sábado, 15 de janeiro de 2011

Parte 10- O caminho de volta

A batalha havia terminado, o ar estava pesado, suas respirações profundas e cansadas faziam com que seus pulmões ardessem, Phillipus deixou Aderlius apoiado apenas em Fujin e se aproximou de um monte de cinzas, bateu com a mão e retirou dali sua flecha “especial” que havia perfurado a mão de Igwar, esboçou um sorriso, olhou em cento e oitenta graus buscando algo:
- Será que o elferr morreu? Perguntou em voz alta.
- Acredito que não, mas sem um braço não vai conseguir ir muito longe. Ao menos assim espero. Respondeu Fujin abaixando o tom de voz e falando para si mesmo no final.
Tailan se ajoelhou e levantou o corpo de Felon em seus braços:
- Vamos irmão, seu corpo não ficará aqui em meio a esse lixo demoníaco.
Todos caminhavam para a saída, Robs era o primeiro, em sua cabeça pensamentos de tristeza o atormentavam, não conseguia entender por que tantos se juntavam as hordas sombrias que insistiam em surgir do abismo trazendo caos e terror as civilizações da superfície. Cada dia, mais e mais paladinos se rendiam a selvageria e perdiam sua condição de cavaleiros santos, o próprio Wellan, um de seus três amigos de jornada não conseguiu o status devido a não respeitar as ordens impostas para se manter uma vida de santidade, quanto mais experiente o paladino ficava, quanto mais poder ele adquiria, mais perto da perfeição se aproximava, em contrapartida, maiores eram as trevas com que tinha de lutar e por isso se perguntava se estava preparado para o que estava por vir, pois em seu coração sabia que tempos difíceis viriam para ele e seus amigos, haviam mexido com alguém poderoso e esse alguém não iria deixar barato a derrota.
Caminharam para fora e uma sensação de alívio invadiu suas mentes, ainda não era o ar livre, mas só o fato de não terem mais de lutar já lhes tirava um grande peso, Fujin e Phillipus surgiram com Aderlius carregado, atrás vinha Tailan com o corpo de Felon nos braços e por ultimo Robs, meio mancando, meio arrastando a perna com um semblante preocupado; Wellan, Navia e Lânia junto com os outros elfos esperavam impacientes, cogitaram em ir atrás de seus amigos, mas decidiram ficar, caso o pior acontecesse estariam todos juntos para tentar vingar a morte de seus companheiros, para alivio de todos o mal havia sido derrotado, com uma dura baixa é verdade, mas todos sabiam que quando se entra em uma batalha não há garantia nenhuma de que se saia com vida.
- Achei que passaríamos de os quatro aventureiros a ao aventureiro solitário! Disse Wellan ao avistar os amigos com um leve sorriso nos lábios.
- Ainda não foi dessa vez – comentou o paladino continuando com a voz baixa – mas foi quase! Precisamos levar as esferas o mais rápido possível!
- Então você as encontrou?
- Não, ele disse que precisamos levar as esferas, mas nós não a encontramos! É lógico que está com ele. Cutucou o ranger, cansado demais para perguntas bobas.
- Obrigado Phillipus por sua observação! Ironizou o cavaleiro.
- Pessoal, estamos todos cansados, vamos reorganizar nossos pensamentos e partir o mais rápido possível, é bem provável que um exército esteja vindo para cá!
- Falou tudo Robs, eu estou com minhas costelas arrebentadas e não agüento lutar nem com um gnomo!
- Dá ultimas vez você já não agüentou! Disse o bárbaro gargalhando!
O cavaleiro ficou quieto e observou os elfos, estavam quietos, tristes, cansados, não apenas da batalha ou das batalhas, mas com os rumos que o mundo que um dia puderam chamar de lar hoje estava tomando, assim como ele, Robs tentava entender, por que com o desenvolvimento cultural, mágico e intelectual ao invés das coisas melhorarem pareciam se corromper cada vez mais, Fujin se aproximou:
- Iremos queimar os corpos de nossos irmãos, não é nosso costume fazer isso, mas antes seus corpos serem consumidos pelas chamas do que serem profanados por criaturas vis.
