muito forte. Não era possível desferir um golpe certeiro caso alguma criatura típica de caverna aparecesse, e isso incomodava todos os quatro, com a tocha à frente caminhavam lentamente observando se não haviam passagens nas laterais e não demorou muito encontraram uma no lado esquerdo, Phillipus parou, deu uma explorada até onde a luz da tocha alcançava e não conseguiu ver nada, o bárbaro vendo a expressão de dúvida no rosto do companheiro deu sua opinião:
- Em frente, sempre em frente!
Continuaram vagarosamente, não haviam andado mais que trezentos metros apesar do tempo gasto, Robs parecia estar falando consigo mesmo, e isto estava irritando Aderlius, pois naquela escuridão e silêncio era uma tortura:
- Não dá para parar de resmungar aí atrás?
- Não estou resmungando, estou orando para o Poderoso nos proteger!
- Então faça isso de boca fechada!
O bárbaro mal terminou de falar ouviu-se um “click” mais a frente:
- Oh-oh!
- O que você quer dizer com oh-oh Phillipus? Perguntou Wellan.
- Pisei em algo.
- Pisou no que?
- E eu vou saber.
- Ilumina com a tocha gênio.
Quando o ranger foi abaixar a tocha para ver o chão onde pisava um vento forte soprou aponto de apaga – lá, o que preocupou Robs:
- Por que a tocha apagou?
Uma luz surgiu ao longe e parecia estar se aproximando rapidamente:
- Corram!
- Correr para onde?
- Para trás seu burro, volta rápido!
- Por que, o que...
- Cala a boca e corre...corre...corre!
Conforme a luz se aproximava o calor também aumentava, e o desespero tomava conta de cada um deles, Robs como estava por ultimo antes não havia enxergado de inicio a luz apesar de ter sentido o vento e visto a tocha apagar abruptamente, mas agora era o primeiro e corria meio se batendo na parede, Aderlius corria se esfolando, porém muito rápido, se o paladino não corresse o bárbaro o atropelava, Wellan e Phillipus se enroscaram um no outro e corriam se batendo, um forte barulho de metal tilintava contra a parede, ouviu-se um som de algo metálico caindo no chão, mas não havia tempo para se preocupar com isso, o que estava atrás deles era uma labareda enorme e o seu calor já podia ser sentido como uma sombra, Robs saiu da caverna e se escondeu do lado esquerdo, Aderlius fez o mesmo movimento e jogou para o lado direito, Wellan e Phillipus se jogaram para frente, o ranger tinha uma boa habilidade e conseguiu rolar e completar o movimento com um salto mortal, já o cavaleiro caiu de peito na lama, no entanto tanto Phillipus quanto Wellan tiveram seus cabelos chamuscados, pois após saírem da caverna a labareda ainda correu uns três metros para fora e se extinguiu tão rápido como surgiu.
O cavaleiro se levantou limpando o rosto que estava coberto de lama, Aderlius vendo a cena não agüentou e caiu na risada, Wellan resmungou:
- Há – há – há, muitooooo engraçado!
- Como você consegue rir depois de quase termos virado churrasco? Perguntou o paladino.
- Você disse bem, quase, estamos vivos meu amigo! Respondeu o bárbaro.
Phillipus se aproximou dos amigos devagar e olhando para a floresta:
- Pessoal, acho que temos mais problemas.
Era o troll, sem o orbital esquerdo, sem uma mão, mancando e com a “pequena” adaga do bárbaro na mão que lhe restava.
- Troll estúp...! Quando o paladino iria terminar a frase outro troll surgiu próximo ao cavaleiro, que ao colocar a mão na bainha para puxar a espada não a encontrou:
- Ótimo, minha espada caiu lá dentro, que bom!
O bárbaro não se intimidou:
- Trouxe o namoradinho é seu troll... ops! O bárbaro se calou e engoliu seco.
Outro troll surgiu próximo ao primeiro, só que esse era maior, devia ter mais de dois metros e meio de altura, sua aparência era muito mais aterradora, e sua força parecia ser maior também, arrancou uma pequena árvore com facilidade e a empunhou com os dois braços, levar uma “troncada” daquela poderia ser muito dolorosa, isso se sobrevivesse para sentir a dor. O paladino arrancou sua gigantesca espada, levantou as mãos aos céus e fez uma pequena prece em voz baixa, o ranger sacou suas espadas curtas e caminhou para perto de Aderlius que segurava firme o machado e não deixou de pronunciar uma de sua celebres frases antes de grandes batalhas:
- É, parece que cutucamos o troll com a espada curta!

Continua...