Os elfos lamentaram a morte de Felon e de todos os elfos que tombaram ali, realizaram uma cerimônia rápida e cremaram os corpos, fizeram bandagens nos feridos e partiram daquele mórbido lugar, vinte e três elfos, duas elfas, e quatro humanos, cansados, com medo, envoltos em duvidas caminhavam pelo que parecia ser a única saída, mas Tailan disse que não era prudente irem por ali, principalmente por que trolls haviam sido mortos pelos quatro amigos, lembrou-se de uma possível passagem nos porões, apesar de todos terem vindo vendados o senso de direção de alguns elfos é excepcional, caminharam mais uma vez entre as grades e encontraram uma saída por uma porta que acreditavam que dava em outras celas, mas conforme andavam puderam ver que aquilo era uma espécie de cemitério, cheio de carcaças e ossadas de todo tipo de criaturas, inclusive humanos e elfos, o odor pútrido era terrível e tudo aquilo servia para abater ainda mais suas almas, Fujin disse para não olharem para aqueles restos mortais e o paladino passava lançando palavras de benção sobre o lugar. Depois de andarem um pouco mais de um quarto de dia finalmente avistaram a luz do sol, não sabiam se era manhã ou tarde, mas sabiam que era a luz do sol que despontava a alguns metros a frente, acharam estranho não encontrarem ninguém por aquele caminho, o que dava indícios que a qualquer momento poderiam se deparar com reforços. Mas nada aconteceu, finalmente chegaram ao ar livre e puderam respirar aliviados, os elfos não conseguiam ficar com os olhos abertos, já fazia semanas, talvez até meses que ficaram presos, mas não importava, estavam livres, aproveitaram que o inverno naquela região parecia estar brando e se afastando da lúgubre entrada da caverna com suas rochas sem vida e musgos descorados correram por entre as árvores, alguns pássaros cantavam por ali e sentiram a vida voltar a seus corpos, sentiam também que seus amigos que morreram na batalham também estavam livres e felizes por aquele momento, todos se afastaram rapidamente daquele território, Tailan ficou por ultimo, olhou para trás antes de continuar:
- Obrigado amigos, por seu sacrifício nós podemos ver o sol outra vez, descansem em paz.
Não demorou muito para o sol começar a querer descansar no horizonte, o que mostrou que saíram quase no meio da tarde, caminharam noite adentro, não podiam parar até estarem longe daquele local, todos caminhavam rápido e silenciosamente apesar do cansaço, até que Wellan quebrou o silêncio:
- Ô gente, eu não sei vocês, mas eu to morrendo de sono, faz uns dois dias que não durmo e uma semana que não durmo direito!
- Sem chance cavaleiro, precisamos andar um pouco mais, não podemos nem pensar em entram em combate no estado que estamos, melhor andar do que lutar.
- Mas eu tô morrendo de sono!
- Então você vai morrer, por quer nós não vamos parar!
- Por favor, eu tô com muito sono!
- Se quiser dormir, fique a vontade, não garanto que vai nos alcançar, mas a não ser que mais alguém queira fazer companhia para você, ninguém vai parar para dormir.
O cavaleiro resmungou alguma coisa e continuou, os outros três amigos deram risada, também estavam cansados e com sono, mas sabiam que era muito arriscado parar ali, desta vez não iriam ceder ao sono do cavaleiro que já os havia feito parar em situações nada confortáveis. E caminharam até o meio da madrugada que os acolheu com todo o frio que uma noite de inverno pode proporcionar para finalmente fazerem uma pausa, ficaram todos juntos e se acomodaram da melhor maneira possível, não havia tempo para fogueiras, repartiram algumas provisões que haviam encontrado nos armários dos guardas da caverna e deram apenas alguns goles na escassa água que tinham, dormiram todos de uma vez, ninguém ficou de guarda, por que ninguém agüentava mais, dormiram até o meio da manhã para finalmente continuarem, fizeram um rápido desjejum e prosseguiram, nos dois dias seguintes caminharam naquele mesmo ritmo e da mesma maneira. Somente à noite do terceiro dia avistaram luzes ao longe, um batedor foi enviado e retornou com um brilho nos olhos, era um povoado élfico, Fujin sorriu, seu senso de direção e suas suposições continuavam bons, nos últimos três dias suas forças haviam diminuído, a cada caminhada ficavam mais lentos, mais famintos, mais desidratados, mas quando o batedor retornara com a notícia apertaram os passos e rapidamente chegaram até o povoado. Eram elfos conhecidos deles, todos se alegraram de vê-los, pois sabiam da captura dos elfos irmãos, ficaram tristes por saber das atrocidades cometidas e das mortes de tantos elfos valorosos, mas por final celebraram a memória dos que partiram para o outro mundo e cuidaram dos que ainda estavam aqui, a maioria estava muito doente e as feridas já em estado avançado, mas aquele povoado proporcionava repouso. Anciões élficos, sábios, peritos na arte medicinal conseguiram recuperar todos, dos humanos, Wellan e Aderlius eram os que se encontravam em pior estado, os dois chegaram praticamente carregados e se a viagem demorasse mais um dia é provável que seus corpos não agüentariam.
Robs, como todo bom paladino tinha uma boa diplomacia, procurou um conselho de elfos junto com Fujin e expôs à situação e o que portava, eles ficaram preocupados e no outro dia enviaram dois mensageiros para Minalmar, a cavalo eles levariam de sete a nove dias para chegar lá, isso se não houvesse imprevistos, mas os elfos acalmaram o paladino dando-lhe garantias de que aquele local era totalmente seguro, a magia antiga ainda estava ali e a proteção que guardava os povos anciões permanecia entre aquele povo, assim os quatro aventureiros descansaram e aprenderam um pouco mais sobre aquela cultura, e uma grande amizade nasceu naqueles preciosos dias. Phillipus finalmente havia recuperado a precisão do braço, e aproveitava para lembrar seu tempo de infância quando viveu entre os elfos, Aderlius ficava sempre de ouvidos alerta no grande salão onde histórias de bravos heróis eram contadas, Wellan fizera uma grande amizade com as elfas que salvara, Návia iria se casar com Tailan e Lânia era sua irmã.
O cavaleiro aos poucos recuperava seu orgulho, certo dia Robs resolveu finalmente perguntar por que ele estava tão abatido, afinal aquilo havia sido apenas mais uma missão, mais uma aventura, para torná-los mais experientes, mais fortes, além de tudo, ainda haviam recuperado as Esferas de Eratan e as levariam ao seu destino final, foi ai que o cavaleiro se virou para o paladino e lhe falou com uma voz melancólica:
- Esse é o problema amigo, acredito que nos metemos em algo perigoso!
- Como assim?
- Uma coisa é querermos derrubar o mal que assola essa terra, outra é entrarmos no seu caminho.
- Ainda não entendi, seja mais claro.
- Com certeza você viu o tamanho de poder com que lidamos lá, só que enquanto vocês enfrentavam o elfo da escuridão e seus cupinchas eu e as duas elfas acompanhados de mais três elfos fomos procurar outros prisioneiros, e talvez fosse melhor não termos ido, encontramos atrocidades indescritíveis e preferimos nem comentar com vocês, aquele corredor pelo qual saímos que parecia um tipo de cemitério nem chega aos pés do que vimos lá, alguém poderoso estava “patrocinando” tudo, e esse alguém deve estar furioso e me pergunto se não é nosso inimigo.
- Sabe cavaleiro, eu tenho certeza que mexemos com alguém poderoso, e pode ser que seja Mark, mas estou tranqüilo, afinal tudo aconteceu por intervenção divina, veja bem, desde de o princípio dessa jornada tivemos “sorte”, só que não é sorte, até seu plano deu certo dessa vez!
- Ei, meus planos sempre dão certo – parou por um segundo como se lembrando de algo - quer dizer, quase sempre.
- Veja bem, quando que reverteríamos uma situação como essa? Salvamos elfos presos há dias, passamos por soldados treinados, não eram meros mercenários, enfrentamos magos, elfos da escuridão, derrotamos o líder do elferrs e ainda derrotamos um mago muito velho que provavelmente planejava algo grande.
- Mago velho? Não me lembro de ter visto nenhum, mas também com todos aqueles capuzes, vai saber. Até por que eu quase morri lá, e quer saber, só conseguia pensar em uma pessoa quando estava naquela situação!
O paladino com um sorriso nos lábios sussurrou:
- Linara, não é?
- Como você sabe?
- Você não consegue esconder isso.
- Nem sei se ainda quero continuar nessa vida de aventureiro, morrer por nada, só gostaria que pudesse haver uma chance de viver de outro modo.
- Como assim morrer por nada? O futuro de nosso mundo pode estar em nossas mãos!
- Não viaja Robs, às vezes você exagera, não somos os únicos e muito menos os mais poderosos aventureiros desse mundo!
- Se você não está contente com essa vida e quer viver com a princesa, fale para ela, ela também parece gostar de você e o rei o tem em auto-estima.
- Esse é o problema, parece gostar. Além de que ela é uma princesa! Você sabe que armaram para mim há alguns anos atrás no reino que eu nasci, eu seria consagrado cavaleiro real, eu e a princesa Danielis tínhamos a benção do rei, mas me ferraram, ela acreditou na armação, não me consagrei cavaleiro e ainda fui banido de lá. Acho que devo me colocar no meu lugar, nem cavaleiro sou de verdade.
- Esqueça o passado, suas atitudes fazem de você um cavaleiro, não um título que os homens lhe dão.
O cavaleiro olhou para o paladino levantando uma sobrancelha:
- Título que homens lhe dão? Se tirarem suas insígnias e seu título de cavaleiro santo, você ainda terá a mesma fé? Você ainda agirá da mesma maneira? Eu não passo de um mercenário, mesmo assim sou muito mais honesto que a maioria dos cavaleiros, mas o que as pessoas vêem é sua posição, o que você é, e isso você não pode questionar “paladino”! Wellan suspirou e se afastou de Robs, que sabia, não adiantava questionar o amigo nessas horas.
O paladino não conseguia entender o amigo, talvez o medo do fracasso fosse maior do que a possibilidade do sucesso, mas todos os quatro carregavam passados com quais tinham de lutar e algum dia se livrar, não eram cruéis nem assassinos, o que justamente os tornava diferentes era seu proceder, bem acima da média, e isso agradava muito o Rei Lionel, o cavaleiro havia sido o primeiro a realizar uma missão pessoal para ele, e por isso era o porta voz dos amigos junto ao rei, mas quando o passado lhe assombrava ficava sombrio e insuportável, por isso o paladino deixou que o amigo caminhasse por aquele belo povoado, ninguém conseguiria ficar daquele jeito muito tempo ali.

INTERLÚDIO

Voltemos amigo leitor alguns dias atrás, quase no mesmo dia em que nossos aventureiros chegaram à bela vila élfica, no entanto colocaremos nossos olhos em um lugar totalmente oposto a paz e refrigério do refugio dos elfos; uma torre alta e bela a vista de quem caminha pela estrada, sua paredes azuladas parecem refletir o azul do céu, alta como poucos edifícios encontrados nesse mundo, com janelas espalhadas pela sua estrutura, cercada por guardas bem vestidos (e bem armados) e uma única porta térrea, para qualquer um que a vê de fora, um desejo lhe passa de conhece - lá, até por que seu proprietário é muito conhecido nos meios aristocráticos e de alta magia, seja lá o motivo, não se sabe se por magia, ou por seu grande carisma, todos crêem que ele seja além de um grande mago, um grande fidalgo, e apesar de um passado misterioso, todos querem estar próximo de Mark, que naquele momento, no alto de sua torre, encontrava-se sentado com o semblante de descontentamento que fazia seu servos tremerem de medo. Por dentro, a torre só mantinha o ar de beleza até o terceiro andar, onde se encontravam as salas de recepção e um grande salão de festas que era até onde os visitantes podiam ir, a partir do quarto andar, toda a fachada se desfazia, criaturas grotescas caminhavam se esgueirando pelas sombras, sussurros eram ouvidos, e viajantes interplanares surgiam quando invocados pelo dono do castelo.
Sentado em seu trono de ouro com símbolos antigos, o homem de cabelos negros e curto com uma face bela e jovial tinha os olhos fixos no ser a sua frente, era Igwar, quase sem vida, conseguira tapar o ferimento, carregado por duas criaturas invocadas pelas esferas conseguira chegar até seu mestre, mas tinha dúvidas se aquela havia sido a melhor idéia:
- Seu verme, sua missão era simples, apenas guardar as esferas para mim, e o que aconteceu? Você não foi capaz dessa simples tarefa!
- Mestre, eu...
- Cale-se criatura estúpida, não quero ouvir suas desculpas! Sinar, um de meus magos derrotou aqueles palermas junto com um de seus homens e você com todo o seu exercito não conseguiu impedi-los?
Um homem, cuja apenas a silhueta atrás do trono podia ser vista por Igwar surgiu, era o mago que havia derrotado os aventureiros na floresta e que quase matara Wellan enforcado na taverna.
- Meu caro elferr, eu falei para fugirmos naquele momento em que os elfos desceram sobre nós, mas você se acha grande coisa, ou será que não é tudo que pensa? Zombou o homem ao lado de Mark.
Mark se levantou com os olhos faiscando de ódio, se aproximou do elferr, segurou-lhe pelo queixo:
- Ah, Igwar, você tem sorte de ainda ter alguma utilidade para meus planos futuros, caso contrário eu lhe arrancaria o outro braço e lhe lançaria para os cães, mas não farei isso, mandarei meus soldados “concertarem” você, mas se falhar novamente colocarei um tormento tão grande sobre você que irá preferir ter morrido pelas mãos daquele elfo!
- Ó meu senhor, obrigado, tens minha gratidão e lealdade por toda a eternidade! Exclamou o elferr com um pavor indescritível na face.
- É cedo para me agradecer, não erre de novo! Agora sai da minha frente antes que eu mude de idéia!
O elferr saiu arrastado pelas duas criaturas que o trouxeram, em todo o tempo que estiveram na sala não levantaram a cabeça em nenhum momento, tamanho medo tinham do mago.
Mark virou – se para o mago que zombara de Igwar:
- Sinar, você também falhou, por que não matou aqueles malditos aventureiros quando teve a chance?
- Senhor,eles estavam praticamente mortos...
Com um gesto de mãos e palavras ditas em voz baixa Mark fez com que o outro mago caísse, o homem começou a ficar sufocado, se arrastou até os pés de Mark e quase sem ar sussurava:
- Misericórdia!
Mark se abaixou e perguntou:
- Você está morto?
- Não! O homem se esforçava para responder.
- Então você sabe identificar quando alguém está morto?
- Sim, sim, por f-a-v-o-r! O homem começara a urinar nas calças tamanho desespero.
- Então seu imbecil, como não os matou, a ordem era para matá-los, eu já estou cheio daqueles quatro, não entendo como simples homens de armas conseguem atrapalhar meus planos. Mark disse algumas palavras e o homem voltou a respirar.
- Agora levante-se seu covarde e abra a porta!
O homem meio com dificuldades ainda recuperando a respiração deixando seu rastro de sua vergonha abriu a porta.
Um grande e musculoso homem adentrou o salão, usava uma espécie de roupão, com cabelos brancos e longos, portava um arco grande e uma espada ambos em suas costas, passou pelo corredor sem dar atenção aos troféus espalhados até o trono de Mark, eram elmos, armaduras, espadas e artefatos de heróis, inimigos e criaturas derrotados pelo mago ou seus servos, o homem chegou e se ajoelhou diante de Mark que agora já se encontrava em seu trono.
- Seja bem vindo Zufirus!
- Quais são suas ordens?
- Matar quatro malditos guerreiros que insistem em ficar no meu caminho, um paladino, um bárbaro, um ranger e um cavaleiro.
- Como saberei quem são?
- Sinar irá lhe acompanhar, ele já os enfrentou!
Zufirus que até aquele momento não havia levantado a cabeça, olhou para Mark, revelando sua cegueira, seus olhos eram completamente brancos:
- Irá querer algum troféu para adicionar a sua coleção?
- Não, mate-os e jogue-os as bestas feras para que os devorem, e será muito bem recompensado!
- As suas ordens!
O homem levantou-se e caminhou para a porta acompanhado de Sinar que aproveitou para deixar seu mestre só.
Mark ficou sentado em seu trono na sua escura sala, perdido em pensamentos sombrios, e com um certo temor que o afligia desde a primeira fez que teve alguns artefatos perdidos por interferência dos quatro, seria possível que uma força divina se opunha a seus planos?

FIM DO INTERLÚDIO

Voltemos agora para o alegre povoado élfico onde o som do rio aliado aos cantos dos mais diversos pássaros produz um som que remete a tempos antigos em que a palavra guerra ainda não existia e o mal era algo tão distante como uma lenda, encostado em uma árvore ao lado do rio estava o bárbaro, de olhos fechados e com um sorriso nos lábios (coisa rara de se ver), escutava atento toda aquela orquestra da natureza e se deixava levar por uma sensação de paz jamais sentida antes, desde de criança sempre foi forçado a sobreviver, lutando pela própria vida, nem sempre Aderlius foi um bárbaro, mas se tornou ao ver seu povo escravizado, porém naquele lugar tudo isso se dissipava, no entanto ainda não estava nos lugares de descanso eterno, e um retumbar de cavalos ali perto o despertou de seus sonhos, sonhos esses onde dançava junto as belas Naíades ao som do rio em meio ao farfalhar da folhas, com muitas risadas e espectadores nada comuns, como os animais que habitavam as matas, e por um momento (talvez o lugar fosse mágico, assim pensou Aderlius) sentiu como se pudesse tocar nas mãos das belas dançarinas do rio e esticar o braço para pássaros dos mais diversos tamanhos pudessem pousar e entoar suas canções, mas como foi dito, um barulho de muitos cavalos ali perto o fez despertar, e isso o irritou de tal maneira que pegou seu machado e correu crendo quer algum inimigo iria pagar pelo incomodo, mas o que pode observar é que os elfos estavam dando passagem aos cavaleiros, todos com armaduras e como o mesmo brasão, se aproximou e tentou se lembrar onde tinha visto aquele símbolo, era um lobo com duas lanças cruzadas atrás, depois que os quase cem cavaleiros passaram conseguiu se lembrar, era o símbolo do Conde de Minalmar.
Quando Aderlius chegou até o centro da vila élfica, seus amigos já estavam conversando com os cavaleiros, em especial com um que parecia ser o capitão, sua armadura era diferente e tinha “mais frescuras”, na opinião do bárbaro.
- O que está acontecendo?
- São os homens do Conde, um dia após termos chego, os elfos enviaram batedores para dar a noticia ao Conde em Minalmar depois de termos reportado a situação à Lord Siroli.
- Puxa! Então a viagem vai ser longa!
- Doze dias a cavalo para ser mais preciso! Falou o homem que parecia ser o capitão dirigindo-se ao bárbaro.
- Espero que tenham trazido cavalos para nós!
- Com certeza, o Conde deu ótimas recomendações de vocês e nos pediu para escoltá-los com a maior segurança, ficaremos aqui essa noite e partiremos amanhã antes do sol nascer!
Sendo assim os amigos foram até seus quartos e começaram a se preparar para o caminho de volta, Wellan não tinha armadura de cavaleiro e usava roupas élficas, o que no começo causou certa estranheza, mas como já estavam ali a mais de duas semanas acabaram se acostumando. O paladino resolveu caminhar pela cidade e se despedir dos amigos que fizera ali, devemos lembrar que em tempos de guerra e conspirações humanos geralmente não são bem aceitos pelos elfos, mas pela maneira com que chegaram e com quem chegaram foram recebidos como heróis élficos, e o paladino com toda sua diplomacia realmente fez grandes amizades, na verdade todos a fizeram, cada um a seu modo.
Enquanto Robs caminhava pela cidade, Aderlius voltava ao rio para continuar na companhia das belas dançarinas e seus “amigos silvestres” e Wellan conversava com um elfo ancião, Fujin chamou Phillipus até o quartel, pegou o arco que pertencera a Felon e lhe deu:
- Não posso aceitar General, nem mesmo sei se vou conseguir usá-lo.
- Primeiramente, estou pedindo para que você não me chame de General há alguns dias...
- Força do hábito senhor.
- ... e por segundo, qualquer um pode usar um arco desses, só é preciso uma boa dose de dedicação em treinamento!
- Nossa, agora estou me sentindo um elfo!
Fujin sorriu:
- O povo élfico é conhecido pela sua nobreza, justiça e bondade, sem essas qualidades jamais saberá como é ser um elfo, afinal até mesmo os elfos traidores já não são tratados como elfos! Você tem essas qualidades?
- Acredito que sim!
- Você e seus amigos parecem ter muita sorte, ou talvez sejam escolhidos do céu, mas acredite, chegarão momentos em que seu caráter será provado e sem essas qualidades poderá se voltar para o lado errado, e nem perceberá, então começará a acreditar que está do lado certo, e o que era ruim passará a ser bom, por isso, muito cuidado com seus passos futuros, não é um arco que fará de você um homem semelhante a um elfo, mas sim seu caráter e suas atitudes, lembre-se disso.
- Poxa, que medo que eu senti agora, o futuro pode ser aterrador!
- Não, se você estiver certo de qual lado servir sempre estará em paz!
- Mas como você disse, existem momentos que nos perguntamos se o que fazemos é correto.
- No fundo todos sabemos o que é correto, apenas camuflamos para satisfazer nossa vontade, por isso sempre alerto os elfos, nunca dêem ouvidos a criaturas que só falam o que vocês querem ouvir. Bem, eu também vou indo meu jovem, vocês partem para um lado e eu para o outro.
- Vai para onde Gen.., quero dizer Fujin?
- Voltar para a minha vila, sei que ainda existem elfos lá e que estão passando dificuldades, irei trazê-los para cá, esse é o ultimo refugio élfico seguro!
E essa foi ultima vez que Phillipus conversou com o grande herói de sua infância, o valente elfo de cabelos prateados e feroz em batalha Fujin, porém, em suas caminhadas ainda ouviu falar por muito tempo de sua pessoa e seus atos.
No outro dia pela manhã, acordaram muito cedo, já haviam se despedido de todos e partiram sem que alguém os visse, Fujin e seus homens também já haviam partido, apenas as duas elfas ficaram ali, esperando o retorno do resto de seu povo. Os quatro aventureiros se sentiam diferentes, importantes, cem cavaleiros montados com armaduras completas portando estandarte e tudo os protegiam, é claro que toda aquela movimentação chamava a atenção, porém qualquer um sabia ser imprudente se colocar no caminho daquele pequeno exercito, e assim sem grande problemas cavalgaram durante dezoito dias, o comandante da tropa havia dito doze dias, mas não contou as horas da noite em que precisavam parar para dormir, e como eram muitos não haviam instalações nas cidades do caminho, por isso precisavam armar um pequeno acampamento toda vez que faziam uma pausa. Por onde passavam olhos curiosos admiravam, invejavam e cobiçavam.
Depois de tão árdua viagem finalmente retornaram a Minalmar, foram recepcionados pelo próprio Conde, Al Rinaldi, Kalil e uma mulher com trajes do povo do deserto como dois dos citados acima, devemos dizer que a mulher chamou muito a atenção do ranger. O Conde lhes ofereceu um banquete onde pediu que contassem tudo o que acontecera durante a viagem, o que só aumentou a admiração dos presentes para com os quatro amigos; no outro dia todos foram até os porões do Conde onde as esferas foram destruídas não por armas, mas lançada em um tonel de aço fundido, ou era o que parecia:
- Não pensem que o que está derretido ali é apenas aço, pois o aço não tem efeito sobre as esferas, não importa a temperatura ou circunstâncias, eu sou o único no mundo com recursos capaz de destruir certos artefatos! Gabava-se o Conde, que com seu vozeirão dava o ar de ser um grande monarca.
Aderlius, Robs, Phillipus e Wellan ficaram sob a proteção do Conde até que o inverno findasse, mas logo que a primavera teve inicio decidiram que era hora de voltar para casa, na verdade deveriam ter voltado há tempos, mas toda aquela mordomia os havia encantado tanto que resolveram desfruta - lá o máximo possível. Quando anunciaram sua partida toda aquela região já os conhecia e muito amigos também foram feitos ali, uma festa de despedida foi dada, não nos salões do Conde apenas para os nobres, mas nas ruas do condado (na verdade o povo daquela região gostava muito de festas, e isso foi só uma justificativa para realizar mais uma), após toda a agitação, o Conde chamou os quatro amigos os levou até um grande salão onde podiam ver várias armas e armaduras:
- Vocês não sabem o bem que fizeram, eu realmente achei que vocês não conseguiriam recuperar as esferas e que uma grande guerra teria inicio em nosso mundo, mas cumpriram com seu papel e além do ouro que já lhes dei, dou-lhes a oportunidade de escolherem um item desta sala, cada um vocês, escolham com sabedoria!
Robs não queria nada a principio, “coisas de paladino” dizia o cavaleiro tentando argumentar com o Conde para poder ficar com a escolha do amigo, mas não foi possível, então o cavaleiro escolheu uma armadura inteira, afinal o conjunto era um só, o Conde não gostou muito de inicio mas concedeu o desejo de Wellan que ao vesti – lá teve a estranha sensação de estar mais protegido; já Aderlius viu um colar que o arremeteu ao passado, um adorno que era muito usado por seu povo, todos estranharam, mas não questionaram, o Conde deu uma risadinha, mas nada falou, o bárbaro sentiu-se com muito mais vigor, parecia que seu corpo todo estava mais forte, porém não deu muita bola e saiu dizendo que iria parar de beber. Phillipus gostou de um par de luvas, e ao contrario doa amigos, suspeitava que os artefatos ali tivessem algo de especial, por isso, por ser um arqueiro procurou algo que pudesse estar relacionado com sua arma, e o mais próximo que encontrou foi aquele par de luvas, as colocou, não sentiu nada de diferente, mesmo assim ficou satisfeito; Robs ainda se recusava a aceitar algo, então o Conde simplesmente lhe deu um pequeno saquinho com um pouco de carvão resolvendo a pendenga.
Montados em seus cavalos com suas mochilas cheias os quatro partiram sob o belo nascer do sol, deixando para trás grandes amigos e aliados, olhos atentos os acompanharam até que sumissem no horizonte, já não eram tão desconhecidos e tudo o que essa aventura representou para suas vidas só iria se refletir nos dias futuros.


EPÍLOGO

- Cara, você é um animal!
- Ei, olha como você fala comigo, sou um homem santo!
- Homem santo? Você é um homem burro, por que não me deixou pegar aquela espada por você, ou então por que não a pegou pra mim, agora eu estou com uma armadura super legal e uma espada chinfrim.
- Você nunca está contente não é Wellan?
- Dá um tempo Robs, um pacotinho com carvão? Isso aí não dá nem pra assar um rato!
- Aí, vocês dois, a Vila do Milho é logo ali na frente, dá pra parar de falar nesse “saquinho de carvão”? Por que nos últimos cinco dias vocês só falam nisso!
- Não precisa ficar nervoso Phillipus é só tapar a boca do Wellan!
- Sinceramente, eu acho que sou o único bárbaro que anda com gente assim e ainda não os matou!
- Fala sério, no fundo vocês me amam!
Os três em coro falaram olhando para o cavaleiro:
- Cala a boca Wellan!!!
E assim, os quatro aventureiros que eram quatro amigos (mesmo que muitas vezes isso não era tão obvio) continuaram seu caminho, ainda iriam cometer muitos atos tolos, desesperados e claro, heróicos, aliás, mais a frente um grande perigo os esperava, ali mesmo, na Vila do Milho, mas isso já é uma outra história!

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